Pesquisadores debatem os 10 anos de criação do Brics

Publicado em 10/10/2018 - 22:01 Por Cristina Indio do Brasil - Repórter da Agência Brasil - Rio de Janeiro

O Brics, bloco com participação do Brasil, da Rússia, da Índia, da China e da África do Sul, completa 10 anos com avanços, mas muitos desafios diante das mudanças econômicas, sociais, políticas e culturais do mundo. Para analisar o desempenho e o futuro do grupo, a organização internacional de combate à pobreza ActionAid realiza, com apoio do BRICS Policy Center e da Fundação Mott, o debate Os Brics e o Papel da China no Desafiante Contexto Geopolítico Global. O evento reúne especialistas em um encontro de dois dias que termina amanhã (11), em Botafogo, zona sul do Rio.

O analista de Políticas da ActionAid no Brasil, Gerardo Cerdas Vega, afirmou que o bloco é heterogêneo, mas com função importante na estrutura de governança global. Para ele, em um contexto muito complexo, o Brasil deveria ter um papel mais proativo no cenário internacional, onde há disputas de grandes potências entre si pela hegemonia.

“O Brasil, pelas suas características de extensão geográfica, o tamanho populacional, o tamanho da sua economia e a sua diversidade social, não é um país menor no mundo. Só que estamos vendo o Brasil desperdiçar a oportunidade de participar no bloco que poderia lhe dar um lugar diferenciado nesse sistema de governança global”, disse à Agência Brasil, após o primeiro dia de debate.

“Não dá para não olhar com alguma ironia que o Brasil sendo uma potência do tamanho que é, reduza toda a sua agenda em um bloco como o dos Brics, a negociar cota de frango. Nem o menor país do mundo vai para estes espaços multilaterais para negociar interesses puramente comerciais. Minimamente, os países vão para tentar construir uma agenda bilateral, uma parceria para cooperação em direitos humanos ou com relação ao clima”.

Investimentos

Na visão do professor Sérgio Veloso, do Centro de Estudos e Pesquisas BRICS Policy Center, administrado pelo Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio (IRI/PUC-Rio) em colaboração com o Instituto Pereira Passos (IPP), os países do bloco foram bem-sucedidos no sentido de manter um ritmo de reuniões, mas, atualmente, a China é o destaque do grupo e, por isso, não tem como o Brasil deixar de considerar os investimentos daquele país.

“Barrar investimentos chinês é simplesmente impossível, porque é onde o dinheiro está no mundo hoje. Não está nos Estados Unidos, não está na Europa. Se tem um Estado capaz de investir, de oferecer cooperação, novas práticas e dinheiro para o desenvolvimento, é a China”, explicou.

Veloso revelou que participou de um encontro realizado pela prefeitura do Rio em que foi comentado o aumento do interesse dos chineses na cidade. No último ano, o número de missões daquele país em viagem ao Rio com algum tipo de encontro com a administração municipal quase que quintuplicou. “Bater de frente com o investimento chinês é uma estupidez”.

O professor disse ainda não acreditar que o novo governo do Brasil vá esvaziar a participação do país no grupo. “A China não vai deixar este processo esvaziar”, afirmou, e completou que, dependendo do ritmo de privatizações que ocorrer no Brasil, o capital chinês pode se espalhar mais com a compra de empresas.

África do Sul

Para a pesquisadora sul-africana da ActionAid África do Sul, Lindelwe Nxumal, apesar das resistências, houve avanços na agenda do Brics no seu país, especialmente, em territórios em que se falava muito em patriarcado e na questão de distribuição de terras. Segundo ela, este tema é debatido entre homens, tanto no setor empresarial, como no governo e, no entanto, muito pouco de como afeta às mulheres. “Muitos represantes da agricultura de subsistência são mulheres negras pobres e como esse debate está muito concentrado na mão dos homens. Essas questões de terra evoluem para as mulheres e para pessoas com deficiências e LGBT. É impressionante como isso influencia no processo. É muito interessante o que temos visto”, disse.

Lindelwe Nxumal acrescentou que, mesmo com os avanços já conquistados, há muito a fazer, e os diálogos feitos no Brics devem ser vistos como oportunidades de espaços. “Aprender com as alianças e escolhas que queremos fazer com governos e organizações. São questões muito desafiadoras para confrontar os Brics em espaços de trabalho da sociedade civil. Nós queremos um suporte maior”, disse a pesquisadora.

Índia

O pesquisador indiano da ActionAid Índia, Sandeep Chachra, destacou que, no seu país, há dois tipos de luta. Uma pela autonomia e outra pela ecologia. “As duas lutas não estão dissociadas”. Já no grupo, de acordo com o indiano, as lutas passam por questões populares de legitimidade e por reformas. “São a natureza dos Brics”.

Sandeep Chachra apontou ainda o uso da religião em países do grupo que se confunde com as discussões de fascismo. Segundo ele, por vezes os debates levam à politização da religião. “Fico surpreso quando converso com pessoas, ao saber da grande importância de setores da Igreja Católica e de evangélicos na política do Brasil, o mesmo acontece nos Estados Unidos e em grande parte da África. É uma coisa que dá conforto para as pessoas. Como a gente vai levar adiante esta questão da religião?”, apontou.

Edição: Davi Oliveira

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