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Brasília (DF), 03/07/2026 - 90 anos em 90 histórias. Arte/Agência Brasil
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Série

Rádio Nacional volta a Tabatinga e renova missão de integrar

Desde o final dos anos 1600, próximo à foz do Rio Solimões, a oeste de onde hoje é o estado do Amazonas, existe o registro de uma aldeia fundada pelos jesuítas.

Aquele local era a exata fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. E, por isso, a Coroa Portuguesa decide instalar ali um posto militar para fiscalizar a região.

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.  

Mais de dois séculos depois, em 1983, naquele mesmo local, é oficialmente emancipado o município de Tabatinga.

Como já te contamos em episódios anteriores, o governo militar percebeu a importância geopolítica da cidade e instalou ali, na década de 1980, a Rádio Nacional de Tabatinga.

A rádio foi desmontada durante o governo de José Sarney. Mas a ausência da Rádio Nacional nunca deixou de ser notada pelo povo local.

“Nós criamos a emissora no Alto Solimões. Eram instrumentos de cultura, de informação, de grande valor para as comunidades, tanto porque elas podiam falar entre si, como porque elas tinham contato com outras dimensões da notícia. Uma emissora de rádio, um centro nervoso de cultura comunicacional, é tão importante quanto uma escola e um hospital”.

Esse é Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás de 2003 a 2006. Sob sua gestão, voltou a entrar no ar uma emissora de rádio diretamente de Tabatinga, sob o nome de Rádio Mesorregional do Alto Solimões, em parceria com o Ministério da Integração Nacional. A inauguração oficial aconteceu em 15 de dezembro de 2006.

Uma pesquisa entre os moradores confirmou algo que já estava presente na memória da população: o nome Rádio Nacional. A emissora passou então a se chamar Rádio Nacional do Alto Solimões.

“Rádio Nacional é 10, é 10 quilos de potência em FM. 96.1 MHz: Rádio Nacional do Alto Solimões. 96.1 FM. Aqui começa o Brasil”.

Ter uma rádio pública na fronteira não é apenas um projeto de radiodifusão. É uma estratégia geopolítica de soberania nacional e integração de nove municípios, como conta Taís Ladeira, gestora das rádios na época.

“A emissora tem esse papel muito claro de falar sobre a região do Alto Solimões. Apesar de ela ser sediada em Tabatinga, dialoga com a realidade de Atalaia do Norte até Jutaí, que é a última comunidade. São nove cidades ao longo do rio. Tem algo muito importante nisso, porque não basta uma emissora localizada em Brasília ou no Rio falar sobre a Amazônia. É preciso ter, sim, uma comunicação produzida na Amazônia por profissionais que vivem ali, que conhecem a realidade daquele local, daquele território. Que conseguem escutar aquelas populações de um outro ponto de vista”.

Tragédias da Nacional do Alto Solimões

Mas a história da Rádio Nacional do Alto Solimões também é marcada por perdas.

Em 2006, Osman de Oliveira Melo e Francisco Alves de Oliveira, técnicos da Radiobrás, morreram no acidente aéreo da Gol quando retornavam de uma viagem a Tabatinga. Eles haviam trabalhado na instalação e manutenção do transmissor da emissora.

E, em 2013, Lana Micol, então coordenadora da rádio, foi vítima de feminicídio em Tabatinga. O caso permanece sem desfecho na Justiça. Lana deixou, entre seus legados, a defesa dos direitos das mulheres e o combate à violência contra a mulher.

Miss Lene Ferreira, atual gestora da Nacional do Alto Solimões, fala a respeito desse legado.

“Estamos estreando, inclusive, um quadro inspirado um pouco no Viva Maria, que é o Vidas de Marias, justamente para trabalhar muito mais essa questão da violência contra a mulher, para que as nossas Marias lá do Alto Solimões tenham essa informação e todos os mecanismos para a sua defesa e não sejam vítimas, como foi a nossa querida Lana Micol”.

A força da Rádio Nacional do Alto Solimões está na sua capacidade de dar voz a quem vive na região. Programas como Alô Fronteira, Repórter Solimões, Recados, Sentinela da Fronteira e Tarde Cabocla transformaram a rádio em um elo importante para enfrentar o isolamento nas secas severas ou nas grandes cheias dos rios.

“Miss Lene, a situação está difícil, já não tem água na escola, as crianças não conseguem mais ir para a escola. Enfim, não estamos conseguindo tomar banho, o município vizinho está totalmente isolado. Eles mandam isso para a gente em vídeo, em áudio, para que a gente replique para as autoridades ficarem sabendo que naquela determinada comunidade a situação da seca ou da cheia do rio já ficou fora do controle”.

Trabalhadoras e trabalhadores que vivem na região têm na emissora, para além de fonte de entretenimento, um elo de afeto e de justiça social.

“Eu acho que é o público mais próximo da gente. É a população ribeirinha, são os agricultores, são os pescadores e pescadoras artesanais. De compartilhar: 'nasceu meu neto, nasceu meu filho, vai ser o meu aniversário de 80 anos e eu quero a Rádio Nacional aqui com a gente', 'a minha amiguinha do rádio, meu amiguinho do rádio'. A Justiça Federal várias vezes já relatou para a Rádio Nacional que o único meio de localizar algumas pessoas que estão passando por processos de pensão alimentícia de diversas situações é através da Rádio Nacional”.

Nas terras do Vale do Javari e nas calhas dos rios, vivem diversas etnias indígenas. É a Rádio Nacional fazendo com que os povos originários da língua Ticuna se comuniquem pela emissora em sua própria língua, no programa Tarde Cabocla, com o apresentador Otto Von Farias.

 

Créditos:

Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães.  A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.