A delação de Joesley Batista na mídia pública

Coluna da Ouvidoria
Joseti Marques - Ouvidora da EBC

Michel Temer e Joesley Batista

Marcos Corrêa/Fotos Públicas

Cataclismo. Apocalipse. Hecatombe. Catástrofe. Terremoto. Estas foram as principais metáforas usadas pela imprensa para descrever a sucessão de acontecimentos desencadeados pelas revelações, no âmbito da Operação Lava Jato, da delação do empresário da JBS, Joesley Batista, publicadas pelo jornal O Globo no início da noite de quarta-feira, 17/5. Mas para a mídia pública o conteúdo bombástico parecia não ter a dimensão de gravidade e interesse público reconhecido por toda imprensa.

No Portal, o assunto apareceu somente às 21h50. O título “Temer diz que jamais solicitou pagamento para obter silêncio de Cunha” conduzia à nota da Presidência da República, negando a acusação contra Temer.  O título ficou sem sentido próprio, na dependência da informação oferecida por outros veículos, já que não havia notícia, nem no Portal e nem na Agência, qualquer matéria sobre o que teria motivado a declaração.

Na manhã do dia seguinte, a nota oficial permanecia como manchete na capa do Portal, embora o caso já apresentasse desdobramentos. Na Agência, o lide da reportagem ainda era a nota oficial, mas com alterações no restante do texto, feitas às 23h56, “para acréscimos de informações”.  Depois dos cinco parágrafos dedicados à nota expedida pela Presidência da República na véspera, a matéria se refere ao fato gerador da manifestação, resumindo, em apenas cinco linhas, a notícia sobre a gravação de Joesley Batista comprometendo o presidente da República.

Nesta mesma reportagem, a Agência relata a reação de parlamentares, que encerraram a sessão na Câmara e no Senado logo após a divulgação da notícia, às 19h30; cita ainda o encerramento, às 19h50, da reunião que Temer estava tendo com governadores da Região Nordeste; e a manifestação contra Temer, diante do Palácio do Planalto, que, segundo a mesma reportagem, teve início às 21h50. Havia repórter no Congresso, mas nada disso foi informado ao público no dia em que estava acontecendo, mesmo na era de comunicação instantânea e em tempo real. A reportagem encerra como começou – com a íntegra da nota oficial.

Passado o primeiro grande impacto, a Agência Brasil se alinha e segue informando o que há de fato novo sobre o caso. No Portal, um descompasso e um aparente desconforto com a notícia: das 08h às 20h, das seis manchetes que ocuparam a capa, três eram vozes oficiais; a última delas permaneceu no espaço principal do Portal daquela tarde até o fim do dia:  “´Não renunciarei´, diz Temer em pronunciamento”. Na manhã do dia seguinte, o título “Para Temer, áudio de conversa com dono da JBS confirma sua inocência” atribui, pelas palavras usadas, uma carga de sentido incompatível com os fatos e declarações, tanto do presidente quanto em relação ao que estava efetivamente descrito na matéria.

Na edição da noite do telejornal Repórter Brasil, que vai ao ar das 19h45 às 20h30, na TV Brasil, nenhuma informação sobre o assunto. Mesmo tendo sido divulgado somente às 19h30 por um veículo da mídia comercial, o encerramento abrupto das sessões da Câmara e do Senado, logo após os parlamentares tomarem conhecimento da matéria publicada na edição digital de O Globo, seria um fato bastante relevante para ser noticiado, pelo menos em uma nota, por repórteres que regularmente estão cobrindo o Congresso – o que levaria o telejornal, fatalmente, a ter que se referir à denúncia que já era manchete em outros veículos. Mas o público do Repórter Brasil foi excluído da informação.

No dia seguinte (18/5), o Repórter Brasil edição da tarde também pareceu desconfortável com a notícia.  A delação de Joesley Batista, apontando para o presidente Michel Temer, aparece como primeira notícia da escalada – abertura do telejornal onde são anunciados os destaques da edição. Apesar da promessa na escalada, o telejornal contornou os fatos, dando destaque às buscas e apreensões nos imóveis de Aécio Neves, sem se referir ao acontecimento principal ou ao nome do presidente. A informação ficou escondida em uma metáfora: “Começamos essa edição pelo turbilhão que toma conta de Brasília desde ontem. Hoje a Polícia Federal fez buscas e apreensões em imóveis ligados ao senador Aécio Neves...”.  O personagem principal desta edição foi o senador afastado Aécio Neves, que ocupou as três primeiras reportagens do telejornal.

As duas primeiras foram sobre os mandados de busca nos imóveis de Aécio em Brasília e em Minas Gerais. Em nenhuma delas houve citação ao fato que desencadeou os acontecimentos. Na terceira reportagem, sobre as buscas e apreensões nos imóveis dele no Rio de Janeiro, o texto cita o nome de Michel Temer, mesmo assim de forma constrangida, contornando os fatos com texto pouco informativo:

“A operação em torno do senador Aécio Neves foi deflagrada um dia depois da divulgação das denúncias contra ele e o presidente Michel Temer. Como você viu, as acusações foram feitas pelo empresário Joesley Batista, dono do frigorífico JBS”. Cabe perguntar: viu onde?

A reportagem que veio a seguir, quarta da edição, informou o histórico dos acontecimentos, citando o jornal que foi a fonte da notícia, fechando a narrativa com as declarações oficiais de Eliseu Padilha, Moreira Franco e a nota do Presidente da República, que na véspera já haviam sido destaque nas mídias públicas digitais.

Na passagem deste primeiro bloco de notícias para o intervalo, a chamada promete a repercussão da crise no Congresso “onde já existem pedidos de impeachment contra o presidente Temer”. No entanto, na volta do intervalo, o texto de apresentação da reportagem, lido pela apresentadora, deixa novamente transparecer um desconforto em dar nome a pelo menos um dos personagens:

“Parlamentares começaram a se movimentar com as denúncias que sacudiram ontem o país. Já foram protocolados pedidos de impeachment e de cassação contra os dois principais citados”.

Se no passado distante o mensageiro foi morto por Dario III porque lhe trouxe a má notícia da derrota para Alexandre, o Grande, na era da informação a história se inverte, mas ao mensageiro ainda não resta escolha: ou dá a má notícia ou terá que se submeter à guilhotina do descrédito, perante a opinião pública.

Até a próxima!

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