Xavantes lutam para recuperar terra após saída de não-índios

Publicado em 28/01/2015 - 18:00 Por Maíra Heinen - Brasília

Há dois anos, no dia 28 de janeiro de 2013, a entrega pela Justiça do auto de desocupação marcava o fim da desintrusão da área. Grandes produtores, pequenos agricultores e comerciantes foram definitivamente retirados da terra indígena Xavante. Antes disso, eles entraram com várias ações e questionamentos judiciais para tentar adiar a saída da área.


Agora, dois anos depois da desocupação definitiva, o cacique Paritzané, mais conhecido como Damião Xavante, conta que os índios estão bem e tranquilos, mas encontraram a terra ancestral de 165 mil hectares muito degradada.


"Deixamos a mata fechada. Quando nós voltamos, aí nós encontramos só pastagens, destruição da natureza, tudo acabado. Não tem caça, só pasto. Hoje estamos cuidando pra preservar."


Seis meses depois da desintrusão, a terra indígena foi invadida duas vezes e novos mandados de desocupação foram expedidos pela Justiça Federal. Em janeiro de 2014, exatamente um ano após a retirada dos não índios, ocorreu uma nova invasão.


O secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário, Cléber Buzatto, ressalta a estratégia xavante de construir mais aldeias, como forma de proteger o território. Hoje, a área conta com cerca de mil xavantes.

 

"Atualmente os xavante tentam se organizar pra ocupar o total dessa área. A gente sabe que há iniciativas na perspectiva de formar novas aldeias, embora evidentemente, o povo tá vendo as condições mais adequadas porque ainda existem riscos de ocupação do território, algumas ameaças, enfim..."

 

De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), há um plano encaminhado pela associação indígena para a construção de uma nova aldeia com os recursos advindos da venda de um armazém existente na área.


Já os antigos ocupantes que se enquadravam como beneficiários da reforma agrária foram, em parte, atendidos pelo Incra. Cerca de 97 famílias estão no Projeto de Assentamento (PA) Casulo Vida Nova, numa área semiurbana, no município mato-grossense Alto Boa Vista.

 

Quem seguiu para a área, reclama da total falta de estrutura para moradia e desenvolvimento econômico. É o caso de Maria Brasilina Martins de Sousa.


"Essas pessoas hoje é muito triste ver a situação que elas estão vivendo. Sem água, sem luz, o caminhão vai por água uma vez por semana. Não dá pra sobreviver, não dá pra produzir porque a terra é fraca. É varjão e o que não é varjão é um cerradinho bem fraquinho, e o tamanho também: é pouco maior que um lote."


Sobre a situação do PA Vida Nova, o superintendente do Incra em Mato Grosso, Salvador Soltério, explica que a falta de moradias já não depende mais do Incra, pois agora as famílias se encaixam no projeto Minha Casa Minha Vida Rural.

 

O Incra conseguiu liberar recursos pra crédito inicial né, em torno de 3 mil e pouco por família. Trabalhamos a questão do ruamento e loteamento, liberamos recursos para encascalhamento das ruas, e o Incra encaminhou todo o processo para a construção das moradias, que se encontra hoje no Banco do Brasil. Além disso o Incra abriu edital na região pra gente adquirir áreas para recepcionar mais cento e poucas famílias.

 

Na área xavante, o cacique Damião explica que a esperança está nos mais jovens, para que trabalhem e valorizem a terra, pois, segundo ele, não é justo ter a terra e sair para morar na cidade. Ele fala do futuro.

 

"Queremos produzir! Por isso hoje o povo da aldeia maraiwatsede está trabalhando. E nós vamos plantar mais! É isso que quero. Esse é o futuro do cacique!"

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