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Brasília (DF), 03/07/2026 - 90 anos em 90 histórias. Arte/Agência Brasil
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Série

Cartas de ouvintes mostram presença profunda da Nacional da Amazônia

A noite cai cedo na floresta. Em muitas comunidades, o mundo termina quando a luz acaba. Mas existe uma presença que continua ali. Falando. Cantando. Informando. Fazendo companhia.

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.  

Durante décadas, a Rádio Nacional da Amazônia foi muito mais do que um veículo de comunicação. Foi companhia para quem passava semanas em um barco. Meses em um garimpo. Dias inteiros em áreas isoladas. A ouvinte Rosa Pereira de Souza conta como essa companhia fez parte da sua história.

"Era o nosso tesouro, lá em casa, o rádio. Então eu tomava banho, eu me preparava para aquele momento. O meu local era debaixo da mesa, deitava minhas costas no chão. Aí chegava aquele momento da história, a história infantil. Eu me entregava, eu viajava, eu sentia que eu fazia parte daquele momento. Aquilo ali era a minha alegria, era a minha vida, né?".

Para muitos ouvintes, as vozes da rádio eram conhecidas como parentes. Apresentadores e produtores eram chamados pelo primeiro nome ou por um apelido. Locutores recebiam cartas contando alegrias, tristezas e até pedidos de oração.

Entre as primeiras cartas recebidas pela emissora estava a de Januário Barbosa dos Santos. Em poucas palavras, ele traduziu o encantamento que a Rádio Nacional da Amazônia já despertava entre seus ouvintes.

"O som da Nacional aqui no meu moto-rádio está fazendo os peixes colocarem a cabeça fora d'água para ouvir".

Salas lotadas com cartas

Ao longo da década de 1980, a Nacional da Amazônia viu surgir uma das maiores redes de comunicação entre ouvintes e uma emissora de rádio de que se tem notícia no Brasil. Em 1988, a emissora bateu um recorde histórico: quase 5 milhões de cartas recebidas em um único concurso. A pequena cidade de Dueré, no Tocantins, enviou mais de 1,7 milhão de mensagens.

A correspondência era tanta que, em determinados períodos, as cartas deixaram de caber nos arquivos. Elas passaram a ocupar salas inteiras. Do chão ao teto. Quem trabalhou na rádio guarda essa imagem até hoje, como a produtora Fatinha.

"A rádio já recebia cartas, muitas. Com esse concurso, a gente não dava conta, eram cartas demais. Teve uma cidade do Tocantins que mandou um caminhão de cartas. Colocamos tudo dentro de uma sala, mas eram tantas que a gente ficava admirada. Ninguém dava conta, não tinha como anteder todos os ouvintes".

Ouvir para falar

Os ouvintes contavam de tudo: da colheita que tinha dado certo, do nascimento de um filho, da saudade de parentes distantes. Pediam músicas. Mandavam recados. Procuravam parentes perdidos. E agradeciam por uma companhia que nunca falhava, mesmo em momentos delicados da vida, como relata um dos locutores pioneiros da emissora, Edelson Moura.

"Uma carta que marcou muito a nossa vida foi a que veio das proximidades do Peixoto de Azevedo, onde a pessoa dizia que morava a 150 km do município e não havia transporte nem estrada. Ele se locomovia por dentro da selva para comprar pilhas para poder nos ouvir. E como tinha perdido a esposa e o filho de malária, estava sozinho ocupando a terra que foi atribuída para ele. E para não perder o hábito de falar, repetia tudo o que a gente falava no decorrer das nossas transmissões".

Socorro pelo rádio

Mas as cartas não serviam apenas para aproximar ouvintes e comunicadores. Elas se transformaram em pontes de solidariedade. Em muitos casos, foram o único caminho encontrado por pessoas que precisavam ser ouvidas. Ao abrir aqueles envelopes, a rádio recebia relatos de dificuldades, denúncias, pedidos de orientação e até de socorro.

Uma dessas vozes foi a de Alessandra. Em uma carta enviada ao programa Viva Maria, apresentado por Mara Régia, ela pediu ajuda para proteger suas irmãs após sofrer anos de violência e abuso.

"Mara, sou uma menina de 14 anos, e quero contar pra você um pouco do meu sofrimento. Aos 9 anos eu fui vendida pela minha mãe e meu padrasto para um paraguaio de 58 anos. Ele me usou como mulher, foi o maior sofrimento da minha vida. Minha professora descobriu e deu queixa no Conselho Tutelar. Mas esse conselho é muito devagar. O homem depois de preso ainda foi embora. E eu fiquei com meus pais. Aos 11 anos eu fui vendida de novo. Mais uma vez, vendida pelos meus pais para um cachaceiro. Outro sofrimento. Meu pai 'descombinou' com ele  e me tomou. Aos 13, fui vendida mais uma vez para um homem que eu não conhecia. Eu fui levada como uma ovelha para um matadouro. Eu larguei e corri para a casa da professora, que deu queixa da primeira vez. Foi onde eu encontrei apoio. Hoje, faz mais de um ano que eu moro com ela, que dá o que pode e me tem como filha. Agora sei que, com a ajuda dela, eu posso ser feliz".

O pedido de socorro não ficou sem resposta. Quem conta é a apresentadora Mara Régia.

"Acionamos imediatamente instituições parceiras de defesa dos direitos da infância. A denúncia ganhou o país pelas ondas da Nacional da Amazônia. A mobilização cresceu. O Ministério Público, especialistas em direitos humanos e diversas instituições passaram a discutir o caso. Depois das audiências realizadas em Juína, a professora Doreni Francisca Pereira, que já acolhia Alessandra, conquistou oficialmente a sua guarda. Foi a prova de que uma carta, quando encontra um rádio comprometido com a cidadania, pode romper o silêncio, mobilizar uma rede inteira de proteção e transformar destinos".

Em comunidades sem telefone, sem internet e, muitas vezes, sem energia elétrica permanente, a rádio era mais do que um meio de comunicação. Era uma janela aberta para o mundo.

 

Créditos:

Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), do acervo da jornalista Juliana Maya e do acervo do jornalista Cláudio Paixão. Roteiro e produção de Taiana Borges. Apresentação de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães.  A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

 

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