Leitor reclama da Agência e diz que matéria foi censurada

Coluna da Ouvidoria
Joseti Marques - Ouvidora da EBC

Na primeira semana deste ano, a Ouvidoria recebeu uma reclamação de Glauber G. dos Santos, do Rio de Janeiro/RJ, acusando a Agência Brasil de ter praticado censura ao retirar do ar uma reportagem que tratava da repercussão da notícia, publicada por colunista do jornal O Globo, de que o governo, rompendo uma tradição de 20 anos, não acataria a indicação do primeiro nome da lista tríplice para a presidência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Tratava-se de reportagem apontando a repercussão negativa da não indicação, por parte do Ministro da Saúde, da candidata mais votada para a presidência da Fiocruz. (...) A matéria, distribuída pela Agência Brasil, no entanto já havia sido replicada por diversos veículos (...). É uma lástima que a Agência Brasil e a TV Brasil venham tendo seu caráter público atacado desta forma desde que este governo assumiu. Espero que providências sejam tomadas.

A Ouvidoria encaminhou a reclamação para a Agência, que justificou da seguinte forma a exclusão da matéria:

A matéria não foi retirada do ar por seu conteúdo crítico, mas sim porque sua liberação foi feita antes de [ter sido] editada, enquanto o material estava sendo analisado pelo editor executivo. A matéria se baseava em uma suposta indicação, revelada em uma coluna do jornal O Globo. A Agência Brasil não publica matérias baseadas em especulação.”

Para o leitor, a justificativa não foi suficiente e ele voltou a reclamar:

“A reunião da Fiocruz, o movimento de seus trabalhadores, o pronunciamento oficial de uma instituição de Estado de renome internacional e o apoio institucional obtido no Brasil e no exterior são fatos concretos, claramente dissociáveis de especulações (...) diversos outros veículos de envergadura nacional e alta credibilidade publicaram matéria. Não teria por que a Agência Brasil ignorar o fato.”

A resposta à réplica do leitor reafirmou os argumentos oferecidos pela Agência na primeira resposta:

“Reafirmo que o critério para a retirada da matéria foi porque estava baseada em especulação de um colunista. Quanto à notícia ser veiculada por ‘outros veículos de envergadura nacional’, os critérios editoriais dessas publicações são diferentes dos da Agência Brasil, que é uma agência pública, e não publica matérias baseadas em especulação.”

A polêmica prosseguiu por mais uma comunicação, o que, de certa forma, convida a Ouvidoria a se manifestar sobre o assunto. Cabe lembrar que a Ouvidoria não responde diretamente às mensagens. As críticas, elogios e comentários são encaminhados aos responsáveis pela produção de conteúdo de cada um dos veículos, para que eles tomem conhecimento e/ou respondam diretamente. É uma forma de aproximação que contribui para que os gestores conheçam a percepção do público sobre o trabalho que estão realizando e, de outro lado, para que o público também se reconheça como partícipe no sistema público de comunicação. Em situações polêmicas, o papel da Ouvidoria é o de mediação e análise do conteúdo criticado, no sentido de promover o investimento em qualidade e recompor a relação de confiança do usuário nos veículos do sistema público.

A Agência Brasil é uma prestigiada agência de notícias e tem seu material reproduzido por muitos veículos da imprensa nacional e até mesmo de outros países. Por isso, embora não conste mais do arquivo da Agência Brasil, a matéria que o leitor reclama pode ser vista em outras mídias. Para que o leitor desta Coluna possa acompanhar a análise da Ouvidoria e conferir os detalhes, disponibilizamos aqui o link para a versão digital da revista IstoÉ, que republicou a matéria na íntegra.

Em resumo, a reclamação do leitor focaliza apenas o fato de a reportagem ter sido retirada do ar, sem que tenha feito qualquer comentário sobre o seu conteúdo. A discussão ganha fôlego apenas quando o leitor recebe a resposta do responsável pela Agência e passa a questionar os critérios que foram usados para justificar a exclusão da matéria. Um deles, o de que o conteúdo baseava-se em especulação de um colunista de outro veículo. A contestação do leitor chama a atenção para o fato de que várias entidades se manifestaram contrariamente à ameaça de que a primeira colocada na lista tríplice não tivesse seu nome confirmado pelo Ministério da Saúde. Ele tem razão ao afirmar que esses dados eram suficientes para dar sustentação à notícia.

A comoção que tomou conta dos servidores da Fiocruz, o movimento e as manifestações de apoio que receberam de entidades renomadas é fato relevante, não importando a fonte geradora do acontecimento.  Por outro lado, o responsável pela Agência também tem razão quando diz que não publica matérias baseadas em especulação. Todos sabemos que notas de colunas muitas vezes são balões de ensaio ou tentativa de interferir nos acontecimentos, favorecendo ou desfavorecendo A ou B. O que, evidentemente, não é o caso do colunista do prestigiado jornal carioca. No entanto, mesmo que fosse especulação, os acontecimentos a partir daquela informação ainda teriam valor de notícia.

Talvez a percepção de que a matéria estaria repercutindo uma especulação tenha sido provocada pelo texto do seguinte parágrafo: “Segundo noticiou ontem (29) o colunista Ilimar Franco, do jornal O Globo, o governo nomearia Tania, rompendo a tradição de mais de 20 anos, de sempre nomear para o cargo a pessoa que vence a eleição feita pelos servidores da instituição”.

Mesmo usando o verbo no condicional, o texto parece confirmar e colocar em primeiro plano a nota do colunista, encaminhando todo o restante da matéria com base nessa informação. Para qualquer veículo, é uma temeridade assumir notícias não confirmadas. Partindo desse princípio, o argumento do responsável pela Agência está correto, embora tenha errado ao subdimensionar os eventos provocados pela nota.

O título da reportagem também é inadequado e corrobora a percepção de que a Agência estaria repercutindo especulação: “Fiocruz se manifesta contra desrespeito à eleição para presidente da instituição” – como se o “desrespeito” já estivesse consumado. Em uma abordagem correta do assunto, o melhor seria dizer que Fiocruz se manifesta em defesa de pesquisadora eleita para presidir a instituição, esclarecendo, ao longo do texto, o que se constituía em ameaça, onde a nota do colunista se incluiria sem grande destaque, apenas como o motor da comoção – porque, temos que concordar, a reação do meio acadêmico e científico teve força de notícia por si só.

No final das contas, a ameaça não se confirmou e a pesquisadora Nísia Trindade Lima assumiu a presidência da mais destacada instituição de pesquisa em saúde da América Latina, a Fiocruz.

Apesar da contestação do leitor, o responsável pela Agência está correto ao afirmar que a matéria deveria passar pelo editor antes de ser publicada – não para controle editorial, mas para corrigir pequenos deslizes de texto que podem pôr a perder o esforço de reportagem. No entanto, esses detalhes talvez tivessem passado despercebidos, não fosse a decisão equivocada de retirar a matéria do ar, quando o melhor seria promover as correções e assumir que havia erros na publicação original, dando conhecimento aos leitores. A emenda acabou ficando pior do que o soneto, porque fez recair sobre a Agência Brasil a suspeita de ter promovido censura, apenas porque o assunto poderia ser inconveniente para o governo.

A Ouvidoria agradece a contribuição do leitor Glauber G. dos Santos, na certeza de que a crítica é um instrumento para a promoção da qualidade.

Até a próxima!

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