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Brasília (DF), 03/07/2026 - 90 anos em 90 histórias. Arte/Agência Brasil
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Série

Nacional da Amazônia faz pontes entre pessoas e até com o Estado

Na Amazônia, as distâncias sempre foram medidas de um jeito diferente. Não apenas em quilômetros, mas em horas de barco. Dias de viagem. Sem telefone, sem internet.

Um pedido de socorro que poderia levar dias para percorrer um rio passou a levar apenas alguns segundos. Pelo rádio! E, muitas vezes, são esses segundos que mudam uma vida.

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.  

Foi o que aconteceu depois de uma campanha realizada por um programa da Rádio Nacional da Amazônia. Ouvintes ouviram orientações sobre os primeiros socorros em caso de picada de cobra. E conseguiram salvar vidas graças a esse trabalho. A apresentadora Mara Régia conta essa história.

"Natureza Viva, através da personagem Maria Bela, também conhecida como Belinha, passou a ensinar como agir diante de uma picada de cobra, explicando que não se deve fazer torniquetes nem cortar o local da picada, usar receitas caseiras ou tentar sugar o veneno. Nada disso. Nossa menina também incentivava medidas simples de prevenção, como o uso de botas e meias de cano longo durante o trabalho na floresta. Mas o mais bonito veio depois. As cartas voltaram. E muitas delas traziam relatos emocionantes de pessoas que conseguiram salvar vidas porque ouviram aquelas orientações pelo rádio".

Pelas ondas da Nacional, famílias voltaram a se encontrar. Parentes desaparecidos receberam notícias. Casamentos começaram depois de um recado no rádio. Houve até quem aprendesse a ler acompanhando programas educativos. E também quem encontrasse companhia suficiente para vencer a depressão. Como contam alguns dos ouvintes:

"Essa rádio, em 2015, me tirou de uma depressão terrível. Nem os médicos conseguiram me tirar, e a Rádio Nacional da Amazônia me tirou dessa depressão".

"Quero parabenizar a Rádio Nacional, ela é muito importante para mim, também porque meu marido encontrou a família dele. Tinha 35 anos que eles não se falavam, e eles se encontraram agora, através da Nacional".

"Através da Rádio Nacional eu fiz vários amigos. O meu casamento foi conseguido através da Nacional. Eu consegui localizar a mãe da Valdineia, que morava em Apuí, no Amazonas. Ela estava à procura da mãe dela, que já fazia 33 anos que ela não tinha notícias".

Ligação entre poder público e o povo

Na Amazônia, prestar serviço significava também avisar quando o barco da saúde passaria por uma comunidade; levar orientações sobre vacinação; alertar sobre períodos de cheia e de seca. Ensinar sobre direitos básicos de um cidadão. Dar voz às denúncias de crimes. Em muitos momentos, a rádio foi uma ponte entre o poder público e populações isoladas, como relata Beth Begonha, que apresentava o programa Amazônia Brasileira.

"Me marcou muito uma vez em que eu recebi um telefonema desesperado de uma mulher que vivia num assentamento. E as pessoas foram sendo ameaçadas e foram deixando o assentamento até chegar a um ponto que ficou só ela e o marido, e os pistoleiros rodeando a casa. E ela um dia me liga e fala 'Beth, pelo amor de Deus, eu sei que eu não tenho como pedir a você que faça alguma coisa, mas ainda assim eu vou te pedir: faça alguma coisa'. Quando a gente forma redes como a Amazônia Brasileira proporcionou, eu comecei a acionar pessoas. Entrando em contato com o Ministério Público, que por sua vez acionou a Polícia Federal, e nós salvamos a vida dessa pessoa. E mais: salvamos a vida do assentamento. Porque depois disso as pessoas puderam voltar, porque elas estavam fugidas daquela situação de violência a que elas estavam expostas". 

E esse compromisso atravessou fronteiras. Em 2024, quando as enchentes devastaram o Rio Grande do Sul, a Rádio Nacional da Amazônia fez algo inédito. As antenas foram viradas para o Sul do país.

A emissora passou a transmitir diariamente boletins meteorológicos, informações sobre resgate, serviços públicos e diversas orientações para a população atingida. Taiana Borges, atual gestora da emissora, lembra de mais esse momento no qual as ondas curtas chegaram onde eram mais necessárias.

"Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, o rádio voltou a mostrar porque ele continua sendo um instrumento essencial de solidariedade e de serviço público. Então, para ajudar a população que estava isolada, a EBC mobilizou toda a sua estrutura. As antenas do Parque do Rodeador em Braslândia, em Brasília, foram direcionadas para Sul do país e foi criado o programa Sintonia com o Sul. Foi uma programação especial criada exclusivamente para atender quem estava enfrentando aquele momento tão difícil das enchentes. Algumas universidades daquela região conseguiram radinhos de pilha para doar para as pessoas que estavam em áreas isoladas e não conseguiram deixar os seus locais ou não queriam, né? Então foi um trabalho de mobilização da EBC e do país".

E já são quase cinco décadas provando que, quando uma voz atravessa rios, florestas e milhares de quilômetros para chegar a quem precisa, ela deixa de ser apenas rádio. Ela se transforma em presença. E, muitas vezes, em um novo começo.

 

Créditos:

Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Roteiro e produção de Taiana Borges. Apresentação de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães.  A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

 

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