Coluna - Atenção às classes baixas

Período sem treinos afeta nadadores de maior comprometimento motor

Publicado em 27/04/2020 - 16:19 Por Lincoln Chaves - Repórter da TV Brasil e da Rádio Nacional - São Paulo

No artigo “Aspectos teóricos da atividade aquática para deficientes”, publicado em 2002 na revista virtual EF Deportes, Samira de Miranda Grasseli (à ocasião, acadêmica da Escola de Educação Física de Caratinga) e Alexandre Henriques de Paula (na época, mestrando em Educação Física pela Universidade Iguaçu) entendem o ato de nadar para a pessoa com deficiência como “um momento de liberdade, momento este em que consegue se movimentar livremente, sem auxílio de bengala, muletas, pernas mecânicas ou cadeiras de rodas”. Isso, segundo os autores, permite à pessoa “experimentar suas potencialidades, vivenciar suas limitações, isto é, conhecer a si próprio”.

A natação é um dos principais esportes no processo terapêutico ou de reabilitação de pessoas com deficiência. Além de qualidade de vida, propicia desempenho e a perspectiva de uma vida de atleta, de se estar constantemente em movimento, em especial aqueles cujo grau de comprometimento físico-motor é elevado. São os chamados “classes baixas”, nadadores que, no paradesporto, encontram-se nas classes 1 a 4 entre as 10 que atendem esportistas com comorbidades que não são visuais ou intelectuais, como tetraplegia, paralisia cerebral e deficiências degenerativas ou de má formação congênita.

Jogos Parapanamericanos Lima 2019
Gabriel Geraldo quebrou recorde mundial no Parapan de Lima - Saulo Cruz/EXEMPLUS/CPB/Direitos Reservados

Segundo o técnico de classes baixas da seleção brasileira de natação paralímpica Fabiano Quirino, 85% do trabalho realizado com esses atletas é feito especificamente na água, conforme a deficiência de cada um. Até por isso, o impacto da paralisação das atividades em piscinas devido à pandemia do novo coronavírus (covid-19) é grande. “Por terem mobilidade limitada, esta parada pode acarretar em perda de força muscular e causar deficiências secundárias, como atrofia muscular”, explica, lembrando que, por conta do comprometimento maior, muitos nadadores dessas classes estão no grupo de risco da doença. “Por isso, precisam de cuidado redobrado”, alerta.

Os atletas que integram a seleção que se aprontava para a Paralimpíada de Tóquio (Japão) no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, foram liberados em março e orientados pela equipe médica do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) a seguirem as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Desde o início desse isolamento, todos estão sendo acompanhados semanalmente e, se preciso, diariamente, com rotinas elaboradas pela equipe multidisciplinar”, diz o técnico. Segundo ele, as rotinas são individualizadas, mas há exercícios em comum. “Por exemplo, os de abdômen, para o core [músculos que mantêm o equilíbrio pélvico e sustentam a base da coluna vertebral]”.

O trabalho da seleção com atletas de classes baixas ganhou fôlego em 2017, primeiro ano do ciclo da Paralimpíada de Tóquio (Japão). “Desde então, foram realizados cursos de formação, campings escolares [que reuniram atletas que se destacam na Paralimpíada Escolar] e campings de treinamento específicos para classes baixas [com nadadores e técnicos]. Por meio dessas ações, vemos mais vontade e conhecimento dos profissionais para trabalhar nesse segmento. E com os espelhos que temos no alto rendimento, temos novos atletas aparecendo nos cenários regional e nacional”, declara Quirino.

12.09.2019 - Mundial de Paranatação de Londres 2019 - BRUNO BECKER - Foto: Ale Cabral/CPB
Bruno Becker pode ser inspiração para atletas mais jovens - Ale Cabral/CPB/Direitos Reservados

Espelhos como o jovem Gabriel Geraldo, de 17 anos, que nasceu com focomelia (má formação nos membros superiores e inferiores) e quebrou o recorde mundial dos 50 metros borboleta na classe S2 nos Jogos Parapan-Americanos de Lima (Peru), onde ganhou cinco medalhas, sendo dois ouros, uma prata e dois bronzes. Ou a experiente Edênia Garcia, que faz 33 anos na próxima quinta (30), campeã mundial nos 50 metros costas pela quarta vez no ano passado, em Londres (Reino Unido), desta vez na classe S3 (ela nasceu com Síndrome de Charcot-Marie-Tooth, doença progressiva que atinge os membros e, até 2016, competia como S4, ou seja, entre atletas que, com o passar do tempo, passaram a ter menor comprometimento físico-motor que a campeã).

“Pega um menino com uma deficiência parecida com a do Bruno Becker [classe S2, não tem as duas pernas e um braço devido a uma anomalia congênita], que só tem força em um membro. Para esse menino, ver um nadador com deficiência visual, por exemplo, não traz o mesmo incentivo que acompanhar um cara igual a ele nadando. Quanto maior é a visibilidade das classes baixas, mais gente aparecerá”, diz o técnico da seleção.

Ainda não há previsão de quando os nadadores que já integravam o dia a dia do CT Paralímpico retornarão às piscinas. Quirino, porém, avalia que há tempo para que mesmo os atletas de classes baixas recuperem a melhor forma pensando na Paralimpíada: “No retorno, teremos algumas semanas de readaptação visando o trabalho de predominância aeróbica para que os atletas recuperem sua capacidade cardiorrespiratória. Os trabalhos terão volume e carga programadas para cada atleta. O trabalho será feito com muita tranquilidade e, com certeza, todos estarão competitivos em Tóquio”.

Veja no programa Stadium, da TV Brasil:

Edição: Fábio Lisboa

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