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Adoção tardia: pai solo destaca desafios ao adotar quatro irmãos

Cabeleireiro diz que paternidade transformou a vida dele
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Rafael Lopes - Rádio Educadora FM
20/05/2026 - 08:07
Salvador
Rio de Janeiro (RJ), 17/10/2025 - Caminhos da Reportagem mostra histórias de crianças e adolescentes que cresceram em instituições de acolhimento. Frame: TV Brasil
© TV Brasil

No Brasil, a maioria das pessoas habilitadas para adoção ainda procura bebês ou crianças pequenas. Já meninos mais velhos, negros ou grupos de irmãos, costumam enfrentar mais dificuldades para encontrar uma família. Foi nesse contexto que o cabeleireiro, Alexandre Ranke, encontrou em uma plataforma de busca ativa o cadastro de uma menina de 4 anos acolhida em um abrigo no interior da Bahia. Após iniciar o processo de aproximação e ir até o local para conhecer a criança, ele descobriu que ela tinha outros três irmãos.

"E aí, quando eu cheguei lá, a minha filha mais nova veio correndo, do nada, assim, e falou assim: 'Pai, você veio!'. É uma sensação, não sei te explicar, mas era a sensação que eu tinha de que realmente ali eu tinha encontrado a minha filha, né? Só que até aí eu não sabia que eram vários irmãos, né? Nisso, nessas visitas de aproximação, eu fui conhecendo os irmãos. Foi uma coisa, assim, de realmente amor à primeira vista. E aí, quando eu disse à minha advogada que eu decidi que eu queria trazer os quatro, ela me disse: 'Olha, Alexandre, pelo amor de Deus, pensa direitinho, tem que dar educação, você tem que dar moral, você tem que dar princípio'. E aí eu falei com ela: 'Olha, ou eu trago todos os quatro ou eu não vou trazer nenhum mais'."

A adoção tardia envolve desafios tanto para as crianças quanto para as famílias que adotam. Muitas vezes, os menores já passaram por situações de abandono, violência ou rompimento de vínculos, o que exige tempo e construção de confiança. A juíza da Infância, Juventude e Família, Adida Alves dos Santos, explica que o processo de adoção busca garantir segurança e estabilidade para todos os envolvidos.

"As visitas são necessárias para a construção do vínculo. Verificando-se que a relação entre pretendentes e crianças ou adolescentes tem sido benéfica, inicia-se o estágio de convivência e acompanhamento, que pode durar até 180 dias. Após esse período, os pretendentes têm até 15 dias para propor a ação de adoção."

Alexandre Ranke conta que a adaptação não foi fácil.

"Eu tive muito problema com um dos meus filhos pelo abandono que já tinha, né? E aí eles preferem rejeitar do que ser rejeitados novamente. Até que, com muito custo, toda vez que ele dizia 'não gosto de você', eu dizia: 'Olha, eu te amo. Você não gosta de mim, mas eu te amo. O meu amor é tão grande que dá para dividir para nós dois'. E aí ele viu que realmente eu não ia desistir dele como pai, né? E aí depois eu tive outros problemas com preconceito, porque a adoção é muito difícil no Brasil, porque a minha adoção é interracial, né? Os meus filhos são negros e eu sou loiro do olho verde. Por eu ser um pai solo, um pai gay... enfim, tem um monte de preconceito."

Hoje, Alexandre diz que a paternidade transformou a vida dele. Passou a entender a adoção como um encontro de afetos e aprendizagens.

"A melhor coisa que eu fiz na minha vida foi ter escolhido crianças grandes. Eu recebi até um prêmio em Brasília por adoção tardia, porque crianças a partir de 3 anos ninguém quer mais. Hoje, vendo a progressão que a coisa tomou para quem chegou sem saber ler e escrever, meus filhos sendo elogiados pela educação, pelo respeito... isso aí não tem preço, né?"