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Mesmo preparadas, escolas ocupadas em Anápolis terão início das aulas adiado

  • 19/01/2016 16h00publicação
  • Anápolis (GO)localização
Mariana Tokarnia - Enviada Especial da Agência Brasil

Anápolis (GO) - Alunos ocupam o Colégio Estadual Antesina Santana (Valter Campanato/Agência Brasil)

O Colégio Estadual Antesina Santana está ocupado desde o dia 7 de janeiro Valter Campanato/Agência Brasil

As escolas ocupadas por estudantes no município goiano de Anápolis informam que estão prontas para começar as aulas amanhã (20), seguindo o calendário regular do ano letivo da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce). Em todas as escolas, as matrículas foram feitas normalmente. Mesmo assim, o início das aulas será adiado até a desocupação, informou a Secretaria Regional de Educação de Anápolis.

Ontem (18), a secretária Raquel Teixeira anunciou à imprensa que todos os estabelecimentos ocupados terão o início das aulas adiado e que um novo calendário será definido quando os estudantes deixarem as unidades. O anúncio pegou as escolas de surpresa. "Vimos a notícia na televisão, mas estamos preparados para começar as aulas", disse um funcionário de uma das escolas, que não quis se identificar.

Por volta das 10h, os diretores das escolas foram convocados para uma reunião de emergência na subsecretaria. Durante a manhã, nas escolas ocupadas, porém, comentava-se que, "até o momento", a informação era que as aulas começariam normalmente.

Ao todo, estudantes ocupam 26 escolas no estado de Goiás, sendo oito em Anápolis. Os estudantes protestam contra as mudanças administrativas decididas pelo governo estadual, que terceirizam a administração das escolas, passando-as para organizações sociais (OS), que são entidades filantrópicas privadas. A região de Anápolis será a primeira em que o modelo será implantado, em 23 escolas.

A Agência Brasil entrou em contato, por telefone, com seis estabelecimentos ocupados e visitou dois: os colégios estaduais Herta Layser Odwyer e Antensina Santana. Nos dois colégios, as secretarias estavam funcionando normalmente e o movimento para a confirmação da matrícula era intenso.

Letícia e Pedro Henrique fizeram juntos a matrícula no Colégio Estadual Herta Layser Odwyer. "Até vir aqui, não sabia que o colégio estava ocupado", disse Letícia. Pedro, que já tinha ouvido falar no assunto, desconhecia o motivo das ocupações.

Anapolis/GO - A professora Ana Claudia Siqueira fala sobre a ocupação de alunos no Colegio Estadual Antesina Santana (Valter Campanato/Agência Brasil)

Ana Cláudia Siqueira não sabia que o colégio em que matriculou a filha será administrada por uma organização social e  disse  que  não  conhece  o  modelo  proposto pelo governo estadual  Valter Campanato/Agência Brasil

No Colégio Antensina Santana, cartazes de protesto em que os estudantes pedem que o governo desista do modelo misturam-se aos avisos oficiais da escola, como o resultado obtido pelos estudantes no último ano. Na secretaria, na hora do almoço, muitos pais fazem a confirmação das matrículas. A primeira etapa é feita pela internet, mas, em seguida, os alunos têm de levar os documentos ao centro de ensino no qual querem estudar.

A professora Ana Cláudia Siqueira, que matriculou a filha na Antensina, não sabia que esta é uma das escolas que serão administradas por organizações sociais e disse que não conhece o modelo proposto pelo governo estadual. "Mas o papel do diretor é importante, não é? Ele tem que saber também da parte administrativa, não tem?", questionou Ana Cláudia, depois de ler uma breve explicação distribuída pelos estudantes que ocupam a escola.

As ocupaçães de colégios na cidade buscam não atrapalhar o desenvolvimento das atividades escolares. "Não vamos impedir nada, nem funcionamento da secretaria, nem circulação dos professores. Amanhã, às 7h, abriremos os portões do colégio para os alunos que quiserem vir", informou o estudante Luciano Reis, da escola Antensina.

Anapolis/GO - Gabriel participa da ocupação de alunos no Colegio Estadual Layser O'Dwer (Valter Campanato/Agência Brasil)

"Não é só ocupar a escola, e pronto. A escola é nossa, é a gente tem que cuidar dela. Limpamos, fazemos oficinas", diz  o  estudante  Gabriel  Oliveira,  que  ocupa  o  Colégio Herta Layser Odwyer  Valter Campanato/Agência Brasil

No Colégio Estadual Herta Layser Odwyer, os professores e coordenadores circulam livremente. "Ocupação não é só ocupar a escola e pronto. Tem que cuidar da escola, a escola é nossa, é a gente tem que cuidar dela. Limpamos, fazemos oficinas", afirmou o estudante Gabriel Oliveira, de 18 anos, um dos secundaristas que ocupam a escola. "A gente não quer prejudicar os alunos. A secretaria funcionou normalmente. Amanhã queremos fazer um bate-papo com os alunos, mas não vamos atrapalhar o começo das aulas."

A relação é recíproca: a secretária-geral da escola, Rosely de Fátima, confirma que o local funcionou normalmente e que o colégio está inclusive liberando documentos solicitados pelos estudantes. "Tomamos cuidado no trato com os estudantes [ocupantes]."

Em nota, a Seduce informou que o ano letivo nas escolas ocupadas só terá início quando ocorrer a total desocupação das escolas e as mesmas forem vistoriadas. Informou ainda que o pleno funcionamento de escolas ocupadas é inviável, haja vista que a direção não tem controle sobre o acesso à unidade.

Organizações sociais

Pela proposta do governo estadual, organizações sociais deverão cuidar da administração e infraestrutura das escolas e poderão também contratar tanto professores quanto funcionários administrativos. O quadro atual de concursados será mantido, mas novos profissionais passam a poder ser escolhidos pelas OS.

O projeto-piloto do novo modelo de gestão das escolas começará por 23 unidades da Subsecretaria Regional de Anápolis, que compreende também os municípios de Abadiânia, Alexânia, Campo Limpo de Goiás, Cocalzinho de Goiás, Corumbá de Goiás, Goianápolis, Nerópolis, Ouro Verde, Petrolina de Goiás, Pirenópolis e Terezópolis de Goiás.

Segundo o governo, as escolas continuarão "100% públicas e gratuitas". O objetivo do novo modelo é dar maior eficiência e melhorar a qualidade das unidades, que terão as estruturas melhoradas e manutenção constante. Com a administração terceirizada, professores e diretores terão tempo para focar no trabalho pedagógico, diz o governo.

Para um grupo de estudantes e professores, a decisão foi tomada sem diálogo com a comunidade escolar. Eles acham que terceirizar a administração e a contratação de professores pode ser prejudicial para a escola, além de abrir margem para a desvalorização dos docentes e redução de direitos em relação à contratação por concurso público.

As escolas ocupadas em Anápolis são:

Colégio Estadual Américo Borges de Carvalho, ocupado desde 16 de dezembro do ano passado
Colégio Estadual Carlos de Pina, ocupado desde 16 de dezembro
Colégio Estadual Jad Salomão, ocupado desde 16 de dezembro
Colégio Estadual José Ludovico de Almeida, ocupado desde 15 de dezembro
Colégio Estadual Padre Fernando Gomes de Melo, ocupado desde 16 de dezembro
Colégio Estadual Polivalente Frei João Batista, ocupado desde 14 de dezembro
Colégio Estadual Herta Layser Odwyer, ocupado desde 23 de dezembro
Colégio Estadual Antensina Santana, ocupado desde 7 de janeiro deste ano

Edição: Nádia Franco