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Brasília (DF), 03/07/2026 - 90 anos em 90 histórias. Arte/Agência Brasil
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Série

Guardiões do sinal: o papel dos operadores de ondas curtas da Nacional

Todos conhecem a voz da Rádio Nacional da Amazônia. Mas existe uma voz que nunca foi ao ar. A daqueles que fizeram todas as outras chegarem até você.

Enquanto a programação acontecia nos estúdios, havia outra equipe travando uma batalha silenciosa: manter a Rádio Nacional da Amazônia viva 24 horas por dia. Sem interrupção.

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.  

Porque eles sabiam: uma falha técnica significava muito mais do que alguns minutos sem transmissão. Era uma companhia que desaparecia.

Quando uma tempestade atingia Brasília, eles pensavam em quem estava do outro lado. No barqueiro, no caminhoneiro, no garimpeiro. No ribeirinho. No radioamador. Nas comunidades que precisavam da rádio. Em alguém que talvez estivesse esperando aquela voz para não se sentir sozinho.

Foi o que aconteceu em março de 2017. Após uma tempestade, a subestação de energia do Parque do Rodeador recebeu uma descarga de energia muito forte e pegou fogo. Sem energia para ligar os transmissores, a Rádio Nacional da Amazônia saiu do ar. E ficou fora do ar por oito meses.

Durante esse tempo, chegaram mensagens de toda a Amazônia. Algumas dessas mensagens diziam assim:

"Sou doutorando na Universidade de Brasília e tenho trabalho de pesquisa na Reserva Extrativista do Alto Juruá, no Acre. Lá, o único meio de comunicação para muitas comunidades é o rádio de ondas curtas. E quando estive lá, para minha surpresa, a Rádio Nacional da Amazônia estava fora do ar. E muitas pessoas me perguntaram o que está acontecendo. Gostaria de ter uma posição da empresa sobre o assunto".

"Prezados, a Rádio Nacional da Amazônia está fora do ar pelos seus canais de ondas curtas desde o final de março passado, quando a subestação que alimenta os transmissores foi atingida por raios. Gostaria de saber as providências que foram e estão sendo tomadas para o retorno da estação ao ar. Qual a expectativa de prazo para o retorno das transmissões? Os equipamentos danificados não estavam assegurados? Qual a dimensão das reclamações dos ouvintes?".

"Estamos todos torcendo para o restabelecimento da emissora e gostaria de afirmar que estamos à disposição da Rádio Nacional da Amazônia em qualquer ajuda que pudermos prover".

Foi durante esse silêncio que muitos profissionais do Parque do Rodeador perceberam, de forma muito concreta, o tamanho da responsabilidade que tinham nas mãos. O então coordenador o parque na época, Ismar do Vale, recorda desse momento.

"Foi aí que a gente viu a importância que a Rádio Nacional da Amazônia tem para os ribeirinhos da Amazônia. Foi aí que a gente viu que a Rádio Nacional é essencial para o entretenimento e cultura do povo da Amazônia".  

Foram meses de trabalho, com a emissora operando de forma emergencial, utilizando geradores, até que a solução definitiva fosse concluída. Quando os transmissores voltaram a funcionar em alta potência, a comemoração foi de quem sabia que o sinal estava, enfim, de volta à Amazônia. Ismar do Vale se recorda desse dia.

"Você não acredita a alegria quando a gente ligou as transmissões da Rádio Nacional da Amazônia. Foi uma alegria fora do comum, o pessoal vibrando".

Muitos operadores nunca conheceram pessoalmente seus ouvintes, mas dedicaram décadas de suas vidas a eles. Há quem conheça essa história por dois ângulos diferentes. Jozias Papa passou anos nos estúdios da Rádio Nacional da Amazônia. Hoje, ele está no Parque do Rodeador, ajudando a garantir que a informação, o serviço público e a companhia da rádio continuem chegando aos ouvintes. Para ele, a importância do trabalho continua sendo a mesma.

"E eu me recordo que trabalhava na Rádio Nacional da Amazônia, nos estúdios, na Central do Ouvinte. Os recados eram para procurar parentes desaparecidos, para dar notícias sobre o nascimento de crianças. E algumas denúncias referentes a problemas de terra, exploração de mão de obra indígena, mão de obra de funcionários. E na época, a Serra Pelada estava em grande evidência, quando havia aqueles acidentes de desmoronamento de terra, várias pessoas morriam soterradas. E às vezes as pessoas nos ligavam passando a relação das vítimas que infelizmente perderam a vida naqueles garimpos. E hoje nós estamos aqui trabalhando no Rodeador, na outra ponta, mas prestando o mesmo serviço, mesma utilidade pública para os nossos ouvintes".
 

Eles fazem parte de todas as histórias que você ouviu até aqui. Porque, antes de existir uma voz atravessando a Amazônia, existia alguém garantindo que ela nunca deixasse de ser ouvida.

 

Créditos:

Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). As leituras dramatizadas das cartas dos ouvintes foram feitas por Mario Sartorello, José Carlos de Andrade e Patricia Barros Fontoura. Roteiro e produção de Taiana Borges. Apresentação de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães.  A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

 

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