Como a EBC fortaleceu espaços de participação social da Rádio Nacional
Fazer comunicação pública vai além de produzir informação e entretenimento para a sociedade. Significa criar mecanismos para a população participar, criticar e influenciar os caminhos das emissoras.

Na história da Rádio Nacional sob gestão da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a participação social assumiu diferentes formas. Uma das experiências mais significativas nasceu da parceria entre a EBC e a Universidade de Brasília (UnB).
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Entre 2008 e 2012, professores e estudantes da UnB passaram a acompanhar sistematicamente a programação das emissoras da Rádio Nacional e MEC e a analisar as manifestações dos ouvintes.
O trabalho resultou em pesquisas acadêmicas, em um livro e, principalmente, em um programa que transformou a própria discussão sobre a rádio em conteúdo radiofônico: o Rádio em Debate.
“Sou Fernando Oliveira Paulino, ouvidor adjunto das Rádios da EBC. Começa agora o Rádio em Debate, um canal de diálogo entre você, ouvinte, e a nossa emissora”.
Foram mais de 250 edições, transmitidas durante 175 semanas consecutivas. O apresentador, ouvidor-adjunto das rádios da EBC e coordenador da parceria com a UnB, Fernando Oliveira Paulino, fala sobre o programa.
“A relação entre a Universidade e a EBC acabou por fortalecer o trabalho da ouvidoria e criar ainda mais condições de diálogo tanto com o público interno, que foi essencial ao estimular a participação de profissionais da EBC nas reflexões sobre as atividades que eram desenvolvidas pela empresa, como também de estimular a participação do público externo, por meio de audiências públicas, por meio do tratamento das mensagens. Com repercussões até hoje, porque muitas das pessoas que participaram desse projeto se transformaram em profissionais de serviço público de comunicação, de empresas privadas da comunicação, jornalistas reconhecidos”.
Além das discussões, o programa também executava músicas para os ouvintes. Virava um espaço aberto de crítica, mas também de diversão. A radialista Heloisa Fischer acompanhava essa construção coletiva.
“O que a EBC está oferecendo para o ouvinte é algo tão raro da gente ver que às vezes deve ter sido uma surpresa no início, para os ouvintes compreenderem que é um canal de reflexão sobre a própria programação. É uma espécie de construção de cidadania musical radiofônica, né? É aquele momento em que a emissora meio que senta no divã, como se estivesse no analista, pra pensar a sua programação. E isso, pros ouvintes, é uma riqueza incrível”.
Outra forma de aproximação entre as emissoras e seu público era a Central do Ouvinte. O serviço fazia a ponte entre os ouvintes e as rádios Nacional de Brasília, do Rio de Janeiro e da Amazônia, recebendo contatos por telefone, e-mail, mensagens, cartas e outros canais.
Também organizava visitas e participações dos ouvintes nos programas. A Central do Ouvinte existiu até ser integrada à Ouvidoria da EBC, já nos anos 2020.
Encontros com a sociedade
Mas a participação social também saiu dos canais tradicionais de contato com o ouvinte e foi diretamente ao encontro de movimentos sociais, produtores culturais e outros setores da sociedade.
Foi assim que surgiram os Colóquios de Parcerias, realizados em diferentes localidades e envolvendo a Rádio Nacional. A ideia era simples: realizar encontros para abrir o microfone e ouvir quem estava fora da rádio. E transformar críticas e sugestões em programas para as emissoras, como conta a gestora das rádios na época, Taís Ladeira.
“A gente não queria apenas convidar as pessoas para uma reunião e depois continuar fazendo exatamente a mesma rádio. O colóquio era o espaço para ouvir críticas, sugestões, para criar possibilidades concretas de participação na programação. Então aquele grupo que conseguisse levar uma proposta para esses colóquios de parcerias e nos procurar para, quem sabe, ter um programa, um espaço na programação, era muito bem-vindo”.
E foram bem-vindos mesmo! Um dos exemplos mais marcantes da experiência dos colóquios foi o Ação Periferia, um programa produzido por jovens da cidade de Ceilândia, no Distrito Federal, ligados à cultura hip-hop.
O programa ocupou a programação da Rádio Nacional e chegou a ter alcance nacional.
- Muito feliz de estar aqui na comemoração dos 56 anos da Rádio Nacional. E o Ação é destaque na programação, pois faz parte do fomento da produção independente, faz parte do projeto de democratização da comunicação dentro da rádio.
- A gente estava lá no colóquio!
- Primeiro colóquio de parcerias.
Conselho curador
E não tem como falar em participação social na EBC sem falar do seu órgão mais importante: o Conselho Curador.
Criado junto com a EBC, em 2007, o conselho era uma instância de participação da sociedade na comunicação pública. Com 22 integrantes, reunia representantes da sociedade civil, do governo e dos trabalhadores da empresa.
O colegiado acompanhava e fiscalizava a programação da EBC, promovendo audiências e debates para garantir uma comunicação plural e independente do governo.
Mas o conselho foi cassado em 2016, por uma Medida Provisória (MP) do governo de Michel Temer. A decisão foi criticada por interromper a participação direta da sociedade na EBC. A ex-presidenta do colegiado, Ana Fleck, fala a respeito.
“O Conselho Curador, então, existia pra zelar pelos princípios e pela autonomia da EBC, impedindo que houvesse ingerência indevida do governo e do mercado sobre a programação e gestão da comunicação pública. Além disso, visava representar os anseios da sociedade em sua diversidade na aprovação das diretrizes de conteúdo e no plano de trabalho da empresa. E a extinção do Conselho Curador feriu de morte a questão da independência, da autonomia da própria EBC”.
A participação social só voltou a ser institucionalizada na EBC nove anos depois, em 2025, quando a EBC instalou dois novos comitês dentro do Sistema Nacional de Participação Social na Comunicação Pública (Sinpas).
A ação é um esforço para que a empresa volte a ter uma aproximação mais ativa com diferentes segmentos da sociedade.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.