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Centro cultural para discutir jornalismo independente é inaugurado no Rio

  • 19/03/2016 19h38publicação
  • Rio de Janeirolocalização
Akemi Nitahara – Repórter da Agência Brasil

 

Casa Pública no Rio de Janeiro

A Casa Pública funcionará de quarta-feira a sábado, na Rua Dona Mariana, 81, em Botafogo, zona sul do Rio de JaneiroAkemi Nitahara/Agência Brasil

A Casa Pública, primeiro centro cultural do Brasil para discutir o jornalismo e apoiar o trabalho investigativo e independente foi inaugurada hoje (19) no Rio de Janeiro. A programação inclui eventos, conversas entre jornalistas e o público, workshops, exposição de fotos, exibição de filmes, participação de jornalistas internacionais e produção de jornalismo com experimentação de novas linguagens, unindo informação com novas tecnologias, uso de grandes bases de dados e arte.

Segundo a jornalista Natália Viana, diretora da Agência Pública, organização que produz jornalismo investigativo e idealizadora do projeto, o espaço vai suprir o segundo objetivo da agência, que é promover jornalismo investigativo e independente. “É um espaço para reflexão, troca e incentivo para quem está produzindo jornalismo independente no Brasil. É uma tentativa de olhar para frente, para o que vai ser o jornalismo e como podemos ajudar ao movimento de novas iniciativas que estão pipocando pelo Brasil afora, criadas por jornalistas com o objetivo de voltar à raiz do jornalismo, que é a independência editorial, e como ajudar a fortalecer esse movimento.”

Durante dois anos a Casa terá apoio de quatro fundações internacionais que financiam projetos de direitos humanos e jornalismo independente. Ela funcionará de quarta-feira a sábado, na Rua Dona Mariana, 81, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. As portas estarão abertas para quem quiser conversar, trabalhar ou utilizar o espaço para entrevistas. “É um espaço para apostar no novo, no que vai ser o jornalismo. Todo mundo sabe que o jornalismo está em crise, há um questionamento, uma crise de confiança, econômica e cultural. A forma como as pessoas consomem jornalismo mudou. Queremos trazer o jornalista para conversar com o público sobre isso”, esclareceu Natália.

Na inauguração, foi aberta a exposição fotográfica coletiva Legados, que traz os impactos dos megaeventos realizados no Brasil e na vida da população. Outro trabalho apresentado hoje foi a intervenção Eu amo camelô, do coletivo artístico Opavivará, que fez cartões postais com fotos de vendedores ambulantes que trabalham dentro dos trens da cidade.

Uma das representantes do grupo, que prefere não dar o nome para não individualizar o trabalho que é coletivo, informou que o Opavivará trabalha com a reflexão sobre o uso e ocupação dos espaços públicos, sempre dialogando com os acontecimentos atuais, como o jornalismo.

Casa Pública no Rio de Janeiro

Um dos objetivos do espaço é promover jornalismo investigativo e independenteAkemi Nitahara/Agência Brasil

“De alguma forma, trabalhando com arte, estamos sempre ligados ao que está acontecendo. Acho que é o espaço do jornalismo alternativo, que não é comprometido com interesses corporativos e políticos como são as grandes mídias do país. É muito pertinente a discussão da existência de um espaço aberto para discussões que não estão nesse contexto mais midiático de massa”, acrescentou.

O primeiro evento da Casa foi um debate sobre a checagem do discurso público, modalidade de jornalismo que tem crescido mundialmente. Para a fundadora do site argentino Chequeado, pioneiro do tipo na região, Laura Zommer, o debate sobre democratização da mídia e novas formas de se fazer jornalismo é indispensável. Segundo ela, porém, sem modelo de financiamento é impossível se manter novas vozes ativas por muito tempo.

“Temos grandes jornalistas falando que vão revolucionar o jornalismo, mas tem de buscar o dinheiro e o modelo de financiamento. Não dá para fazer grande jornalismo sem dinheiro. Quando eu trabalhava no La Nacion, não queria saber de onde vinha o dinheiro, mas quando investigávamos alguma coisa e nos diziam 'isso não', descobríamos de onde vinha. Mas nos inteirávamos tarde e não podíamos fazer nada. Não se faz jornalismo sem dinheiro. Entre amigos só se pode fazer por um tempo, com a indenização do dinheiro anterior, mas não dá para fazer sem dinheiro”.

Sobre a Lei de Meios da Argentina, que entrou em vigor em 2009 para garantir a diversidade nos veículos de comunicação do país e que sofreu fortes intervenções do novo governo, Laura afirmou que o texto é muito bom, mas a aplicação foi feita de forma errada.

“O texto da lei é muito bom, mas a implementação foi fatal. O governo anterior fez uma boa lei com fundamentos para divulgar novas vozes, mas investiu sistematicamente contra um meio oposto a seu governo. O governo de Cristina Kirchner castigou o Clarín e se associou ao grupo Telefónica. Os dois são gigantes. A lei se provou contra uns e não contra todos que concentram veículos de comunicação”.

Na inauguração da Casa Pública também foi lançado o Mapa do Jornalismo Independente, com 70 iniciativas de sites liderados por jornalistas que buscam novas formas de trabalho. “Levantamos 70 sites. Todo mundo que está querendo descobrir o que está sendo produzido de legal no jornalismo, interessante, completamente independente e com um monte de informações que você não vai ver em outro lugar. Quem quiser pode entrar no nosso mapa e sugerir outras iniciativas. Já tem mais de 100 que outras pessoas sugeriram”, concluiu Natália Viana.

Edição: Armando Cardoso