Coluna: O mercado do banco

Em 2020, vale a pena festejar o Dia Nacional do Treinador de Futebol?

Publicado em 14/01/2020 - 15:25 Por Sergio du Bocage, apresentador do programa No Mundo da Bola. A coluna do apresentador será publicada pela Agência Brasil semanalmente às terças-feiras. - Rio de Janeiro

O mês de janeiro no futebol é reconhecido como o das contratações. Não é à toa que a imprensa esportiva já incorporou o termo “mercado da bola”, tantas são as negociações. Mas este ano as contratações transpuseram as quatro linhas e chegaram aos bancos de reservas com muitas mudanças de treinadores. Inclusive com alguns chegando de fora do país. E, como 14 de janeiro é o Dia Nacional do Treinador de Futebol, vale a pena levantar algumas questões.

Por exemplo: fala-se na necessidade da renovação. Aí vem o Santos e contrata Jesualdo Ferreira, português de 73 anos que já estava aposentado. E esse investimento merece elogios de quem pedia renovação.

Outro exemplo: o Atlético Mineiro contrata Rafael Dudamel, que fez bom trabalho na base do futebol venezuelano, adota esquema ofensivo, mas não tem título algum.

Tem mais: por que apenas três times, entre os 40 das séries A e B, tiveram técnicos negros em 2019: Fluminense (Marcão), Bahia (Roger Machado) e Botafogo-SP (Hemerson Maria)?

O futebol brasileiro terá novidades no banco, com cinco estrangeiros: além de Jesualdo e Dudamel, Jorge Jesus (Flamengo), Eduardo Coudet (Internacional) e Augusto Inácio (Avaí). Será modismo ou necessidade? No momento, eu diria que por modismo, mas, na verdade, vejo como uma necessidade. Se num passado não muito distante Diego Aguirre, Reinaldo Rueda, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio e Ricardo Gareca não deixaram muitas saudades, o impacto provocado pelo trabalho do Mister no Flamengo, somado ao que fez o argentino Jorge Sampaoli no Santos, sacudiu o mercado.

Isso explica a “renovação” com a chegada de Jesualdo, que com 73 anos trará ao futebol brasileiro novidades que os nossos técnicos mais jovens não conseguiram mostrar nas oportunidades que tiveram. E não diria que isso acontece por culpa deles, mas sim por falta de cursos de atualização aqui no Brasil – prática adotada há pouco tempo pela CBF, mas ainda não muito acessível financeiramente para a maioria dos treinadores –, e pela impaciência com os resultados – na Série A, ano passado, foram 21 trocas no comando técnico das equipes.

Um estudo da Pluri Consultoria, divulgado no fim do ano passado, traz números interessantes. Dos 43 treinadores que dirigiram grandes clubes em 2010, apenas dez estiveram novamente entre esses clubes em 2019. E desses, Mano Menezes, Cuca, Jorginho e Felipão estão desempregados agora em 2020. Vágner Mancini foi o único a trabalhar ao longo desses dez anos nos clubes pesquisados, mas com média de apenas sete meses de trabalho em cada um – na média geral, o prazo de validade de um técnico no Brasil é de seis meses.

A temporada está começando. E será com a bola rolando que poderemos dizer se essas novidades no banco darão certo; se os “estrangeiros” trarão mesmo alguma novidade, que a nossa nova geração de técnicos não conhece; se o racismo vai perder espaço; e se no ano que vem a data poderá ser celebrada de forma mais positiva por nossos treinadores.

Edição: Marcos Alcântara

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