Empresários e governo tentam ampliar pauta de exportação do Brasil

Publicado em 26/09/2018 - 08:03 Por Mariana Branco - Repórter da Agência Brasil* - Santiago

A pauta de exportações brasileira é conhecida pela predominância dos chamados produtos básicos. Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), de janeiro a agosto deste ano, as vendas dos não industrializados lideraram a arrecadação do Brasil com exportações. Já os industrializados, cuja fabricação exige tecnologia, alcançaram patamares bem menores. A equação não é considerada saudável por economistas, pois a balança comercial do país fica refém do vaivém da cotação internacional dos produtos básicos, também conhecidos como commodities.

Os dados do ministério apontam que de janeiro a agosto a soja respondeu por 33% do valor exportado, seguida pelos óleos brutos de petróleo, com 19,56%, e pelo minério de ferro, com 15,96%. Enquanto isso, itens manufaturados tiveram presença bem menor, como os automóveis de passageiros, que no mesmo período responderam por 6,71% das vendas externas. Produtos de valor agregado da indústria de bebidas e alimentos geraram ainda menos receita. Para citar alguns exemplos, do início de 2018 até agosto, os refrigerantes e outras bebidas não alcoólicas, a margarina e o vinho de uvas, responderam, cada um, por 0,01% do valor total exportado pelo Brasil.

Há um esforço no sentido de mudar essa realidade. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) atua através do Programa de Capacitação para Exportação (PEIEX) capacitando empresários – muitos de pequenas indústrias – para exportar seus produtos de maior valor agregado. Além disso, articula o contato com clientes em potencial, como está ocorrendo esta semana durante a LAC Flavors -  feira de bebidas e alimentos promovida no Chile pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Uma missão organizada pela Apex levou 62 empresários brasileiros para participar de rodadas de negócios e expor seus produtos no evento.

Biotecnologia

Entre os participantes interessados em fazer seu produto ir além das fronteiras nacionais está a bióloga Fernanda Matias, dona da startup de biotecnologia Meltech. Nascida em Mossoró, Rio Grande do Norte, a empresa produz hidromel (uma espécie de vinho de mel) e kombucha, um probiótico (produto com microrganismos vivos) que, além do sabor, traz benefícios à saúde. “É um refrigerante natural”, diz Fernanda, cuja ideia para criar a empresa veio da situação de sua região.
 

A bióloga Fernanda Matias, dona da startup de biotecnologia Meltech
A bióloga Fernanda Matias, dona da startup de biotecnologia Meltech - Mariana Branco/Agência Brasil

“A região é muito rica em alguns produtos, e um deles é o próprio mel. Mas, há alguns anos, caiu muito a produção por falta de chuvas. As abelhas começaram a morrer e as famílias começaram a ficar sem dinheiro. Como faltam políticas públicas na região, o pessoal não sabia fazer o manejo [para continuar extraindo mel]. Pensei em começar a trabalhar com um produto de valor agregado, para essas famílias voltarem a produzir”, explica a bióloga, que tem doutorado em biotecnologia.

Segundo Fernanda, também houve a iniciativa de uma professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), que passou a oferecer cursos aos produtores. “A gente acabou se juntando. Ela soube de mim e eu soube dela”, conta. Agora, Fernanda prepara-se para a inserção concomitante dos seus produtos no mercado nacional e internacional. De acordo com ela, a empresa já nasceu de olho na possibilidade de exportação. A bióloga acredita que as bebidas farão sucesso no exterior.

“Nossos produtos têm características únicas. A vida útil do nosso kombucha é 12 meses, enquanto do comum são três. Patenteamos a fórmula. Falta patentear a do hidromel. Vamos começar tudo junto, mercado interno e externo. Quando a empresa ainda estava sendo incubada, há dois anos, eu já participava do PEIEX”, conta, referindo-se à capacitação para exportadores da Apex. Segundo ela, após a LAC Flavors, a empresa está em negociação com quatro países: Argentina, República Tcheca, Costa Rica e Reino Unido.

Cachaça

Com outro produto típico brasileiro, a cachaça, o empresário Ademilson Tápparo, dono do Dom Tápparo Engenho, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, também busca inserção no mercado internacional. O engenho, uma empresa familiar há 40 anos no mercado, sempre vendeu sua produção no âmbito regional. Mas, recentemente, Ademilson firmou parcerias para garantir a presença em grandes supermercados e, agora, espera que os estrangeiros se encantem por cachaças como a Cabaré e a Dom Tápparo. O industrial também fabrica licores coquetéis.

“O custo-benefício para a exportação é melhor. O imposto que a gente paga para vender internamente, no Brasil, é bem maior. A degustação que a gente fez [durante a LAC Flavors] teve boa aceitação”, afirma o empresário, que viajou com a esposa, Agueda Tápparo. Segundo Ademilson, Chile, Costa Rica, Austrália, República Tcheca, Panamá, Alemanha, Equador e Paraguai estão entre os países que demonstraram interesse nos produtos.

Valor agregado

Segundo Márcia Nejaim, diretora de Negócios da Apex, apesar de os produtos básicos ainda serem o destaque da pauta de exportações brasileiras, o país tem conseguido ocupar espaços com seus produtos industrializados. “Se você a olhar a pauta para a Argentina, é muito valor agregado. Para os Estados Unidos também. É verdade que o Brasil é um dos países mais competitivos no agronegócio. Mas é importante investir também nas empresas com manufaturados, tecnologia.”

O chefe da Divisão de Comércio e Investimento do BID, Fabrizio Opertti, que visitou a LAC Flavors, defendeu que os países agreguem valor a produtos e serviços que já fazem parte de sua cultura e particularidades, e citou o caso do Brasil. “É preciso agregar valor às nossas vantagens comparativas. Um país como o Brasil é uma superpotência de alimentos”, declarou.

*A repórter viajou a convite da Apex-Brasil

Edição: Carolina Pimentel

Dê sua opinião sobre a qualidade do conteúdo que você acessou.

Para registrar sua opinião, copie o link ou o título do conteúdo e clique na barra de manifestação.

Você será direcionado para o "Fale com a Ouvidoria" da EBC e poderá nos ajudar a melhorar nossos serviços, sugerindo, denunciando, reclamando, solicitando e, também, elogiando.

Denúncia Reclamação Elogio Sugestão Solicitação Simplifique
Últimas notícias
Comércio da cidade do Rio de Janeiro funciona com restrições
Saúde

Estado do Rio tem 168.064 casos de covid-19 desde início da pandemia

Desde ontem foram registrados 32 óbitos e 839 pessoas infectadas pelo novo coronavírus. O estado soma agora 13.604 mortes pela doença e 144.850 pacientes recuperados. 

Hospital de campanha do Maracanã no Rio de Janeiro
Justiça

Justiça do Rio impede fechamento de hospitais de campanha

Segundo secretaria, hospitais de São Gonçalo e do Maracanã estão abertos, mas sem pacientes por causa de vagas em unidades regulares da rede estadual.

O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, fala à imprensa , após reunião com o presidente Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada
Justiça

Defesa de Onyx assina acordo de não persecução penal com a PGR

Apesar do acordo fechado com a PGR, é necessário que o caso seja analisado pelo Supremo Tribunal Federal. Ministro-relator vai decidir se homologa acordo.

Hospital de campanha para vítima de Covid-19 em Santo André, São Paulo
Saúde

Covid-19: Brasil registra mais 561 mortes; total chega a 94.665

Doença atingiu 2,75 milhões de brasileiros; 69,5% já se recuperaram. Atualmente, 743.334 pacientes estão em acompanhamento.

Painel Resolveu
Geral

EBC fica em primeiro no ranking de elogios entre instituições federais

De 1º de janeiro a 31 de julho, a administração federal recebeu 4.656 elogios de usuários de 333 instituições; EBC recebeu 417 elogios, e Ministério da Economia, 375.

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES
Economia

BNDES seleciona fundos de crédito não bancário para pequenas empresas

Com isso, BNDES busca mitigar impactos da pandemia de covid-19 na economia e, por meio de canais não bancários, ampliar crédito para pequenos empreendedores.