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Festival de Brasília anuncia vencedores neste domingo

  • 24/09/2017 17h48publicação
  • Brasílialocalização
Leandro Melito - Repórter da Agência Brasil

Debate sobre o longa-metragem Vazante, de Daniela Thomas, durante o 50 Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Debate sobre o longa-metragem Vazante, de Daniela Thomas, durante o 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro Junior Aragão/Divulgação

Os vencedores do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro serão anunciados hoje (24), durante a cerimônia de encerramento do evento, no Cine Brasília, após a exibição de Abaixo a gravidade, novo longa-metragem do diretor baiano Edgard Navarro.

A última sessão da mostra competitiva foi realizada nesse sábado (23). Ao longo de oito dias, o festival exibiu nove longas e 13 curtas-metragens. A Mostra Competitiva premiará curtas e longas-metragens em 22 categorias técnicas.

O Prêmio Petrobras de Cinema contemplará os filmes escolhidos pelo júri popular com R$ 200 mil para melhor longa-metragem da Mostra Competitiva e R$ 100 mil para o melhor longa da Mostra Brasília.

Conheça os longas-metragens que concorrem ao Troféu Candango no Festival de Brasília:

Vazante (SP)

Daniela Thomas, co-diretora dos longas Terra Estrangeira (1996) e Linha de Passe, ao lado de Walter Salles, estreia na direção de seu primeiro longa-metragem solo com uma história que se passa no Brasil do século 19, em uma fazenda localizada na cidade de Vazante, na região do Serro, em Minas Gerais. O enredo gira em torno do proprietário da fazenda, o português Antônio, comerciante de escravos e de gado, a perda da mulher e de seu filho durante o parto e seu casamento com Beatriz, uma menina de 12 anos.

Aplaudido durante a estreia no sábado (16), o filme gerou o debate mais acalorado do festival, por causa da discussão sobre a representação dos negros no cinema.

“Esse filme foi escrito do ponto de vista da cadeira que eu sento, da cor da minha pele”, afirmou a diretora durante o debate. Em meio à discussão, Daniela chegou a dizer que não faria o filme dessa forma se o rodasse hoje. “Era minha intenção contar a história das relações de poder totalmente perversas que fizeram a minha vida. É o filme sobre a história de uma menina branca, eu, que revisita o seu passado, o passado da sua família, tentando entender essa dinâmica do homem todo poderoso, senhor da família e de todas as mulheres, não só da esposa, mas todas as empregadas. É o desejo de investigar a origem de uma coisa que parece tão natural, que a gente convive, aceita, releva, finge”, afirmou.

Pendular (RJ)

No roteiro escrito em parceria com seu marido, Matias Mariani, a diretora Julia Murat aborda a relação de um casal de artistas que divide o mesmo espaço: um galpão industrial abandonado, repartido de maneira igual entre eles: metade para a dança e metade para a escultura. No desenrolar da trama, as relações do casal, assim como do próprio espaço, sofrem modificações e são renegociadas. As mudanças na relação do casal também afetam suas obras.

“Esses processos artísticos precisavam entrar [no filme] pra falar da própria relação. A gente sentiu que os processos que eles estão vivendo, as construções que eles estão criando interferiam na relação e a relação interferia nas construções. Então pra isso o que a gente fez foi de fato criar uma performance e de fato criar obras de arte”, disse Julia Murat.

Café com Canela (BA)

Primeiro longa-metragem dirigido em parceria por Ary Rosa e Glenda Nicácio, Café com Canela se passa nas cidades de Cachoeira e São Félix, no Recôncavo Baiano, e trata do reencontro entre duas mulheres que vivem momentos bastante diferentes. Ao encontrar sua professora Margarida em uma situação de isolamento, Violeta busca com pequenos gestos levar alegria à amiga.

Ary Rosa e Glenda Nicácio formaram-se em cinema pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e fundaram a produtora independente Rosza Filmes, em Cachoeira, cidade que permeia todo o filme, desde a música até a linguagem cinematográfica utilizada pelos diretores. O filme foi elogiado durante a sessão de debate por críticos e outros diretores pela linguagem cinematográfica e a construção dos personagens, cujo elenco é todo formado por atores e atrizes negros.

“A cidade é um elemento da narrativa e da linguagem. A gente assumiu Cachoeira e tudo é pensado com o respeito dessa cidade, então a gente, com muito cuidado, fez esse movimento de agregá-la ao filme”, contou Ary Rosa.

“Eu quero fazer cinema nesse lugar que eu estou, porque é a vida dessas pessoas que eu quero contar. É nesse lugar que eu quero fincar o meu pezinho e passar e pedir licença pra passar”, acrescentou Glenda Nicácio.

Construindo Pontes (PR)

O filme retrata a relação da própria diretora Heloisa Passos com seu pai, Álvaro, engenheiro conservador que viveu o ápice de sua carreira profissional durante a ditadura militar, tendo como ponto de partida a construção da Usina de Itaipu. A diretora busca discutir com seu pai aspectos políticos e econômicos do país naquele período. Filmado em 2016, em meio ao processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, as conversas passam para a discussão da política atual e acabam muitas vezes em cenas de confronto verbal entre os dois.

“Eu me vi num jogo realmente, que é essa aventura de viver mesmo. É uma exposição muito grande fazer esse filme, acho que é o cinema que eu estou buscando, que é olhar pras coisas que estão bem perto de mim. Depois de tantos anos filmando a vida de tantos brasileiros eu decidi filmar a vida de um brasileiro e de uma brasileira que sou eu e ele”, afirmou a diretora.

O Nó do Diabo (PB)

Dirigido por Ramon Porto Mota, Ian Abé, Jhésus Tribuzi e Gabriel Martins, o longa-metragem traz no elenco a atriz Zezé Motta e trata da herança escravocrata no Brasil em cinco contos de terror ambientados em uma fazenda onde há diferentes representações da resistência dos negros e dos horrores a que foram submetidos por meio da ficção.

“Trago questões pessoais para o filme como homem negro, e os meninos tiveram uma consciência muito clara disso desde início, que essa troca era extremamente importante. Tudo foi muito discutido nas salas de roteiro, como pensarmos o filme e nos apropriarmos daquela questão [escravidão] que é muito dura”, afirmou Gabriel Martins.

“É um filme B, no sentido estético e narrativo, gosta de ser dessa maneira e acha que sendo um filme B ele está falando o que tem que falar”, afirmou Ramon Porto Mota.

“O gênero [cinematográfico] pode agregar qualquer tipo de discussão. A gente tem essa vontade de utilizar certos clichês dos gêneros para falar sobre qualquer coisa que seja necessário ser discutida”, complementou Jhésus Tribuzi.

Por trás da linha de escudos (PE)

Documentário dirigido por Marcelo Pedroso, diretor de Brasil S/A (2014), o filme retrata o cotidiano da Tropa de Choque da Polícia Militar de Pernambuco e dividiu as reações da plateia após a exibição, entre vaias e aplausos, e recebeu duras críticas durante o debate. Marcelo e sua equipe entraram no cotidiano da corporação e chegaram a acompanhar uma operação dos policiais em uma unidade estadual para menores infratores.

Pedroso destacou o desafio da proposta para fazer o filme em uma situação de desacordo com as pessoas retratadas. “Existe um paradoxo gigantesco nesse tipo de gesto, você quer fazer um filme contra aquelas pessoas mas você quer estar junto delas pra fazer esse filme. Você precisa de uma anuência de participação delas, esse filme precisa de alguma forma mobilizá-las a participar. É um gesto arriscado porque a dinâmica de contato tem uma questão empática”, disse o diretor durante o debate sobre a obra..


Era uma vez Brasília (DF)

Terceiro longa-metragem de Adirley Queiroz, diretor do Distrito Federal, que já levou o Troféu Candango do Festival de Brasília com o curta Rap, o canto da Ceilândia (2005) e o longa-metragem Branco sai, preto fica (2014). A trama começa em 1959, quando o atente intergalático WA4 é lançado no espaço com a missão de vir para a Terra e matar o presidente Juscelino Kubitschek no dia da inauguração de Brasília, mas a nave se perde no tempo e aterriza em 2016 em Ceilândia, cidade na periferia da capital federal.

Segundo Queiroz, o filme não parte de um roteiro, mas de cenas trabalhadas com os atores em diferentes regiões do Distrito Federal, o que ele define como uma etnografia de ficção.

“Esses personagens embalam um espaço de ficção e a partir dai a gente faz uma etnografia sobre eles, que é uma possibilidade de você fabular. Na minha cabeça é muito mais importante a ideia fabular do que essa tal ideia do real. Eu acho que o real hoje em dia, mais do que nunca, é opressor. Meu filme é um documentário no sentido de que a gente parte de uma etnografia que é uma ficção. O filme não parte de uma ideia de roteiro, não existe uma linha de roteiro, nunca existiu.”

Arábia (MG)

Dirigido por Affonso Uchoa, autor de A Vizinhança do Tigre (2014), e João Dumans, roteirista de A cidade onde envelheço (2016), filme vencedor da edição de 2016 do Festival de Brasília, Arábia é um filme situado em Ouro Preto e retrata a vida do personagem Cristiano, morador da Vila Operária. A narrativa da vida de Cristiano aparece no filme por meio de seu caderno de memórias, lido por um garoto de classe média.

Com muitos elementos de literatura, Arábia é um road movie (filme de estrada) da perspectiva de um operário brasileiro. “Essa tradição do caminheiro, do andarilho, tudo bem que isso se cristalizou em torno da ideia de road movie, mas o Brasil sempre teve isso. Esses personagens, isso é nosso também, não é um gênero deles. Isso é filme de trecho, a gente vai ter que chamar de filme de trecho. Porque é o filme do trabalhador de estrada, que faz parte da nossa realidade”, afirmou João Dumans durante a discussão sobre a obra.

“Uma das coisas principais para a gente é pensar na vida de um trabalhador marginalizado, de origem periférica, como literatura, como relato que é encontrado por acaso por outra pessoa, para a gente se diferenciar do jeito que o cinema brasileiro vê esse tipo de vida”, destacou Affonso Uchoa.

Música Para Quando as Luzes se Apagam  (RS)

Documentário que marca a estreia na direção de Ismael Caneppele, roteirista de Os famosos e os duendes da morte (2009). O filme retrata a vida de Emelyn Fischer, menina que vive como um garoto mas optou por manter seu nome.

“O filme não gerou um debate acalorado como outros, mas foi uma boa discussão e estou contente com a estreia nesse festival”, disse Caneppele.

Edição: Luana Lourenço