A magia do rádio: os profissionais da sonoplastia ao longo das décadas
Com quantos profissionais se faz um bom programa de rádio? Para essa conta fechar redondinha, bordão que a gente gosta de usar na comunicação, é preciso pensar primeiro em quem faz o quê para essa engrenagem funcionar e a magia do rádio acontecer.

"Olá, eu sou o Jailton Sodré, formado em rádio e TV pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), atuo na área do áudio há mais de 20 anos. Desde março de 2015, faço parte da EBC como sonoplasta".
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Você ainda não tinha escutado a voz do Jailton neste radiodocumentário, mas toda essa história que você está ouvindo em cada episódio, com vinhetas, trilhas, costuras cirúrgicas entre as nossas locuções e os áudios históricos e de entrevistas, efeitos especiais... Nada disso existiria sem o nosso colega.
"Quando eu leio o roteiro e começo a montar o material bruto, minha mente já começa a trabalhar, já começa a buscar trilhas que remetam à época, ao tema abordado. A partir daí, eu procuro fazer com que cada som escolhido transmita uma emoção, desperte uma lembrança ou direcione a atenção do ouvinte para aquilo que está sendo contado. No final das contas, o meu objetivo é que o som ajude a contar essa história da forma mais viva e emocionante possível, fazer com que o ouvinte feche os olhos e se transporte para aquela época".
Agora, imagina todo esse trabalho sem os recursos digitais que nós temos hoje. Nos anos 1940, o rádio era um veículo de comunicação relativamente novo no país, com duas décadas de atuação. Nesse meio tempo, foi preciso aprimorar tudo na prática.
E para os ambiciosos projetos da Nacional de unir o país pelas ondas do rádio, era preciso ter os melhores contrarregras, operadores de estúdio, sonoplastas, técnicos de gravação, produtores. Os nomes variavam e as funções muitas vezes se confundiam na emissora.
Para a gente entender melhor esse cenário, é importante retomar um personagem que nós já citamos e que também vai ser fundamental para o desenvolvimento da técnica relacionada ao rádio: Almirante.
Henrique Foréis Domingues modifica o jeito de fazer programas, e as inovações vão exigir mais das equipes. Quem conta é o pesquisador Ricardo Cravo Albin, durante um depoimento histórico do próprio Almirante, gravado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.
"Até ali era o 'acabaram de ouvir' e o 'ouvirão a seguir', era a questão da música, só. O programa montado que ele fez incluía a música, a palavra, esquetes, música a propósito do que estava sendo dito, radioteatro, narração, ruídos, técnica de contrarregra, enfim, era uma coisa completamente diferente, mesmo".
Barulhentos e invisíveis
"O nosso auditório vai se transformar em uma possante base aérea. Vamos soltar 50 aviões de papel, e dentro de um deles estará um comprovante de um cheque de 300 cruzeiros. Atenção, auditório! Revistem bem os aviões, que eles já estão se preparando para levantar voo. Atenção, senhores aviadores, levantar voo! Senhores ouvintes, é uma cena formidável [barulhos de avião e do público se confundindo ao fundo]"
O "voo" dos aviões no programa Rua 42, apresentado por Manoel Barcelos no auditório da Nacional, só foi possível com a ajuda de pelo menos um sonoplasta e um contrarregra.
Um trabalho nada silencioso, mas quase sempre invisível. São poucas as referências aos primeiros trabalhadores que exerciam as funções técnicas na Nacional. Edmo do Valle, José Mauro, Zé Lins e Geraldo Passidomo estão entre os pioneiros, exercendo diferentes funções.
O próprio Edmo do Valle relembra como era o trabalho.
"Pela quantidade de programas que nós tínhamos, a contrarregra tinha que estar permanentemente capacitada para, script na mão, reproduzir tudo aquilo que se pedia".
"Mas dali atrás tem o operador, tem sonoplasta, tem produtor, né? É muita gente que cobre", conta nossa colega Rosalina Rocha da Silva e Souza, mais conhecida como Rosinha. Na emissora desde os anos 1970, ela já exerceu muitas funções.
"Eu batia os scripts das novelas, do Teatro de Mistério, as crônicas. Como eu tenho boa audição, o Carlos Leão sempre me chamava na hora da gravação para eu ficar com ele para qualquer lance de falha, alguma coisa, porque era tudo com cronômetro, né? Aí pra ele parar, porque não podia, tinha que sair tudo direitinho. Aí eu adorava".
Entre inúmeras contribuições para a história da Nacional, Rosalina já foi ajudante administrativa, passou pela discoteca e assessorou programas de auditório de enorme sucesso, como o de César de Alencar. Hoje, ela exerce a função de apoio à produção.
A Nacional aproveita este episódio para agradecer e homenagear tantas e tantos profissionais cujas vozes você nunca ouviu, mas que são fundamentais nessa história.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Mario Sartorello interpreta o texto do cartaz da RCA Victor. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.