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Ocupação das ruas para lazer começou com protestos de 2013, diz professor

  • 09/03/2016 07h03publicação
  • São Paulolocalização
Daniel Mello - Repórter da Agência Brasil
Eixão do Lazer

Eixão em Brasília é fechado a veículos aos domingos para atividades de lazer -Elza Fiúza

A ocupação das ruas e espaços comuns das cidades, em efervescência em São Paulo e outras cidades do país, é fruto das manifestações de 2013, disse o coordenador do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo, José Guilherme Magnani. “Eu acho que as manifestações de 2013 abriram um espaço que agora se mostra de outras maneiras”, ressaltou Magnani, ao falar de como os atos políticos foram o catalizador da busca das ruas como espaço de convivência.

“Você pode usar [a rua] tanto para o lazer, quanto para a manifestação da sua diferença e, em geral, essas manifestações políticas também têm um conteúdo de lazer. Porque é um encontro, uma coisa meio festiva. Há uma espécie de apropriação do espaço, que é marcar a diferença. Quando você vai para a rua de lazer você encontra o diferente, mas troca com ele. Há possibilidade de confronto, muitas vezes. É um pouco a mesma coisa, em uma escala diferente”, analisou.

O professor falou durante palestra sobre o tema Ruas de Lazer. Desde o ano passado, ruas da capital paulista, entre elas a Avenida Paulista, têm sido fechadas para veículos aos domingos e liberadas para pedestres e ciclistas.

Uma proposta semelhante já era adotada há alguns anos no Elevado Costa e Silva, o Minhocão, via expressa que sai do centro até a Barra Funda, na zona oeste. “Há um elemento importante na cidade, as ruas de lazer mostram isso, como é negociado o tempo todo. O Minhocão, por exemplo, como ele é utilizado como espaço importante do lazer, à medida que é objeto de disputa do Poder Público, de uma certa perspectiva de urbanismo e arquitetura, dos moradores, dos usuários. Tudo na cidade é objeto de disputa”, ressaltou Magnani em relação às diversas ideias sobre o uso da via elevada.

Devido ao impacto na paisagem, já foram feitas propostas de demolição da estrutura ou de transformação em um parque, a exemplo de outras vias elevadas no mundo. Ativistas e coletivos culturais têm proposto a ocupação lúdica do espaço. Parte dos moradores encara o fechamento aos carros como um momento de descanso do barulho provocado pelo trânsito intenso dos dias úteis.

Avenida Paulista

A abertura da Avenida Paulista para pedestres e ciclistas também foi, lembrou o professor, alvo de controvérsias. O Ministério Público chegou a questionar a medida com base em um termo de ajuste de conduta que permitia a interrupção do tráfego da via para eventos apenas três vezes por ano. Em resposta, a prefeitura contestou a posição dos promotores, argumentando que se tratava de uma política pública amparada no Plano Nacional de Mobilidade Urbana - Lei 12.578 de 2012.

Audiências públicas mostraram ainda resistências de moradores que temiam ter dificuldade para sair ou acessar os imóveis durante a interrupção do fluxo de carros. Para Magnani, esses conflitos e as motivações para o uso dos espaços são semelhantes em outras partes da cidade. “Há uma rede, uma dinâmica, uma proposta. A gente, olhando um pouquinho mais de longe, percebe que há certa regularidade”, afirmou.

Outro exemplo citado pelo professor foi o chamado Beco do Valadão, espaço próximo à Avenida Brigadeira Faria Lima, na zona oeste, que se tornou ponto de encontro de skatistas. “Os moradores começaram a se incomodar com o barulho [dos skatistas] e resolveram chamar foodtrucks [veículos que servem refeições]”, contou sobre a disputa no local. A partir da chegada dos comerciantes, os praticantes do esporte tiveram que negociar o uso do espaço.

Para Magnani, isso, no entanto, não acabou com os conflitos. Relatos colhidos por um pesquisador orientado pelo professor mostram que os moradores chegaramm a sabotar os obstáculos usados na prática do esporte para afastar os jovens da região.

“É um espaço de disputa e negociação dos atores sociais. Não é assim: o skate, um lugar de lazer. É um lugar de disputa da cidade inteirinha”. Conforme o especialista, o ponto em comum é a busca pelo encontro e a diversidade. “Quando você sai do ambiente doméstico e vai para a rua, você encontra o diferente, a diversidade. Seja o café da manhã ou a possibilidade de caminhar pela rua de lazer, a graça e o imprevisto são encontrar a diversidade”.

Edição: Graça Adjuto