Serra elogia projeção do país no exterior e promete fortalecer Bolsa Família

20/08/2010 11:15

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Pela segunda vez, o candidato José Serra, de 68 anos, da coligação O Brasil Pode Mais (PSDB, DEM, PPS, PTB e PT do B), vai concorrer à Presidência da República. Em 2002, ao disputar as eleições, ele perdeu para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Serra focou a campanha em defesa da qualidade da saúde e educação pública, além da redução da carga tributária. Ele respondeu a perguntas sobre os mais variados temas. Preferiu tratar de forma superficial assuntos como a legalização do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O candidato concedeu entrevista ao programa 3 a 1, da TV Brasil, que foi ao ar no dia 22 de julho. Participaram da entrevista com o candidato a diretora-presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), jornalista Tereza Cruvinel; João Bosco Rabello, diretor da Sucursal em Brasília de O Estado de S. Paulo, e Luiz Carlos Azedo, âncora do programa e colunista do Correio Braziliense.

Crítico contumaz do presidente Lula, Serra negou que torça contra o governo e os adversários. “ Não fico jogando no 'quanto pior melhor'”, disse ele. Em seguida, o candidato apontou o que chama de erros do atual governo, como uma base aliada que ele julga frágil, nomeações políticas e falhas em programas sociais. Mas reconheceu que o presidente da República tem competência na divulgação da imagem externa do Brasil.

“O governo Lula é forte pelo prestígio do presidente, mas no Congresso é fraco. O governo é popular por causa do presidente, não é porque tem uma base no Congresso”, disse o candidato. “Em geral, a projeção do Brasil [no exterior] foi positiva por causa dos 'bolsas' [alguns programas sociais cujos nomes nomes começam com a palavra bolsa]. [Se eleito] eu fortalecerei o Bolsa Família e o Saúde da Família, que eu implantei, [e que] não estão coordenados.”

Serra concluiu a entrevista apelando para que os eleitores, principalmente os que têm 16 e 17 anos, votem em outubro. “Pensem, por favor, que seu voto pode ajudar a mudar. Procura ver em quem você vai votar. Não votar ajuda os piores. Vamos fazer um esforço importante. Vamos comparar”, disse ele. A seguir, leia os principais trechos da entrevista.

 

Empresa Brasil de Comunicação– Por que o senhor é candidato a presidente da República?
José Serra- [Sou candidato] porque creio que estou estou preparado. Porque creio que o Brasil pode mais em várias áreas como saúde, educação e segurança. Pode mais em áreas como infraestrutura. Diante de muitas manifestações de pessoas e do partido, eu acreditei que poderia oferecer com legitimidade meu nome.

EBC– Se eleito presidente, o que o senhor pretende fazer de diferente em relação aos antecessores?
Serra- Não faria loteamentos. [Por exemplo, o que ocorreu com o caso da analista da Receita Federal suspeita de violar o sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge] A Receita Federal cometeu um crime: quebrou sigilo [do Eduardo Jorge]. Isso depende da gula dos partidos. O PT tem uma gula infinita. Eu acho que todos os presidentes, sem exceção, subestimaram sua força no Congresso. Quando estive no Executivo, eu não fiz isso.

EBC– Muitos pensam que os adversários torcem uns contra os outros. Isso é real?
Serra- Eu sou candidato para governar o Brasil no futuro. Não fico jogando no “quanto pior melhor”. No Brasil, tem uma doença que é o patrimonialismo. Por exemplo, o [atual] governo aparelha as agências. Há uma série de loteamentos. Politizou-se [a relação dentro do governo]. A Fundação Nacional de Saúde [Funasa], que cuida de epidemias, foi posta de joelhos e destruída.

EBC– Na sua opinião, como é possível mudar este comportamento?
Serra- É um comportamento do governo. Eu governei São Paulo com maioria [na Assembleia Legislativa] e ninguém nomeou [para cargos em setores públicos]. Isso significa não ter gente competente? Não. Eu acho que [ a relação Estado-governo] deixa muito a desejar. A questão é da instituição, o Brasil tem um sistema eleitoral inteiramente obsoleto e malfeito principalmente no que se refere às eleições legislativas.

EBC– Por que o senhor fala tanto em ensino profissionalizante e mudanças na educação?
Serra- Meu avô nasceu e morreu analfabeto, meu pai ficou analfabeto até os 20 anos. No Brasil, não tem mais espaço para isso. Outro dia conversei com uma mulher, que tem uma filha, que ia fazer 18 anos, e ia perder a Bolsa Família e não tinha emprego. Então vamos dar uma profissão [aos jovens]. Vamos criar 1 milhão de vagas técnicas, vamos fazer cursos [profissionalizantes].

EBC– A Argentina sancionei lei autorizando o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o senhor defende que o Brasil siga este exemplo?
Serra- Acho que não é uma questão do Estado. Virou uma questão 'xodó' das entrevistas. É um problema das pessoas. Cada crença entra na questão. Se uma Igreja não quer casar, o Estado não intromete.

EBC– E, no caso de mudanças na lei que autoriza o procedimento do aborto, o Estado deve interferir?
Serra- No que depender de iniciativa do Executivo, eu não procurarei mudança na lei atual.

EBC- Pelos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), houve uma redução de 26,65% do interesse dos eleitores de 16 a 17 anos em relação às eleições presidenciais de 2006. O que o senhor tem a dizer a esses eleitores?
Serra-  Pensem, por favor, que seu voto pode ajudar a mudar. Procura ver em quem você vai votar. Não votar ajuda os piores. Vamos fazer um esforço importante. Vamos comparar. Sou um otimista em relação ao Brasil. O Brasil avançou muito. A gente tem de pegar o bastão de onde está e dá para melhorar. O Brasil pode mais. Sou candidato do “pode mais e dá para fazer”.

 

EBC– Incomoda ter aliados que podem ser enquadrados na lei da Ficha Lima, como o candidato ao governo do Distrito Federal Joaquim Roriz (PSC)?
Serra-  Todo mundo que vem comigo, sabe como eu me comporto. Em um torneio, a candidata do governo perde disparado em termos de más companhias.

EBC– O que o senhor considera urgente na reforma política e o que é sagrado?
Serra-  Meu principal objetivo com a reforma política é diminuir os custos de campanha e em segundo [lugar], aumentar o controle do eleitor sobre o político [que ele ajudou a eleger]. Tem de ter um mecanismo para esse controle. Há sempre coisas sagradas [para os políticos]. É o velhinho, a mulher, as criancinhas e os municípios. Mas tem uma que está por trás que é maior que é a reeleição.

EBC– O senhor fala muito em combate à droga e tratamento aos dependentes químicos. Para o senhor é necessário ter mudança na política pública relacionada ao assunto?
Serra-  A questão da droga é gravíssima. O preço da cocaína baixou 50 vezes, então isso aumenta o consumo. [Mas para combater são necessárias] cinco etapas [de ação]. A Bolívia expandiu tanto sua produção que é impossível que seja usada para consumo interno. [O governo] deveria pressionar o governo boliviano a 'não ser frouxo'.  A base do crime organizado é o contrabando de armas e drogas. Por isso, quero criar o Ministério da Segurança. Se a segurança vai mal, o governo se desgasta com os governadores. O crime organizado é um crime nacional.

EBC– Como o senhor explica suas críticas ao presidente Lula e ele mantém uma das avaliações positivas mais elevadas da história política do país?
Serra- O governo Lula é forte pelo prestígio do presidente, mas no Congresso é fraco. O governo é popular por causa do presidente, não é porque tem uma base no Congresso. No Congresso é fraco. Em geral a projeção do Brasil [no exterior] foi positiva por causa dos 'bolsas' [alguns programas sociais cujos nomes nomes começam com a palavra bolsa]. [Se eleito] eu fortalecerei o Bolsa Família e o Saúde da Família, que eu implantei, [e que]não estão coordenados.

EBC– Há uma queixa geral do brasileiro sobre o peso dos impostos. Qual a maior discrepância?
Serra- Pobre no país paga o dobro em impostos em relação ao rico. Isso proporcionalmente. Por exemplo, a manteiga e uma série de produtos da alimentação têm impostos embutidos. [A carga tributária] poderia ser reduzida. Isso não precisa de Constituição. Não precisa onerar os investimentos. Vou criar a nota fiscal brasileira. O consumidor vai comprar no varejo e ter de volta 30% do imposto que o varejista pagou. Eu fiz isso em São Paulo e diminuiu a sonegação.

EBC– Uma das reclamações, no Brasil, é que existe sonegação de impostos enquanto muitos pagam bastante. Como resolver isso?
Serra– Quem sonega não paga nada, quem não sonega paga o dobro. Supomos que sejam donos de quatro empresas: duas pagam e as outras não. Então tem de arrecadar mais de quem paga. A sonegação é uma coisa injusta. Isso dá para fazer só mexendo nesta estrutura aí.

EBC– É possível solucionar a questão da carga tributária elevada sem onerar os investimentos?
Serra– A maior taxa de juros do mundo nós [é que] somos recordistas. Temos o menor investimento governamental do mundo e ainda a carga tributária entre os países desenvolvidos. Este tripé é perverso. É preciso que o gasto público cresça menos. Dá para cortar gastos? Dá. Dá para cortar desperdício. É importante não onerar os investimentos. Pode arrecadar na produção. Tem uma série de coisas que se pode fazer.

EBC– Mas será que é possível, por exemplo, evitar que crises econômicas externas atinjam o Brasil?
Serra- Acho que a gente tem o dever de antecipar os problemas. Para continuar crescendo no futuro, é preciso ter mais investimentos. No Brasil está se importando demais e exportando de menos. Tem gente dentro do governo em nível de ministério que pensa como nós. Não é uma coisa isolada. É preciso fazer uma equipe homogênea. Hoje há diferenças entre o Banco Central e [os ministérios do] Planejamento e da Fazenda. É preciso ter um time harmônico.

EBC– O senhor costuma criticar a política cambial...
Serra– Não, não faço crítica alguma à situação atual. Acho que o momento é bom. O instantâneo é bom.

 

Edição: Talita Cavalcante

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