Nacional da Amazônia nasce para integrar região ao país, mas vai além
1977. Em algum ponto da Amazônia, um pescador recolhe suas redes. Uma professora prepara a aula em uma comunidade ribeirinha. Um seringueiro caminha pela mata. Todos separados por rios. Por dias de viagem. Por centenas de quilômetros. Mas algo estava prestes a aproximá-los. Uma nova voz nascia para atravessar a floresta.

"ZYF 263. Frequência 11.780. Ondas curtas 25 metros, Rádio Nacional Brasília - transmissão para a Amazônia - uma emissora Radiobrás".
No dia primeiro de setembro de 1977, entrava no ar a Rádio Nacional da Amazônia. O objetivo era ambicioso. Levar informação, educação, cultura e integração nacional aos lugares mais distantes do Brasil. Onde, até então, chegavam apenas emissoras estrangeiras.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
A inauguração foi tratada como um acontecimento estratégico para o país. Na cerimônia de lançamento, o então presidente Ernesto Geisel resumiu o significado daquela nova emissora.
"Hoje um novo importante projeto é inaugurado. A Radiobrás inicia sua transmissão para a Amazônia através da onda curta da Rádio Nacional de Brasília. A partir de agora, os compatriotas que aí habitam terão condições de ouvir pelo rádio a nossa língua, a nossa música, de estarem em dia com o que acontece no país. E assim, de se sentirem mais próximos de seus irmãos brasileiros e mais integrados com os altos interesses e anseios nacionais".
Estávamos em plena ditadura civil-militar e, para o regime, como fica claro no discurso de Geisel, a nova emissora cumpria uma função de integração nacional. A antena erguida em Brasília apontava para uma região maior que muitos países. Uma área onde estradas eram raras. Mas os rádios estavam presentes. Como conta Octavio Pieranti, conselheiro da Anatel e pesquisador do tema.
"O parque tinha que ser inaugurado antes do fim do governo Médici. O Brasil vivia uma ditadura militar e o Parque Nacional do Rodeador seria, também, uma peça de propaganda e um elemento importante no que a ditadura militar chamava de radiações alienígenas, ou seja, transmissões feitas por países do leste europeu e de Cuba, principalmente, que poderiam vir a convencer a população brasileira, a sociedade brasileira sobre os benefícios do comunismo. Então, o Parque do Rodeador em Ondas Curtas tinha esse papel de resistir a essa aproximação dessas emissoras".
Mas, para além das razões que motivaram sua criação, a emissora rapidamente encontrou um caminho próprio.
Não era apenas uma emissora. Era uma ponte. Entre comunidades isoladas e o restante do país. Entre a floresta e a capital. Entre brasileiros que nunca haviam se visto. E é aí, nessa interação cada vez mais próxima, que a Rádio Nacional da Amazônia vai crescer muito além dos objetivos inicialmente desenhados para ela pelo governo militar.
A gente da Amazônia
Entre as primeiras vozes da Rádio Nacional da Amazônia estava a da locutora Márcia Ferreira, apresentadora do Alfabeto Musical. Mas foi no Cantiga de Toda Gente que ela transformou a música em uma ponte entre diferentes regiões do país.
A cada programa, apresentava o folclore, as tradições e as histórias escondidas por trás das canções, revelando a diversidade cultural brasileira para ouvintes espalhados por toda a Amazônia Legal.
"Olá, amigos de toda a Amazônia Legal! Estamos de volta para apresentar mais um programa Cantigas de Toda Gente. Hoje vamos falar sobre cantos e ritmos das tribos do Xingu. Vamos começar com a cantiga das crianças. Os meninos cantam em corno em seus dias de folguedo. Ao contrário dos cantos e músicas dos adultos invocativos e sérios, a cantoria das crianças é apenas manifestação de contentamento".
E logo começaram a chegar as cartas. Milhares delas. Mensagens vindas de barcos, de aldeias, de pequenas cidades. De comunidades escondidas na imensidão verde.
Entre as primeiras correspondências recebidas pela emissora estava a carta de Edson Paiva. Nela, além de celebrar o nascimento da Rádio Nacional da Amazônia, ele já fazia sugestões para a programação. Era o início de um diálogo que atravessaria décadas.
"Ouvi ontem, emocionado, a palavra de sua excelência, o senhor general Ernesto Geisel, nosso muito querido presidente, na abertura da programação de sua emissora para a Amazônia. O evento é realmente digno de louvor e aplausos por se tratar, acima de tudo, de uma iniciativa que nos dará oportunidade de sermos um Brasil bem brasileiro. Sugiro a transmissão dos programas e jornadas esportivas da Rádio Nacional do Rio, pois somente assim ficaremos por dentro do que acontece no nosso esporte; e transmissão de mensagens religiosas, pois no mundo atual é de suma importância ouvirmos uma palavra amiga a nos falar das verdades espirituais".
Naquele primeiro dia, ninguém imaginava. Mas aquela voz lançada pelas ondas curtas se transformaria em companhia. Em serviço. Em memória. E, para muitos brasileiros, em família. A gente te conta mais nos próximos episódios.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). A simulação da voz do presidente Geisel foi feita por Mario Sartorello, e a voz da simulação de Edson Ribeiro Paiva foi feita por Gabriel Brum. Roteiro e produção de Taiana Borges. Apresentação de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.