Rádio Nacional ajudou a transformar o mercado da música no país
Quem nasceu primeiro no Brasil, o rádio ou as gravadoras? O dilema é mais fácil de responder do que o do ovo e da galinha, já que as primeiras gravações comerciais no Brasil datam de pelo menos 20 anos antes da primeira transmissão pública de rádio, em 1922.

Mas, se a pergunta for "quem ajudou quem?", aí fica mais complexo. Porque, se os artistas com sucesso na venda de discos eram as primeiras opções de contratação das emissoras, aqueles que faziam fama nas rádios também passavam a ser cobiçados pelas gravadoras.
É correto dizer que houve uma relação simbiótica. E a Rádio Nacional foi decisiva para transformar o chamado mercado fonográfico em uma indústria de massa no Brasil.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Artistas já consagrados pelas gravadoras, como Orlando Silva, Francisco Alves e Sílvio Caldas, estavam entre as primeiras contratações da Nacional.
Já Nora Ney, Jorge Goulart, Emilinha Borba, Marlene e vários outros artistas conquistaram popularidade na emissora e depois tiveram enorme sucesso na venda de discos.
O músico e professor Henrique Cazes destaca que o fluxo também era intenso entre os músicos da Nacional e as gravadoras.
"Esses caras trabalhavam de manhã na gravadora, de tarde na rádio, de noite no cassino ou depois, na boate. Odeon tinha o Garoto, a Continental tinha o Waldir Azevedo, a RCA Victor tinha o Jacob do Bandolim, a Sinter tinha o Zé Menezes. E eles gravavam e lançavam disco. Lançavam dois '78' por ano, pelo menos. Esses instrumentistas todos estavam ali".
Nas décadas de 1940 e 1950, o principal maestro da Nacional, Radamés Gnattali, dividia seu tempo entre a emissora e a gravadora Continental. Mas, antes disso, passou pela RCA Victor por intermédio de Orlando Silva.
O cantor das multidões queria repetir em seus discos o requinte dos arranjos de Radamés que o acompanhavam nas apresentações da Nacional.
Foi nessa época que o Brasil se tornou um dos principais mercados fonográficos do mundo, coincidindo com a modernização da Nacional.
Relação com a RCA Victor
O curioso é que os novos transmissores, que passaram a fazer a emissora chegar mais longe, e os discos apreciados pelos fãs tinham a mesma origem: a RCA Victor, que também era fabricante de equipamentos de radiodifusão.
No início dos anos 1950, os discos de 78 rpm, com apenas três minutos de música de cada lado, passaram a conviver com uma novidade: os LPs. Não é surpreendente que, no primeiríssimo LP lançado pela gravadora Sinter, uma coletânea chamada Carnaval em Long Playing, tenham entre os artistas várias figuras conhecidas da Nacional. Entre elas Os Cariocas, César de Alencar e Heleninha Costa.
Quando a Nacional completou duas décadas, em 1956, a RCA Victor fez um cartaz promocional. A ilustração traz cinco pessoas de mãos dadas, caracterizadas de formas diferentes: um operário, um engravatado, um homem portando traje típico gaúcho e outro com chapéu característico do cangaço nordestino. No meio, uma mulher vestida como Carmen Miranda.
O título, em negrito, diz: "20 anos transmitindo cultura e beleza e unindo os brasileiros!". E o texto:
"A RCA Victor, que instalou para a Rádio Nacional quatro transmissores, possibilitando, assim, a sua penetração nos lares de todos os pontos do país, sente-se orgulhosa da sua contribuição. E junta a sua voz à de todos os brasileiros que se rejubilam agora com o 20º da grande emissora!"
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Mario Sartorello interpreta o texto do cartaz da RCA Victor. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.