Pioneiros lembram a época da construção de Brasília e falam dos desafios atuais

Publicado em 18/04/2015 - 16:52 Por Ana Cristina Campos - Repórter da Agência Brasil - Brasília

Na solenidade em que foram homenageados hoje (18) no Catetinho, primeira residência oficial do presidente Juscelino Kubitschek em Brasília, pioneiros lembraram histórias da construção da capital e falaram dos desafios que a cidade enfrenta 55 anos após a inauguração, que será comemorada terça-feira (21).
 

A viúva do pioneiro Ernesto Silva, Sônia Silva, é homenageada pelo Governador do DF em evento comemorativo ao aniversário de 55 anos de Brasília (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Atualmente,  as  pessoas  só  querem  usufruir  e  não  pensam  no  progresso  da  cidade,  cujo  patrimônio  está

se deteriorando, lamenta Sônia Silva, viúva do médico e  pioneiro Ernesto Silva Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sonia Souto e Silva, de 77 anos, viúva do pioneiro Ernesto Silva, que faleceu aos 96 anos, em 2010, destaca que ainda há muito a comemorar em relação às obras feitas pelo povo brasileiro para o surgimento de Brasília. “Ele chegou aqui em 1955. Chamam o Ernesto de “pioneiro do antes”. Ele veio escolher o sítio onde seria localizada Brasília. O Ernesto adorava essa Brasília. O papel dele foi fundamental. Ele também orientou a construção do Hospital de Base”, contou Sonia.

O médico Ernesto Silva participou da equipe de especialistas liderada pelo marechal José Pessoa para definir a área onde seria construída a nova cidade e presidiu a Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal. No dia 15 de abril de 1955, Ernesto e o marechal escolheram o local onde Brasília seria erguida, o Sítio Castanho, onde estão a Asa Sul, a Asa Norte e o Eixo Monumental.

Para a viúva, a Brasília do início era mais calma. “Hoje é muito tumulto, cresceu muito, o trânsito é uma loucura, os ex-administradores deixaram tudo caindo: a saúde, a educação. As coisas estão se deteriorando por causa das pessoas que vão subindo no poder. As pessoas só querem usufruir e não pensam no progresso da cidade. O patrimônio está sendo descaracterizado”, lamentou.

O jornalista e historiador Jarbas Silva Marques, de 72 anos, contou que sua história com a cidade começou em janeiro de 1955, aos 12 anos, quando acompanhou o pai, caminhoneiro que foi levar sal e querosene de Goiânia, onde morava, a Formosa, também em Goiás. “Demoramos sete dias de Goiânia a Formosa. Hoje você faz [o trajeto] em três horas [de carro]. Tinha uma estrada velha para Formosa onde hoje é o lago [Paranoá], Sobradinho e Planaltina. Passei por aqui antes de ser escolhido o local para Brasília.”

Jarbas voltou para a capital federal em 1964, após deixar a prisão em Goiás. Já eram os tempos da ditadura militar. “Em 1967, a ditadura me prendeu novamente. Fiquei preso dez anos.”

Ele lembra que Brasília, na época da construção, era motivo de orgulho de todos os brasileiros. “Brasília virou um polo de desenvolvimento do país. O desafio de Brasília hoje são os especuladores imobiliários que querem deformar o projeto urbanístico de Lucio Costa. Foi esse projeto urbanístico que garantiu que Brasília fosse a primeira cidade moderna listada como Patrimônio Cultural da Humanidade.”

O pioneiro de Brasília, Leonardo Barreiro, é homenageado pelo Governador do DF em evento comemorativo ao aniversário de 55 anos da Capital Federal (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O pioneiro Leonardo Barreiro recebe flores do governador Rodrigo Rollemberg    Marcelo Camargo/Agência Brasil

O aposentado Leonardo Barreiro Lemos, de 76 anos, conta que chegou ao Planalto Central em 1959, vindo da Paraíba, quando tinha 20 anos. Ele foi um dos 60 mil candangos (trabalhadores) que vieram participar do surgimento da nova cidade. “Ouvi falar que era bom. Vinha muita gente para cá. Decidi me arriscar.  Vim em um caminhão com 50 pessoas. Vim para cá e me dei bem.”

Assim que chegou, Lemos trabalhou dez meses em um escritório improvisado com tapumes de madeira dentro do Congresso Nacional. “Eu tinha conhecidos que trabalhavam em uma empresa de construção e falaram que eu ia ganhar muito mais lá. Fiquei 26 anos na empresa onde me aposentei. Fui de apontador a gerente da firma.”  Segundo ele, nos primeiros tempos, Brasília era só construção, só tinha poeira e barro. "Depois começou a melhorar. Problemas, sempre tem. Tenho mais a comemorar do que a reclamar.”

Edição: Nádia Franco

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