Rui Pimenta diz que saúde, educação e segurança devem ser geridas pela sociedade

20/08/2010 10:37

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O candidato Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária (PCO), de 53 anos, tenta, pela segunda vez, disputar as eleições para a Presidência da República. Em 2006, a candidatura dele foi impugnada pela Justiça Eleitoral. Neste ano, Pimenta disse reconhecer que “não tem pretensão de vencer as eleições”, mas considera importante que o país conheça as ideias que defende. De acordo com ele, a proposta é mostrar à sociedade que um governo deve defender as causas dos trabalhadores.

Definindo-se como um “radical de esquerda”, Pimenta quer que o povo assuma o controle do poder. Por ele, a sociedade é que deve comandar a saúde, educação e segurança pública. Também é favorável à despropriação total das terras, inclusive das produtivas. Porém, ele nega qualquer semelhança entre o que defende e os modelos vigentes, como os governos da China, da Coreia do Norte, de Cuba ou da Venezuela.

O candidato concedeu entrevista ao Programa 3 a 1 , da TV Brasil. Participaram da entrevista com Pimenta os jornalistas Eudes Júnior, da TV Brasil, Renata Giraldi, da Agência Brasil, e Luiz Carlos Azedo, âncora do programa e colunista do Correio Braziliense.

Formado em jornalismo, Pimenta foi um dos fundadores do PT, mas em 1989 o grupo que ele integrava foi expulso do partido. Em 1996, ele fundou o PCO. Desde então, Pimenta ficou conhecido como o representante da legenda cujo lema é “Quem bate cartão, não vota em padrão”. A seguir, os principais trechos da entrevista do candidato.

 

Empresa Brasil de Comunicação– Por que o senhor quer ser presidente da República?
Rui Pimenta- Não temos pretensão de ganhar eleição. Mas queremos tornar mais conhecido o programa que defendemos que não é um programa feito artificialmente, em laboratório. É um programa de um governo da causa operária.

EBC– Se eleito, quais vão ser as cinco medidas que o senhor vai adotar logo que tomar posse?
Rui Pimenta– As medidas de governo vão envolver a questão da terra, o aumento dos salários e a redução da jornada de trabalho, [vamos] tratar da liberdade sindical, da saúde, da educação e da revogação de um entulho antidemocrático herança da ditadura [medidas consideradas ditatoriais, mas que o candidato não cita]. Nós somos um partido radical. Somo um partido da UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. Chamaríamos todas as organizações a fazer parte do governo.

EBC– Como o senhor define o PCO e se classifica?
Rui Pimenta- Eu me julgo um radical. Somos de esquerda, somos um partido socialista, mais especificamente comunista, embora isso dê muita confusão por tudo que aconteceu no mundo. Somos marxistas. Mas, sobretudo, buscamos construir um partido operário. Isso é que nos diferencia dos demais [partidos], alguns deles estão próximos à pequena burguesia.

EBC– Quais são os partidos de esquerda hoje no Brasil?
Rui Pimenta– O Brasil conta com uma quantidade muito grande de partidos de esquerda.Não compartilho com a ideia de que o PT não é de esquerda. O PT  hoje é um partido aliado com vários outros partidos. Agora esquerda é uma definição genérica. É preciso diferenciar o que é cada um dos partidos.

EBC– Mas o senhor costuma fazer críticas muito duras ao PT, por quê?
Rui Pimenta– Este é um governo de esquerda, mesmo que moderado, mas que não coloca nada em prática porque acaba cedendo a pressões. É um governo de composição. Por exemplo, o que houve com a discussão sobre [a descriminalização do] aborto. O aborto é um problema de saúde pública e  não saiu do papel. Sou inteiramente a favor da descriminalização. Também há críticas por parte dos movimentos negros e sobre a questão das mulheres.

EBC– A saúde pública para o senhor é um dos problemas mais graves na questão social, qual é a falha maior?
Rui Pimenta- A saúde tem de ser estatal. A saúde é um dos maiores negócios do mundo. Nos Estados Unidos, a saúde está totalmente privatizada. A saúde não pode ser privatizada. Ninguém pode ganhar dinheiro com o sofrimento do povo. Tem de ser controlada pelo povo. Os médicos e enfermeiros têm de controlar os hospitais. Isso vale também para a educação.

EBC– A população se queixa muito também da questão da segurança pública.
Rui Pimenta- Nosso ceticismo com a questão da segurança é grande. As forças [públicas de segurança] são eficientes para conter a população e ineficazes para conter a criminalidade, que aumenta com a desagregação social. Isso é no mundo todo. A Polícia Militar é um resquício da ditadura. Nós defendemos a formação de uma polícia controlada pela população.

EBC– O senhor é favorável a algum tipo de censura sobre a imprensa?
Rui Pimenta-  Sou totalmente contra a censura porque reforça o poder do Estado sobre a população. Sou contra qualquer tipo de censura. A liberdade de expressão está totalmente em antítese, em oposição ao monopólio dos meios de comunicação. No Brasil, há um monopólio dos meios de comunicação.

EBC– Será que há espaço hoje para a execução das propostas defendidas pelo PCO?
Rui Pimenta– São propostas exequíveis, sim. Estamos saindo de um longo período que houve uma ofensiva contra a esquerda em geral, que foi liderada pelo neoliberalismo, como o que houve no Leste Europeu, com o fim dos regimes socialistas. Por exemplo, eu vejo o fim da União Soviética como efeito da crise capitalista em função da integração que foi imposta lá [com endividamento do Estado]. A Iugoslávia estava totalmente hipotecada também. Então, o que se faz em relação aos regimes socialistas é uma propaganda enganosa.

EBC– O senhor defende a expropriação total das terras inclusive as produtivas, como é a reforma agrária ideal na sua opinião?
Rui Pimenta- Significa a estatização das grandes empresas, a transformação delas em propriedade coletiva e a gestão pelos funcionários e pelo Estado. O nosso conceito de reforma agrária não é o conceito que existe hoje. Senão acabar com a grande propriedade de terra, não há como liberar a terra para o desenvolvimento do país.

EBC– Mas há quem defina a reforma agrária como capitalista porque envolve a propriedade privada, isso não cabe em um governo socialista.
Rui Pimenta– Nós defendemos a nacionalização da terra, que disponibiliza a terra para o empreendimento produtivo e não a propriedade privada. A terra será distribuída, mas a propriedade ficaria na mão do Estado. A estatização é positiva, a burocratização que toma conta do Estado é uma excrescência [inútil, desnecessária].

EBC– A China pode ser definida como um país socialista?
Rui Pimenta-  A China hoje em dia é um país capitalista dirigido por uma burocracia estatal. As empresas que estão lá são comandadas por capital estrangeiro. Tanto é que Hong Kong foi integrada à China sem dificuldades.

EBC– O modelo do governo defendido pelo senhor se aproxima do de Cuba, da Coreia do Norte ou mesmo da Venezuela, cujo presidente Hugo Chávez se define como socialista?
Rui Pimenta - Nossa proposta de governo não é impopular. [Também] não somos socialistas como o Chávez coloca. Não acho que adotaram o modelo defendido por nós. São países dirigidos por uma forte burocracia centralizada e que confiscou o poder da população. Não acho que este modelo tenha dado certo. 

EBC– Mas o senhor costuma dizer que a implementação do socialismo não deve ser isolada. Por quê?
Rui Pimenta- Porque coloca em jogo muitas forças da economia e só pode ser colocado [em prática] em grande escala mundial. O socialismo em um só país é inviável. O socialismo prevê a liquidação das fronteiras mundiais. Hoje não há modelo algum existente.

EBC– Qual é a preocupação do PCO nestas eleições?
Rui Pimenta- A classe trabalhadora tem no PT uma espécie de representação de classe. O voto do trabalhador vai para ele, o PT. Nós estamos no fim de uma era apesar de que o PT deverá ganhar as eleições. Está na hora de as organizações pensarem em um partido operário e socialista.

EBC– O senhor costuma fazer críticas severas ao Congresso, em um eventual governo do PCO, o que ocorreria no Legislativo?
Rui Pimenta– O Congresso seria reformulado e mudado tudo. Nós propomos uma reformulação total. O Congresso hoje governa contra o povo. Fico impressionado com o nível de coisas reacionárias que têm lá. Houve uma ofensiva contra as mulheres, no que diz respeito ao aborto, e à terra, com a CPI da Reforma Agrária. O Congresso todo seria transformado, teriam de se tormar medidas mais democráticas e flexíveis. Os mandatos [dos senadores e deputados] deveriam ser mais curtos e revogáveis para que a população pudesse controlá-los.

EBC– As propostas de mudanças sugeridas pelo PCO não surtiriam mais efeito, se o senhor estivesse no Congresso Nacional?
Rui Pimenta- No Congresso, eu conseguiria acender o debate. Mas seríamos uma voz isolada.

EBC– Para o senhor, os atuais programas sociais são corretos e correspondem às expectativas?
Rui Pimenta-  Eu faria mudanças. Em primeiro lugar, e que se deve chamar a atenção, é que os programas assistenciais do governo Lula são extremamente medíocres, mesmo como paliativos. Na maior parte, não se tocou mais do que na superfície. A questão da saúde pública e a destruição das universidades, por exemplo, continuaram.

EBC– O senhor inclui nessas críticas também o Bolsa Família?
Rui Pimenta - O Bolsa Família é limitado e paliativo. É um programa que não está sob controle dos interessados e está sob controle político, de pessoas que manipulam. É insuficiente, comparado ao que o governo Lula paga em juros para os banqueiros.

 

Edição: Talita Cavalcante
 

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