Maior diversidade de música e pautas é marca da reinvenção da Nacional
Do funk ao choro. Do esporte ao debate público. É com uma história imensa, diferentes gerações de funcionários e particularidades em cada praça que a marca Nacional, sob gestão da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), tem a desafiadora, mas também estimulante, tarefa de reformular a identidade das emissoras.

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
“Eu acho que as rádios foram os veículos que a gente recebeu, digamos, com maior proximidade com o ideal de comunicação pública”.
Esta é Tereza Cruvinel, primeira presidenta da Empresa Brasil de Comunicação. É bebendo dessa tradição de proximidade com a cultura popular e com a cidadania que a Rádio Nacional vai organizar a sua nova programação.
“Houve investimentos importantes no rádio tanto na infraestrutura como também em programação. O superintendente era o Guilhon, ele e fez um arrojado programa de participação da produção independente na programação das emissoras de rádio, todas elas”.
Orlando Guilhon, ex-superintendente das rádios da EBC, lembra que, na emissora onde tudo começou, a Nacional do Rio, a programação já tinha uma nova cara na transição entre a Radiobrás e a EBC.
“O Época de Ouro e o Rádio Maluca são dois exemplos de programas de auditório que enchiam o auditório. Já foi na fase da gestão Radiobrás. Depois a gente fortaleceu isso com outros programas, o Puxa o Fole e outros programas de auditório”.
A nossa colega Glaucia Araújo, hoje apresentadora do programa Tarde Nacional, chegou à emissora em 2004. E ouviu do diretor, Cristiano Menezes, que ela se encaixava em um perfil que ele procurava.
“Com o perfil que eu tinha na época, né? De ser mais jovem, de ter uma experiência de FM. E o Cristiano pensava exatamente isso, né? Em fazer no meio da tarde um programa com mais cara de FM, mais musical e menos com aquela cara de AM. Na época, muita gente entrou também com programas muito legais, como a Dorina, a Berta, o Geraldo do Norte, Marco Antonio Monteiro”.
Mais diversidade
Programas como O Amigo da Madrugada, com Adelzon Alves, e Ponto do Samba, com Dorina e Confete, reaproximavam a rádio do público. Puxa o Fole, de Sergival, e Tabuleiro do Brasil, com Geraldo do Norte, resgatavam a tradição iniciada por Luiz Gonzaga, na Nacional, de garantir um espaço especial para a cultura do Norte e Nordeste.
“Tudo que o setor comercial não poderia fazer, do ponto de vista dos seus interesses, a comunicação pública teria que levar. Então, havia uma preocupação muito grande de levar as artes para falar com as comunidades, um olhar para as periferias. Uma programação que dialogasse com os diversos segmentos da sociedade, para o mais velho, para a comunidade LGBTQIA +, para questões relacionadas a racismo, enfrentamento ao racismo, violência contra a mulher, xenofobia”.
Este é Marcos Gomes, coordenador da Rádio Nacional do Rio no período. Foi para tentar cumprir esses objetivos que a emissora abriu espaços inéditos.
“Foi um escândalo colocar o funk na Rádio Nacional. Porque eles achavam que a gente ia botar o funk proibidão. Não, o Leonardo tinha questões mais sociais, era um cara politizado. Então ele contextualizava a violência policial. Nós não tínhamos vergonha de ser uma rádio popular. Associado a isso tudo, o futebol, que veio com tudo. Depois da Copa do Mundo, a equipe foi fazer o Campeonato Brasileiro viajando para os estádios, coisa que não se faz mais hoje”.
As orientações e os esforços para tornar a Rádio Nacional mais próxima de um conceito de comunicação pública contemplavam também as outras emissoras da marca Nacional.
“A Rádio Nacional FM era muito fechada. Era, na verdade, elitista. Era uma rádio de bossa nova, de jazz. Em um bom período tocou música internacional, só jazz”.
Este é Carlos Senna, na época coordenador da Rádio Nacional FM de Brasília. Ele explica que o reposicionamento veio a partir da reflexão sobre o perfil e a identidade de cada emissora, como aconteceu com a FM de Brasília.
“É uma emissora local de Brasília, e qual o perfil dela? Ela tem que apoiar, em primeiro lugar, a arte que os artistas de Brasília produzem, seja na música, teatro, cinema, culturalmente falando, tudo. Junto com Chico Buarque, Gal Costa, a música dos artistas de Brasília”.
Jornalismo cidadão
No jornalismo, a tensão entre o histórico de forte intervenção editorial em diferentes governos e os debates acumulados pelo conjunto dos trabalhadores vão resultar em esforços de uma cobertura mais cidadã.
Taís Ladeira, ex-gerente das rádios EBC, exemplifica com o jornalismo feito na Rádio Nacional da Amazônia.
“Contrabando de animais, desmatamento, todas essas pautas que nós vemos, que significa Amazônia na mídia nacional. Claro que tem que ser falado, mas a Amazônia é muito mais do que isso. Então a gente conseguiu deslocar, por meio das fontes, das pautas, dos olhares, iniciando pela perspectiva do interesse do cidadão e da cidadã. O que é que aquela política pública vai mudar na vida das pessoas?”.
Nossa colega Bianca Paiva foi repórter da Rádio Nacional da Amazônia por mais de 10 anos, dois deles como correspondente direta do estado do Amazonas, e lembra bem das pautas.
“Conteúdos voltados para as comunidades tradicionais da floresta, as causas, tudo que a floresta enfrenta para se manter em pé. Eu participei de coberturas muito bacanas. Uma delas é o Festival Folclórico de Parintins. O Brasil inteiro, o mundo deveria saber como é o festival e como é mágico a gente ter toda essa grandiosidade na região amazônica”.
Nos próximos episódios, a gente te conta como a participação social foi essencial e é imprescindível em um veículo de comunicação pública como a Rádio Nacional.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.