O dia começa cedo na Fazenda Mariana Nunes. O sol ainda nem nasceu, mas a Cristiane já está na lida. Sozinha. "Já tem uns dois anos que a gente está com uma rotatividade muito grande de mão de obra. Então eu tive que diminuir os animais para diminuir o serviço. Então eu tenho, eu faço pouco queijo hoje para poder dar conta de manter qualidade", diz.

Qualidade e reconhecimento foi o que levou a nossa equipe até o município de Santo Antônio do Itambé, a 250 quilômetros de Belo Horizonte, onde fomos em busca do Queijo Maria Nunes. Um queijo que vale ouro e é produzido pela família da Cristiane há cinco gerações. "Há 300 anos que a gente produz queijo aqui, mas é uma, é uma tradição que foi muito movimentada por essas mãos e contada por mãos masculinas", aponta.
Para a Cris, esse é o maior desafio: garantir reconhecimento ao trabalho das mulheres que estão à frente da produção de queijo. "Eu conheço várias mulheres dessa região e de outras que fazem o queijo, mas o queijo leva o nome do homem, do marido, do pai, porque elas não se sentem pertencentes. Então, trabalhar muito esse pertencimento na vida dessas mulheres é uma das minhas bandeiras aqui dentro do projeto do Queijo Maria Nunes", fala.
Maria Nunes é uma homenagem à ex-dona da fazenda. O nome mostra o respeito aos modos de fazer o queijo minas artesanal, mas Cristiane quer ir além. Ela quer deixar a própria marca, por isso foi buscar capacitação para aprender técnicas mais modernas e agregar valor à tradição. O resultado é a elaboração de um queijo semelhante ao famoso Camembert francês.
A recompensa chega em forma de prêmios, certificações, indicação geográfica e o reconhecimento máximo: o modo de fazer o queijo minas artesanal entrou para a lista da Unesco de Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade. Tudo graças ao trabalho duro e às boas práticas adotadas pelos produtores, como ressalta Zé Aparecido, coordenador técnico da Emater, órgão estadual que ajuda os pequenos produtores nas orientações sanitárias.
"No queijo do Serro, a gente tem um trabalho muito com assistência muito continuada a esses produtores, que envolve desde a, da orientação técnica nas fazendas até mesmo ali em questão de capacitação continuada voltada às boas práticas agropecuárias e de fabricação do produto", conta.
Apesar dos inúmeros desafios para garantir a qualidade do queijo, Cris continua honrando a tradição centenária e se comprometendo todos os dias com o ofício da queijaria. Um legado que ela quer deixar à filha Jade e a outras mulheres da região do Serro.
"Sou a quinta geração, a primeira mulher que toma a frente na tradição da família e estou passando o bastão para a sexta geração, que é minha filha, e para a minha netinha. Então a gente aqui faz história, porque é a primeira vez que uma mulher vai passar o bastão para outra mulher, e lá vem outra mulher para receber também", conta.