Onde estão os pretos no Repórter Brasil?

Coluna da Ouvidoria
Joseti Marques - Ouvidora da EBC

Reprodução/TV Brasil

Reprodução / TV Brasil


Se pudéssemos resumir, na Lei de criação da EBC, o que são os princípios, objetivos e competências da radiodifusão pública, a definição mais apropriada seria “a defesa e promoção dos direitos humanos”. O papel discursivo que cabe aos seus veículos na função de complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal talvez pudesse ser mais bem desenvolvido se partisse deste princípio em suas produções. Obviamente que exigiria um esforço de reinvenção sempre muito difícil para o campo midiático, onde “nada se cria; tudo se copia”, segundo a máxima consagrada pelo Chacrinha.  

Quando uma agência de notícias, uma emissora de TV e um sistema de rádios públicos têm como missão, segundo a Lei, “desenvolver a consciência crítica do cidadão”, o convite à inovação já está posto, inclusive apontando para a necessidade de uma nova forma de medição de resultados: não mais uma corrida por índices comerciais de audiência, mas uma verificação, ao lado, claro, da necessária audiência, de eficácia social – este, aliás, é o objetivo de qualquer política pública, onde também se inscreve a criação da EBC.

Mas como produzir relevância social em formato de notícia, de programa de rádio e TV, tornando-se atraente para o grande público, para competir em novas bases no território hegemônico das empresas privadas de comunicação? Como reinventar o velho e inaugurar o novo, tornando-se verdadeiramente uma opção, sem correr o risco de fazer apenas mais do mesmo, com menos condições?

Esta foi uma das inquietações que levaram à criação de um Centro de Pesquisa Aplicada em Comunicação Pública na EBC, projeto conduzido por esta ouvidora. O Centro não chegou a cumprir seu destino, embora esteja consolidado no Regimento Interno da empresa e cadastrado no Diretório de Centros de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).  

Uma pesquisa chegou a ser iniciada, justamente pela Ouvidoria. Embora não tenha sido concluída, apresenta alguns dados relevantes que talvez, no futuro, possam ajudar os veículos públicos a encontrarem, entre suas muitas missões, formas eficazes de contribuir para a desmobilização da histórica discriminação racial que produz graves prejuízos aos direitos humanos de larga parcela de brasileiros.

Na pesquisa, a Ouvidoria analisou 26 edições do Repórter Brasil, edição da noite, do mês de março de 2017. O objetivo foi identificar a presença e a posição ocupada por pessoas pretas no noticiário do principal telejornal da TV Brasil. O levantamento dividiu os 460 itens observados nas seguintes categorias: reportagens (327), enquetes (49), notas cobertas (45), escaladas (32), matérias especiais (4), e entrevistas (3). Foram vistas e computadas 2.330 imagens de pessoas.

Para a classificação dos dados observados, utilizamos a classificação do IBGE de pretos, pardos, brancos, indígenas e amarelos – estes últimos, por não se constituírem no foco específico do levantamento, foram classificados como “outros”. Mas é preciso chamar atenção para o fato de praticamente não aparecerem nas cenas. Quanto à posição ocupada pelas pessoas nas diversas matérias, utilizamos categorias genéricas: repórteres/comentaristas; autoridades públicas; representantes não governamentais (sindicatos, ONGs, etc.); representantes de empresas; especialistas; populares (tecnicamente chamados de “povo-fala”); pessoas não identificadas (apenas imagens), e celebridades.

O resultado deste levantamento mostrou que até mesmo entre os profissionais da EBC os que mais aparecem no vídeo são brancos. Entre as autoridades públicas, o telejornal tem uma representação de pretos menor até mesmo do que a proporcionalidade do Congresso, onde 20% de parlamentares se autodeclararam “negros” (soma de pretos e pardos, segundo classificação do IBGE); nos telejornais analisados, pretos são pouco mais de 3%. Somados pretos e pardos, somam pouco mais de 10%. Neste mês analisado, quase não foram ouvidos especialistas pretos nos diversos assuntos. Até nas entrevistas com populares o número de pretos é menor. Nas imagens gerais, aparecem 213 pessoas pretas, enquanto 700 são brancas (veja dados completos nos gráficos abaixo).

A pesquisa pretendia estabelecer uma comparação entre diversos períodos do telejornalismo da TV Brasil, bem como dos demais veículos públicos, o que não foi possível. No entanto, essa breve amostra já chama a atenção para o fato de a EBC não espelhar uma realidade verdadeiramente plural em seu veículo de maior visibilidade e em seu produto de maior prestígio, que é o Repórter Brasil, edição da noite.

Em que pese a louvável iniciativa de levar ao ar uma novela, mesmo que estrangeira, com protagonistas pretos ocupando posições socioeconômicas de destaque na trama, nada poderia ser mais efetivo e pedagógico no esforço de desmobilização do racismo do que convidar economistas, sociólogos, ambientalistas, cientistas políticos, professores, cidadãos comuns pretos a compartilharem os espaços jornalísticos de opinião sobre a vida nacional, seja na política, na economia, no conhecimento, nas artes ou no cotidiano.  

Diversidade não é apenas mostrar que o outro existe, como uma figurinha politicamente colada em alguns espaços da programação, enquanto na vida real, narrada pelo jornalismo, é relegado à ilustração, protagonismo ou confirmação apenas de dados de pesquisas. Segundo o Atlas da Violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são pretas. E a cada ano os dados se repetem, quando não se multiplicam.

Em levantamento sobre a larga faixa de programação infantil da TV Brasil, verificamos o equilíbrio entre personagens representando diversas cores/raças e funções nas histórias – todos são protagonistas.  Mas com o passar do tempo – e da programação – as crianças pretas que hoje nos honram com sua audiência vão perdendo aos poucos a referência de si mesmas no mundo das narrativas jornalísticas e midiáticas, onde seus melhores espelhos não passam de personagens de ficção.

Abaixo, os gráficos para melhor visualização da desproporção – ou da desigualdade – entre brancos e pretos no telejornalismo da TV Brasil.

Gráficos
 
Até a próxima!

                                                                                                                                                                                                          Fale com a Ouvidoria:

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