Com missão de integrar e alcançar locais isolados, Radiobrás é criada
Desde 1936, a Rádio Nacional foi referência em informação, entretenimento e cultura para milhões de lares brasileiros. E, em meados da década de 1970, durante a ditadura civil-militar, a emissora passaria por sua maior transformação institucional: da Era de Ouro à centralização estratégica.

No início da década de 1970, o Ministério das Comunicações reorganizava todo o setor. O governo já havia unificado a telefonia sob a Telebrás, mas, nas ondas do rádio, o cenário era fragmentado.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Estações federais funcionavam espalhadas por diferentes ministérios, sem uma coordenação centralizada. Foi em 1971 que o então ministro das Comunicações, Hygino Corsetti, desenhou o futuro: era preciso criar uma estatal para a radiodifusão oficial. Quem conta é o pesquisador e conselheiro da Anatel, Octavio Pieranti.
"E aí o Ministério das Comunicações, no início da década de 1970, ainda, existem os primeiros documentos em que o ministro das Comunicações faz uma exposição de motivos para o presidente Médici falando como deveria ser o setor de comunicações ao longo do tempo e ele fala lá para as tantas o seguinte: 'olha, hoje o governo federal tem uma série de emissoras de rádio e uma de televisão, em Brasília. Essas emissoras têm que se reunir em um mesmo grupo que deve funcionar como holding, tal como ocorre no caso da Telebrás. Isso não é para agora, mas isso tem que ser feito em algum momento'".
Enquanto o projeto amadurecia, a TV Rádio Nacional de Brasília investia em um ambicioso sistema de alta potência em ondas curtas para levar a programação brasileira aos cinco continentes. Mas a mudança de governo, em 1974, alterou as prioridades.
Quando Ernesto Geisel assumiu a Presidência, o milagre econômico já tinha acabado, e o projeto internacional perdeu espaço. Ganhou força, então, a proposta de criar uma empresa única, com foco na integração do Brasil e na Amazônia.
A formalização veio em dezembro de 1975, por meio da Lei nº 6.301, que criava a Radiobrás.
"Então quando vira o governo, em 1974, o novo Ministério das Comunicações retoma e fala cada vez mais desta nova empresa, da Radiobrás. E aí ele fala da Radiobrás como aquela empresa que vai reunir todas essas estações de rádio que estão por aí perdidas e descoladas. E a Presidência da República adota uma postura de muita preocupação com a Amazônia. E daí muda o discurso do diretor, do presidente da TV Rádio Nacional de Brasília, falando cada vez mais que, olha, essa emissora também é uma resistência ao que eles chamavam de irradiações alienígenas, ou seja, ao sinal de emissoras estrangeiras que transmitiam para o Brasil, em grande parte para a região amazônica, que era uma região muito mal coberta por meio de comunicação naquela época".
Em maio de 1976, a Radiobrás iniciava suas operações, integrando a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a Rádio Nacional de Brasília, a Rádio Ipanema e outros veículos federais. Sob a nova gestão, a programação se agigantou e passou a circular em rede.
Nova programação
O jornalismo ganhou produções como o Repórter Petrobras, claramente inspirado no modelo adotado pelo Repórter Esso décadas atrás. Quem explica é o antigo apresentador da Rádio Nacional, Clemente Drago.
"Nós vimos na época, com Gilberto Amaral, o Repórter Petrobrás, que depois veio a se chamar Repórter Nacional. Era uma leitura de noticiários, assim, no estilo do Heron Domingues, que lançou aquele estilo da época da guerra, do sensacionalismo em notícia".
A música popular brasileira ecoava, agora, de mais forma integrada, de Norte a Sul, com o programa Parada Nacional:
"A partir de agora você vai se atualizar. Você vai ficar por dentro do sucesso. Do sucesso nacional, do sucesso importado. Porque a sua emissora favorita, Rádio Nacional de Brasília, leva até você os melhores momentos de alegria e comunicação para que você tenha um dia mais azul".
E o esporte também retomou seu espaço de direito, cobrindo grandes decisões e os jogos da seleção com equipes integradas.
Em plena Guerra Fria, a Radiobrás tinha como meta levar informação e a presença do Estado para regiões mais isoladas, especialmente a Amazônia, onde as emissoras comerciais praticamente não chegavam.
E na tentativa de unir vozes de vários cantos do país, é que, em 1975, é criada uma das vinhetas mais marcantes da história da emissora. Com produção de Walter Santos e Tereza Souza e arranjos de Nelson Ayres e Hermeto Pascoal, a Rádio Nacional de Brasília acordava os brasileiros e brasileiras todos os dias com a canção Minha Voz.
Com a locução de Clemente Drago ao longo da vinheta, era a emissora mais querida do Brasil cantando junto com um país inteiro. Veja a transcrição:
Locutor: "na cidade, no campo, no sertão, na beira do rio, no meio da mata, na beira do mar".
Canção: "minha voz chegando em toda parte, em qualquer caminho, em qualquer lugar. É a voz de um povo valente e forte que agora, junto, vai se encontrar. Minha voz canta esperança".
Locutor: "estamos levando a você a música, a informação e o divertimento. Rádio Nacional de Brasília: no coração do povo. No coração do Brasil".
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e do podcast Na Memória do Rádio, de Claudio Paixão. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.