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Situação na Argentina pode afetar exportações brasileiras, dizem especialistas

Publicado em 01/08/2014 - 10:35 e atualizado em 01/08/2014 - 11:43

Por Wellton Máximo – Repórter da Agência Brasil Brasília

O ministro da Economia da Argentina, Axel Kicilof, em entrevista coletiva no Consulado-Geral da Argentina em Nova York após reunião com representantes dos fundos abutres

O ministro da Economia da Argentina, Axel Kicilof, no Consulado-Geral da Argentina em Nova York, após reunião na quarta-feira (30) com representantes dos fundos abutres  Jason Szenes/EPA/Agência Lusa/Direutos Reservados

Com a quinta maior reserva internacional do mundo e a dívida externa sob controle, o Brasil deve sofrer em decorrência da dívida argentina, com quedas pontuais na Bolsa de Valores e uma pequena alta do dólar. Apesar da relativa tranquilidade do lado financeiro, a crise no país vizinho pode respingar na economia brasileira. Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, o provável aprofundamento da recessão argentina deve reduzir ainda mais as exportações e afetar a indústria brasileira.

Terceiro maior destino das exportações brasileiras, a Argentina vinha comprando menos do Brasil por causa da crise cambial que resultou na desvalorização do peso (moeda do país). Nos seis primeiros meses de 2014, as vendas para o país vizinho acumulam queda de 20,4% em relação ao mesmo período do ano passado, somando US$ 7,42 bilhões. Para os economistas, o default (calote) técnico agravará uma situação que não estava boa.

“O que muito provavelmente vai acontecer é a piora da recessão na Argentina, que consumirá menos e comprará menos do resto do mundo. Como 8% das exportações brasileiras vão para lá, é provável que haja impacto na balança comercial [do Brasil] ao longo do tempo”, analisa o economista-chefe da Sulamérica Investimentos, Newton Rosa.

Professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Julio Gomes de Almeida adverte que a redução nas exportações para a Argentina prejudicará principalmente a indústria brasileira. “Nos últimos 20 anos, o Brasil perdeu mercado de produtos manufaturados, mas a Argentina e os demais países da América do Sul continuaram os principais destinos das mercadorias industrializadas”, explica. “O calote ameaça não apenas as exportações de veículos, mas também de todos os produtos industrializados.”

A crise cambial na Argentina tinha afetado a venda de veículos para o país vizinho, que passou a instituir barreiras comerciais, como taxação e licenças de importação que atrasam os embarques. Em junho, os governos brasileiro e argentino fecharam um novo acordo automotivo. Para cada US$ 1 milhão em automóveis comprados da Argentina, o Brasil poderá exportar até US$ 1,5 milhão isento de tarifa. Acima desse valor, os veículos pagam 35% para entrar na Argentina.

Para Alexandre Espírito Santo, professor de macroeconomia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibemec), a deterioração do comércio com a Argentina é muito mais preocupante para o Brasil do que eventuais reflexos no mercado financeiro. “Diferentemente de 2001 [quando a Argentina deixou de pagar a dívida pela primeira vez], não vejo efeito cascata no mercado financeiro internacional. A situação é muito específica, com um país que tem dinheiro, mas está impedido de pagar”, comenta.

Newton Rosa reiterou que os fundamentos econômicos do Brasil são bastante diferentes dos da Argentina. “Apesar de um grande déficit nas contas externas, o Brasil tem a dívida externa sob controle e grandes reservas internacionais. Os agentes financeiros sabem diferenciar cada país. A chance de fuga de capitais do Brasil por causa da situação argentina é pequena”, diz.

Julio Gomes de Almeida defende que o Brasil ajude a Argentina por meio de linhas de crédito para o comércio exterior. A ideia chegou a ser discutida nas reuniões do acordo automotivo, mas não avançou. “O ideal seria que o país, sozinho ou por meio do Mercosul, ajudasse a Argentina, mas isso é difícil num momento em que o próprio Brasil tem pouca folga de recursos e pouca bala na agulha”, declara.

Edição: Talita Cavalcante

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