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© Arte EBC
Podcast

Golpe de 1964: Podcast revela capital que financiou ditadura militar

Na estreia da segunda temporada, Passado Leiloado, do podcast Perdas e Danos, o episódio "Relógio Suíço" mergulha em arquivos diplomáticos e financeiros para buscar o caminho do dinheiro e os financiamentos internacionais que sustentaram o regime militar.

Há 62 anos o Brasil enfrentou um golpe militar que depôs o então presidente João Goulart e mudou os rumos do país. Agora este trabalho mostra quem se beneficiou financeiramente com a ditadura militar, que, além de retirar direitos civis, censurar, torturar e perseguir, também gerou lucros e endividou o país.

Por meio das pesquisas da cientista política Gabriella Lima e da historiadora Gaelle Schlier  e de análises do jurista Marcelo Torelly, o episódio detalha como, nos anos 70, a Suíça consolidou-se como o terceiro maior investidor no Brasil, com um investimento per capita oito vezes superior ao da Alemanha.

 A investigação desmistifica a imagem de "país neutro" da Suíça, revelando sua posição como um dos pilares econômicos do regime de exceção no Brasil.

Documentos e entrevistas da época, como a do empresário Anton Von Salis, revelam que as multinacionais suíças buscavam a chamada "paz social" — um eufemismo para a criminalização de sindicatos, arrocho salarial e a garantia de que não haveria greves. "O Estado brasileiro se endivida para alavancar o setor privado, e quem paga a conta depois é a sociedade", explica Torelly no episódio.

Nós entramos em contato com o governo suíço por meio da embaixada no Brasil para entender como o país vê, hoje, o que aconteceu no passado.

Por escrito, a Suíça respondeu que “uma resposta detalhada exigiria análises que não são possíveis no âmbito da administração federal suíça, pois demandam pesquisas históricas aprofundadas”. Mas disse que “saúda” a realização de estudos independentes e que esse tipo de trabalho contribui para compreender o passado e promover o debate.

Confira:

O podcast relembra os sequestros de embaixadores e conta como o sequestro do chanceler suíço Giovanni Bucher, em 1970, foi, para além de uma ação política, um movimento estratégico que expôs a colaboração internacional ao regime ditatorial.

A troca de Bucher pela liberdade de 70 presos políticos — entre eles o estudante Jean Marc Von der Weid — tornou-se um divisor de águas. Ao chegar ao Chile e, posteriormente, à Europa, Jean Marc usou sua dupla nacionalidade e seu "passaporte da liberdade" para furar o bloqueio de informações da ditadura, denunciando em redes de TV internacionais os métodos de tortura utilizados nos centros de repressão no Brasil.

Com áudios originais de rádio, trilhas de época e depoimentos históricos, Perdas e Danos propõe uma revisão da história brasileira. O episódio não foca naqueles que assinavam os cheques e financiavam o aparato de repressão e as grandes obras de infraestrutura, como a Ponte Rio-Niterói e a Hidrelétrica de Itaipu, sob condições que amarravam o crédito à importação de insumos suíços.

Ao "seguir o dinheiro", o podcast revela que o Milagre Econômico não foi apenas um fenômeno interno, mas um projeto de lucro internacional que prosperou com a violação de direitos humanos.

Continue conosco e acompanhe esta segunda temporada. Com cinco episódios que investigam uma faceta do regime militar que muitas vezes fica à sombra da violência política: o lucro.

Perdas e Danos - 2ª Temporada

Episódio 1 - Relógio Suíço

*Este episódio contém descrições de torturas e outras violações, e pode gerar gatilhos ou ser considerado perturbador.

Efeito sonoro 🎶

Eliane Gonçalves – 7 de setembro de 1969. Plena ditadura militar no Brasil.

Desfile de 7 de Setembro de 1969 – Bandeiras históricas abrem o desfile de Sete de Setembro na Guanabara, assinalando a imponderável presença da pátria, seu passado heróico e seu avanço para um futuro cada vez mais brilhante.

Sumaia Villela – Só que nesse dia, o assunto que ocupava os noticiários era outro…

Transmissão da Rádio Nacional sobre o Sequestro do Embaixador dos EUA – Senhoras e senhores, faltam exatamente 15 minutos para as sete horas… para as oito horas da noite.

Eliane – Esse é o Volnei Silva, repórter da Rádio Nacional.

Sequestro do Embaixador dos EUA – E aqui, de um táxi, cuja placa é 5, 11, 43, chapa do Rio de Janeiro, desembarca o senhor Embaixador dos Estados Unidos, o senhor Burke Elbrick.

Efeito sonoro 🎶

Sumaia – Burke Elbrick. O embaixador da superpotência.

Sequestro do Embaixador dos EUA – I'm glad to be back. I'm glad that the kidnappers lived up to their word and let me go... and I'm very grateful to the Brazilian government for taking the action necessary to bring about my liberation. [Baixar e sobrepor Voice Over]

Eliane – Um embaixador satisfeito por voltar para casa três dias depois de ter sido capturado pela guerrilha.

Sumaia – Esse foi o fim do mais famoso sequestro feito pelos opositores da ditadura. Virou até clássico do cinema nacional.

Trecho do filme: O Que É Isso, Companheiro? - "Se a gente conseguir botar a mão no embaixador dos Estados Unidos, o muro de silício vai abaixo na hora." / "Abre essa porta, porra! Baixa a cabeça, olha para baixo!"

Eliane – Até aquela noite, o diplomata vinha sendo mantido refém de militantes da ALN, a Ação Libertadora Nacional, e do MR-8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro. Ele foi solto em troca da liberdade de 15 presos políticos e da divulgação de um manifesto contra o regime militar nas rádios e TVs.

Efeito sonoro 🎶

Sonora Manifesto – Este ato não é um episódio isolado. Ele se soma aos inúmeros atos revolucionários já levados a cabo... [Baixar volume até sumir]

Sumaia – Episódio isolado não foi mesmo. A captura de diplomatas foi estratégia dos movimentos de esquerda no Brasil e na América Latina, em países muitas vezes mergulhados em ditaduras, como aqui. Sem liberdade de partido, de expressão, de manifestação e de imprensa. E com prisão, tortura, desaparecimentos…

Eliane – Aqui no Brasil, depois do embaixador dos Estados Unidos, outros três diplomatas foram sequestrados. O cônsul do Japão em São Paulo… o embaixador da Alemanha…

Sonora Sequestro do Embaixador da Alemanha – o senhor embaixador Ehrenfried von Holleben voltou hoje são e salvo à sua residência.

Eliane – ... E o embaixador da Suíça…

Sonora Sequestro do Embaixador da Suíça 70-71 – O embaixador da Suíça, Sr. Giovanni Enrico Bucher, foi vítima de um sequestro hoje de manhã às 8h45...

Sumaia – Sabe o que os quatro diplomatas capturados pela guerrilha tinham em comum? Representavam os maiores parceiros comerciais do Brasil.

Vinheta do podcast 🎶

Eliane – A ditadura militar, além de ter sido um período de tantas violações de direitos humanos e políticos, ela foi, para muitos, uma oportunidade de negócio.

Sumaia – Dentro e fora do Brasil, a ditadura gerou lucro. E teve apoio para se sustentar por duas décadas. Teve bastante crédito na praça internacional. E deixou marcas que duram até hoje. Oi, eu sou Sumaia Villela

Eliane – E eu sou Eliane Gonçalves. E estamos de volta na segunda temporada do Perdas e Danos, podcast que destrincha a disputa pelo Brasil que seria construído antes do golpe de 1964 e o que ficou no lugar.

Sumaia - Na primeira temporada, a gente contou quais políticas estavam ganhando espaço e que demandas sociais pipocavam nas ruas até que o golpe passou por cima de tudo e instalou a ditadura. Agora é a vez de seguir o dinheiro. O bolo que a ditadura fez crescer encheu a barriga de quem?

Eliane – Foi buscando resposta pra essa pergunta que a gente se deparou com um tipo de engrenagem que a gente não sabia que existia. Quer dizer, a gente até tinha ideia, mas não sabia exatamente como ela era. Sabe um relógio? A gente vê os ponteiros girando, mas o que a gente não vê são as engrenagens que fazem tudo acontecer.

 

Efeito sonoro 🎶

Eliane – De repente a gente percebeu que estava olhando um relógio por trás, pelo avesso dele. Mas não um relógio qualquer. Um Relógio Suíço.

Vinheta do podcast 🎶

Sumaia – Segunda temporada : Passado Leiloado.

Vamos repetir a lista dos países dos diplomatas capturados pelos movimentos de oposição à ditadura. A lista dos maiores parceiros comerciais do Brasil, pra gente não se perder: Estados Unidos, Japão, Alemanha e… Suíça…

Sobe som 🎶

Eliane – Se você tá se perguntando o que a Suíça, aquele país cercado de Europa por todos os lados, menor que o Espírito Santo e famoso por sua neutralidade, você não está sozinho. Também ficamos surpresas quando a gente descobriu isso.

Gabriella Lima - Na verdade, as relações econômicas da Suíça com o Brasil começam em 1820 com as relações mesmo de importação de matéria-prima.

Eliane - Essa é Gabriella Lima.

Gabriela – Eu me chamo Gabriela, nasci em Natal, cresci em Natal, vim pra cá.

Eliane – ...E pra cá é pra Suíça.

Gabriela – E cresci aqui desde os meus 12 anos, eu me formei aqui em Ciência Política e História na mesma universidade. E fiz esse trabalho de dissertação sobre as relações econômicas…

Sumaia – Abrasileirando, Universidade de Lausanne. Em suas pesquisas, Gabriella vasculhou o arquivo diplomático suíço, dos Bancos Centrais da Suíça e do Brasil, da Câmara Suíço-Brasileira de Comércio, do IBGE… e foi devorando arquivos que ela jogou luz sobre dados de um país em que ser discreto é estratégia. De modo que nos anos de 1970, já em plena ditadura…

Gabriela – …A Suíça já era o segundo maior investidor do Brasil, e daí a Alemanha ultrapassou e ficou essa guerra, esse vai e vem, entre o segundo e o terceiro até o capital japonês entrar no Brasil, que virou o maior concorrente do capital suíço.

Eliane – Em 1973, o investimento suíço no Brasil, o chamado IED, Investimento Estrangeiro Direto, foi de mais de 1 bilhão de francos suíços. Quase três vezes o PIB brasileiro na época. Em 1977, quatro anos depois, já era mais do que o dobro disso: 2 bilhões e 300 milhões de francos suíços.

Vinheta do podcast 🎶

Gabriela – Se a gente dividir pelo número da população e saber, por pessoa, quanto é o investimento, a Suíça não é só o primeiro, mas o investimento suíço é maior do que os nove outros maiores investidores, tudo somado.

Sumaia – De novo, os números: nos anos 70, a Suíça tinha cerca de 7 milhões de habitantes. Dividindo o total de investimento do país em solo brasileiro pelo total da população de lá, dá uma média de 190 (187,8) dólares por pessoa. Oito vezes mais que o volume de investimento per capita da Alemanha.

Eliane – Esses dados estão no livro da Gabriella, Don’t Miss The Bus. Numa tradução livre, algo como Não Perca o Bonde. Apesar do título em inglês, o livro foi publicado em francês e, infelizmente, ainda não foi traduzido pro português.

Gabriela – E nos anos 70 as exportações da Suíça para o Brasil, 10 anos depois do golpe, elas vão aumentar de quase 300%. Então, é uma coisa muito, assim, é demais, é excessivo. O Brasil, entre 70 e 73, já era o décimo melhor comprador de relógios da Suíça e o primeiro vendedor de café.

Sumaia – “Don’t Miss The Bus”, “não perca o bonde”, "não deixe o cavalo arreado passar”. Mantras de um mundo corporativo sedento de oportunidades.

Vinheta do podcast 🎶

Gabriela – A Suíça aproveitou, as empresas suíças se aproveitaram de tudo que a ditadura tinha que oferecer. As multinacionais suíças chegam e, para favorecer esse processo, tinha muitas políticas, por exemplo, fiscais, quer dizer, não pagam impostos às empresas que vêm durante os dez primeiros anos. Não pagam impostos sobre a remessa de lucros. E tem a questão da mão de obra. O clima de, vamos dizer, paz social, que a gente fala, que é gelo de salário, um movimento operário fraco, criminalização do movimento social, da oposição, da esquerda, dos sindicatos, do movimento estudantil, tudo isso, que era muito importante para os suíços, porque dava uma confiança no parceiro brasileiro.

Vinheta do podcast 🎶

Jean-Pierre Goretta (Temps présent): Quel est le salaire minimum ici au Brésil ?

Eliane – Esse é Jean-Pierre Goretta, repórter da RTS, empresa de rádio e TV pública da Suíça.

Empresário suíço Anton Von Salis: Ça varie entre les différents endroits. Ici à Rio, c 'est 189 cruzeiros par mois. [Isso varia entre os diferentes lugares. Aqui no Rio, são 189 cruzeiros por mês.]

Eliane – E ele tá entrevistando Anton Von Salis, diretor, no escritório do Rio de Janeiro, de uma multinacional suíça do setor químico e também presidente da Câmara de Comércio da Suíça no Brasil. Essa entrevista foi em dezembro de 1970, e a primeira pergunta do repórter foi:

Entrevista com empresário suíço Anton Von Salis

Jean-Pierre Goretta (Temps présent): Quel est le salaire minimum ici au Brésil ? [Qual é o salário mínimo aqui no Brasil?]

Empresário suíço Anton Von Salis: Ça varie entre les différents endroits. Ici à Rio, c 'est 189 cruzeiros par mois. [Isso varia entre os diferentes lugares. Aqui no Rio, são 189 cruzeiros por mês.]

Jean-Pierre Goretta: Seulement avec 170 francs sur, il n 'est pas possible de vivre au Brésil, non ? [Só com 170 francos, não é possível viver no Brasil, né?]

Von Salis: C 'est relatif. Parce que les besoins sont totalement différents. Vous n 'avez pas le frio. [É relativo. Porque as necessidades são totalmente diferentes. Você não tem o frio.] (...)

Von Salis: Et eux ils ont des maisons. Ça peut être des maisons relativement primitives qui suffisent pour la nature du pays. Mais certainement je suis d 'accord avec vous que c 'est assez bas. [E eles têm casas. Podem ser casas relativamente primitivas suficientes para a natureza do país. Mas certamente concordo com você que é bastante baixo.]

Sumaia – Salários baixos porque a natureza do país permite casas primitivas. Na entrevista, Von Salis não explica o que ele quer dizer com isso. Mas não dá pra esquecer que o tal milagre econômico da ditadura coincide com o crescimento da maior parte das favelas do país.

Eliane – Gabriella fez um cálculo que mostra como era vantajoso pras empresas suíças se estabelecerem no Brasil naquela época.

Gabriela – Eu tentei fazer uma estimação de quanto as 14 maiores multinacionais suíças no Brasil, em 1971, conseguiram faturar com a mão de obra da classe operária brasileira. Comparei a evolução do salário que eles ganhavam ao salário que eles pagavam para os operários suíços, que era, no caso, quase o dobro. Então, eu cheguei a 80 milhões de francos só em 1971, para 14 empresas.

Sumaia – Pra não deixar dúvida. Em média, aqui no país, os operários dessas empresas ganhavam por hora pouco mais da metade dos suíços. 57%, pra ser mais exata.

Eliane – Comparando com operários sem qualificação, a diferença era ainda maior. Um suíço ganhava cinco vezes mais que um brasileiro. E esse tipo de trabalhador sem mão de obra qualificada era quase 30% do total nas subsidiárias suíças aqui no Brasil.

Sumaia – Como diria o empresário Von Salis...

Von Salis - Parce que dès la révolution nous n 'avons plus de grève. C 'est pas la production qui marche. Et le país peut se développer. [Porque desde a revolução não temos mais greve. A produção está caminhando e o país pode se desenvolver.]

Eliane – Sem greve não porque não precisava, né. Porque não podia. Salários baixos, sem direitos, sem ter como reivindicar.

Jean-Pierre Goretta (Temps présent): Enfin, en résumé, vous-même en tant que Suisse, vous vous trouvez bien dans cette société brésilienne, Ce régime politique ? [Finalmente, em resumo, você, como suíço, se sente confortável nesta sociedade brasileira? Neste regime político?]

Von Salis: Certainement. C 'est justement la liberté à la grandeur et la liberté qu 'on en a ici. [Certamente. É justamente a liberdade para a grandeza e a liberdade que temos aqui.]

Efeito sonoro 🎶

Sumaia – Liberdade pro lucro num cenário em que prisões arbitrárias, torturas, eram tratadas como um detalhe.

Jean-Pierre Goretta: Il y a tout de même des gens en prison, il y a tout de mesmo de la torture au Brésil, non? [Ainda tem gente presa, ainda tem tortura no Brasil, né?]

Von Salis: Il paraît, oui. Mais ça vous avez dans tous les pays. Dans des cas pareils. [Parece que sim. Mas isso você tem em todos os países. Nesses casos].

[Efeito sonoro apertando o stop de um gravador de fita K7]

Eliane – Quem também tava em cena eram outros personagens suíços, só que esses bem mais famosos. Os bancos. Figuras centrais no sistema de ganha-ganha dos financiamentos e grandes projetos de infraestrutura.

Gabriela – As empresas suíças e os bancos estavam muito focados nos megaprojetos da ditadura. Então, eles participaram no financiamento das centrais elétricas e hidrelétricas, em particular a Central de Itaipu, e todas as outras que vieram antes. A construção da BR Transamazônica, também eles participaram, da ponte que vai do Rio a Niterói. Então, tudo isso foram projetos que eram financiados pela Suíça.

Sumaia – Ganhavam, portanto, com os juros. Mas tem lucro na outra ponta do negócio.

Gabriela – Tem um esquema que faz com que as empresas e os bancos suíços, eles avançavam mão na mão, de mãos dadas, que chamam os créditos ligados, que os bancos suíços, eles davam os créditos para a ditadura, para as empresas fazerem as ruas, as pontes, as centrais elétricas, mas a condição do crédito era que, com esse dinheiro, eles tinham que importar o material das empresas suíças. Ou seja, o cimento que a gente vai usar para construir vai ter que ser um cimento importado de uma empresa suíça. As máquinas para construir o metrô de São Paulo, por exemplo, ok, vamos emprestar o dinheiro, mas com o dinheiro vocês vão ter que importar as máquinas suíças. Então, com isso, era um movimento de avanço do capital financeiro e do capital industrial.

Eliane – Bom, com crédito na praça, a ditadura conseguiu aplicar seu projeto de modernização e ficou bem na fita. Imagem positiva, milagre econômico.

Efeito sonoro 🎶Todos juntos vamos torcer, vamos lutar para o Brasil crescer. Nossos braços vamos unir vamos unir para o país progredir.

Sumaia – Tem uma expressão usada por pesquisadores que tentaram entender como funcionou essa cooperação econômica dos países ricos com as ditaduras na América Latina: barganha autoritária. Um desses especialistas é Marcelo Torelly.

Marcelo Torelly - Quando você vê que atores relevantes decidem apoiar um regime autoritário porque tem um benefício econômico decorrente. E aí, a gente trabalhou isso em várias camadas.... [Pausa para o loc]

Efeito sonoro 🎶

Eliane – O Marcelo já tinha lidado com esse tema 10 anos atrás. A pesquisa do Marcelo é fruto do trabalho dele na Comissão de Anistia. Essa história vai voltar com mais detalhes nos próximos episódios. Por enquanto, a gente traz ele aqui pra explicar como funciona essa troca.

Efeito sonoro 🎶

Marcelo – A gente começou estudando como o gradual endividamento do Estado brasileiro com financiadores internacionais serviu para enriquecer o setor industrial. Então, a gente vê aí que especialmente, final dos anos 60 e início dos anos 70, os anos do milagre econômico, o Estado brasileiro se endivida para alavancar o setor privado. O setor privado, especialmente a indústria e o setor de finanças, se desenvolve. E você vê que esse financiamento externo, ele financiou tanto a política industrial quanto a política de repressão. Existe uma crise decorrente do hiper endividamento do Estado, mas nessa hora o Estado brasileiro assume a dívida e o setor privado o desenvolvimento, fica com os lucros. E quem pagou essa dívida a partir dos anos 80 foi o coletivo da sociedade, porque essa era uma dívida soberana do Estado brasileiro.

Sumaia – Lembram do bordão da ditadura? Fazer crescer o bolo para depois dividir...

Marcelo – Mas no Brasil nunca houve a divisão. Então você vê que realmente, no final dos anos 60 e 70, você cria o parque industrial, mas esse parque industrial concentra a riqueza, o Brasil passa a ser um país com a renda cada vez mais concentrada e isso nunca se desconcentra depois. Então isso serviu para enriquecer uma elite.

Eliane – Bom, voltando ao milagre econômico e a imagem do Brasil lá fora…

Efeito sonoro 🎶

Sumaia – Pra vender uma ideia positiva do Brasil em plena ditadura, montaram uma vitrine enfeitada com futebol e arte.

Efeito sonoro 🎶

Gabriela – Porque o movimento de solidariedade internacional aqui na Suíça foi muito forte nesses anos, contra a ditadura de Pinochet, no Chile, e tal. E eles estavam muito veiculados com solidariedade com o Brasil. E a comunidade empresarial que tem interesses no Brasil, aqui na Suíça, eles organizavam jornadas culturais de futebol, de música, de arte, de tudo brasileiro, jornadas econômicas, jornadas políticas, para divulgar uma imagem positiva do Brasil, para ganhar opinião pública na Suíça sobre a ditadura. Então, eles convidavam pessoas como Roberto Campos, que veio várias vezes aqui para dar palestras nos bancos de universidades…

Sumaia – Roberto Campos, ex-ministro do planejamento da ditadura. A gente falou dele na primeira temporada, ouve lá depois.

Eliane – O Dias Suíços-brasileiros foi um desses eventos que a Gabriella falou. Quem encerrou o evento foi o presidente da Câmara Brasil Suíça. O nome dele era François Lugeon e o discurso de encerramento tá transcrito em um boletim desses empresários. Esse discurso deixa claro qual era o empenho do empresariado suíço na defesa do regime militar.

Efeito sonoro 🎶

Trecho discurso François Lugeon: O Brasil venceu pela firmeza, pela lealdade do seu atual governo, pela confiança mundial. A propaganda venenosa que tem sido praticada contra ele é lamentável, infundada e maliciosa. Cabe a nós, verdadeiros amigos do Brasil, saber como refutar tais ataques. Sempre haverá manifestantes, mas para nós, queremos afirmar a nossa fé e a nossa confiança neste grande país, nos amigos que lá temos, nos negócios que temos lá desenvolvido.

Sumaia – Mas você percebeu quando a Gabriella falou de movimentos de solidariedade que começavam a atraphar os planos de quem lucrava com os regimes autoritários?

Gabriela – Porque eles viam que esses movimentos de solidariedade estavam colocando em perigo os interesses deles no Brasil, porque eles iam pedir, a um certo momento, como fizeram na África do Sul, um boicote.

Eliane – Pois é. A vitrine positiva que tentavam construir do Brasil começa a trincar com a ajuda de um personagem que entra na história junto com o embaixador da Suíça. Na verdade, um ano antes, em setembro de 69.

Efeito sonoro 🎶

Sumaia – E esse personagem entra na história não com um sequestro, mas com uma prisão que vem depois de um AVC.

Efeito sonoro 🎶

Estudante – Tinha uma situação que era nova e que eu fiquei sabendo dela, muito antes, quer dizer, de ser publicada, de se começar a circular, que foi o piripaque, o AVC que o presidente Costa e Silva teve. O general Costa Silva teve um AVC e os milicos esconderam esse fato durante alguns dias.

Eliane – Quem descobriu o segredo que determinaria não só a continuidade, mas o endurecimento da ditadura era um estudante universitário, de química, do Rio de Janeiro. Naquela altura, presidente da UNE, perseguido pela ditadura, que vivia se escondendo da repressão.

Estudante – E eu fiquei sabendo no primeiro dia, por uma coincidência: um primo da minha mãe que era considerado o melhor neurocirurgião do Rio de Janeiro, o Niemeyer. E ele morava em Botafogo, eu volta e meia me escondia na casa dele.

Sumaia – Um Niemeyer que tava sendo procurado para atender o ditador Artur da Costa e Silva. O segredo foi compartilhado com um Niemeyer. Não o comunista Oscar, o arquiteto. Foi com o irmão dele, Paulo, o neurocirurgião famoso.

Eliane – E calhou do presidente da UNE tá escondido no apartamento do Paulo bem na hora em que foram buscar o médico pra atender o ditador.

Estudante – Um carro com oficiais que vieram procurá-lo, e gerou um pânico na casa, porque o pessoal achou que eles estavam ali para me prender. E na verdade, eles estavam ali para levar o Paulo, eu cheguei e disse: "Ué, o que que o Paulo fez para ser preso?" Aí a mulher dele chegou assim: "Não, eu tenho impressão que alguém tá passando mal". E eles levaram ele como um médico, não como um preso. Aí quando ele voltou, disse: Costa Silva teve um piripaque, não vai voltar, entende? E os caras estão discutindo uma junta militar. Eles não vão deixar o vice-presidente, que era um civil, que era o Pedro Aleixo, assumir”.

Sumaia – Essa era uma informação valiosa, já que podia antecipar a sucessão de Costa e Silva. O que acabou acontecendo mesmo.

Agência Nacional em cadeia de rádio: A história de 69 em música e informação: O presidente Artur da Costa e Silva sofreu uma crise circulatória, com manifestação neurológica que lhe impõe repouso absoluto.

Efeito sonoro 🎶

Estudante – E eu com essa informação na mão, eu lembro que eu no dia seguinte eu saí e fui procurar um aparelho, um apartamento onde moravam vários militantes do partido.

Eliane – O partido: Ação Popular, AP. E aparelho era o nome dado pros esconderijos de quem era perseguido pelos militares.

Estudante – Quando eu cheguei lá ele já tinha caído. Eu entrei sem tomar nenhuma precaução. O pessoal, inclusive, tinha feito todas as recomendações corretas.

Sumaia – De tão afoito pra contar sobre o AVC do Costa e Silva, ele baixou a guarda…

Estudante – Tinha um sistema de aviso simples, que era o seguinte: se o apartamento caísse, os caras penduravam uma toalha na janela para secar. E eles tinham posto. O pessoal que foi preso, já, já estava preso no apartamento, já tinha posto, aí eu não vi.

Eu desci do táxi e entrei no edifício. Aí ali não tinha elevador, eram quatro andares, eu subi a pé, mas me lembro que eu fui chegando lá em cima, eu fiquei com aquela a sensação que eu tinha feito uma cagada. Eu disse: "Pô, eu tinha que ter olhado se tinha alguma coisa, pô, eu não cumpri as regras". Quando eu cheguei na porta, em vez de bater a campainha, eu botei o ouvido na porta. Aí eu já ouvi o cara falando: "Já revistou o quarto”.. Ih, caiu.

Aí eu me livrei de um molho de chaves onde estavam todos os aparelhos que eu tinha pelo Rio de Janeiro afora, e eu ainda tentei entrar no apartamento do primeiro andar. E aí os caras me pegaram.

Eliane – O segredo do AVC do general nunca chegou a ser dividido. Ele foi preso e torturado.

Vinheta do podcast 🎶

Sumaia – Agora a gente fecha esse parênteses e volta para 1970, lá pro dia do sequestro do embaixador da Suíça.

Efeito sonoro 🎶

Locução: Notícia sequestro embaixador Suíça: O embaixador da Suíça, Sr. Giovanni Enrico Bucher, exercendo suas funções nesta cidade desde 1966, foi vítima de um sequestro hoje de manhã…

Eliane – Giovanni “Burrer”, eu acho que a pronúncia é essa mesmo. Foi o último, mas também o mais longo dos sequestros.

Sobe som🎶Trecho do filme Lamarca - Eu sou o embaixador da Suíça É isso mesmo que queremos. Isso é uma ação revolucionária. Vamos, vamos!

Sumaia – Exatamente 47 dias de uma negociação que começou no dia 7 de dezembro de 1970, quando o embaixador foi capturado pela VPR. Você já deve ter ouvido falar da pessoa que comandou essa ação: Carlos Lamarca, o militar que desertou do Exército para se opor à ditadura.

Sobe som🎶 Trecho filme Lamarca "Os terroristas exigem 70 presos em troca do embaixador suíço. Tudo indica que quem comandou a ação foi o ex-capitão Carlos Lamarca. Ele é uma afronta ao exército brasileiro. Acabar com ele é uma questão de honra"

Eliane – Esse é um trechinho do filme Lamarca.

Sumaia – Foi uma negociação dura. Logo de cara, os militares não aceitaram as exigências da VPR: a libertação de 70 presos políticos, a divulgação de um manifesto, o congelamento de preços e a liberação das catracas nos trens do Rio de Janeiro.

Eliane – Giovanni Bucher era o quarto diplomata capturado, e os militares tavam dispostos a não ceder. Aí, os guerrilheiros ameaçaram matar o embaixador.

Alfredo Sirkis - Ali havia um dilema muito grande, porque a maior parte da organização queria executá-lo, porque a ditadura não tinha aceito soltar todos os presos políticos que a gente queria que fossem libertados e….

Sumaia – Alfredo Sirkis tinha 19 anos.

Alfredo Sirkis - E a perspectiva de assassinar aquele homem ali, de carne e osso, uma pessoa afável, agradável, que eu tinha conseguido desenvolver até uma certa amizade e me enchia de horror. Graças a Deus eu consegui convencer o nosso comandante, que era o Carlos Lamarca, que aquilo era uma loucura, que ia ser altamente prejudicial politicamente.

Sumaia – Sirkis morreu em 2020 em um acidente de carro. Esse áudio é de 2017, quando foi entrevistado pelo jornalista Bruno Torturra.

Eliane – Bom… os 70 presos políticos foram colocados num avião pro Chile.

Efeito sonoro 🎶

Eliane – Era janeiro de 1971 e isso foi um divisor de águas. Eles estavam livres para contar o que acontecia nos porões da ditadura no Brasil.

Sobe som🎶

Sumaia – Só depois de confirmado que os presos estavam fora do Brasil é que Giovanni Bucher foi solto. O fim desse filme é o começo de outro. A repressão foi pra cima de qualquer pessoa que pudesse dar informações sobre Lamarca. Até do ex-deputado Rubens Paiva que foi preso e morto pela ditadura. Essa história o Brasil conhece bem.

Sobe som🎶 “É Preciso Dar Um Jeito Amigo, trilha sonora do filme Ainda Estou Aqui.

Gaelle Schlier - Então, por isso que foi, por isso que, enfim, o sequestro de embaixador estava sendo usado pelos grupos revolucionários e foi por isso que a Suíça foi escolhida também, justamente pela importância dos interesses econômicos suíços nesse momento.

Eliane – Essa é a Gaelle.

Gaelle – Eu me chamo Gaelle Schlier, eu sou suíça. Eu me formei em História e Ciência Política na Universidade de Lausanne, na Suíça, onde eu estudei, como tema de dissertação, as relações econômicas e políticas entre a Suíça e o Brasil em torno do golpe.

Eliane – E ela traz mais detalhes sobre o sequestro.

Gaelle – Foi um momento um pouco tenso para a diplomacia suíça, porque justamente eles não têm muito poder sobre como tratar esse caso, mas eles decidem, o governo decide confiar totalmente no governo brasileiro para resolver essa questão de como fazer as pesquisas de onde está o embaixador, enfim, como fazer a negociação. E também é um momento que tem muitos debates justamente na imprensa suíça, porque tem o caso de estudantes binacionais ou suíços que foram presos pela ditadura em movimentos estudantis. Inclusive um que foi torturado no Rio de Janeiro, Jean Marc von der Weid.

Sumaia – Justamente o estudante de química preso quando tentava avisar que Costa e Silva tinha sofrido um AVC.

Efeito sonoro 🎶

Sumaia – E como fala seu nome?

Jean Marc von der Weid – Você quer a aula inteira? (risos) A pronúncia certa é uma mistura de francês com alemão. É Jean Marc, é João Marcos, que é o prenome, e o sobrenome é “von der Vaid”.

Eliane – Ele entrou na lista dos 70 por um fio. Ou melhor: por meia nacionalidade.

Jean – Como é que eu saí no último sequestro? Quem me contou essa história em detalhes foi o Alfredo Sirkis. Ele propôs o meu nome como presidente da UNE. O grupo que fez o sequestro, sei lá, 8 ou 10 pessoas, fizeram uma votação e só o Sirkis votou pela minha saída, mais ninguém. Então ele apelou para o Lamarca, que era o chefão de tudo. Que em última palavra era quem tinha decisão. Né? E o Lamarca decidiu a favor. E a justificativa dele foi a seguinte: não que o cara é presidente da UNE. É porque eu era meio suíço. Diz assim, nós estamos sequestrando o embaixador suíço. Sequestramos o seu representante do Brasil, e nós estamos soltando um suíço que estava preso no Brasil. Então, para fazer um gesto, digamos assim, de relações públicas para com o público suíço, eu acabei entrando na nessa lista. E era um patinho feio no grupo de 70.

Sumaia – Um estudante suíço-brasileiro nos porões da ditadura. Com um sobrenome de família importante na Suíça que indicava um certo status de nobreza.

Eliane – Mas Jean nasceu mesmo no Brasil. No Rio de Janeiro. O pai dele é que era suíço. E essa origem, que tirou ele da prisão, também abriu a porta para uma campanha que abalou a imagem do regime.

Efeito sonoro 🎶

Jean – Quando eu cheguei no Chile, o governo suíço foi até muito expedito. A gente tinha acabado de desembarcar, aí os caras me chamaram pelo alto falante. Fui lá, aí agente disse: "olha, aqui tá um cônsul suíço que tá querendo falar com você". Aí o cara se dirigiu a mim e disse: "olha, você quando você quiser, você pode ir à embaixada porque você tem direito ao passaporte suíço. Dois dias depois eu fui na embaixada, os caras me deram o passaporte na hora.

Sumaia – Um passaporte suíço na mão e uma porta aberta pra…Europa

Jean – Tô pensando em ir para a Europa e fazer uma campanha de denúncia da tortura e dos assassinatos dos presos políticos. Acho que é isso uma coisa que pode ter um efeito positivo, né? Pressão internacional sobre a ditadura militar.

Eliane – Foi assim que começou uma série de palestras e entrevistas do estudante suíço trocado pelo embaixador suíço denunciando o que acontecia no Brasil.

Trecho entrevista Jean Marc:

Entrevistador – Mas Jean Marc von der Weid, o senhor já defendia a ação violenta há quatro ou cinco anos, ou só escolheu essa forma de luta mais tarde?

Jean – Nós não escolhemos a forma violenta de luta; ela nos foi imposta pelo regime. Obviamente, se pudéssemos adotar uma forma de transformação do regime atual por meios pacíficos, por meios eleitorais, seria, sem dúvida, muito melhor para todos. A repressão, a violência policial e o terror que o governo está trazendo à população brasileira estão tornando terrivelmente difícil se organizar e se manifestar. Não há manifestações de rua ou manifestações abertas contra o governo, o que deixa as pessoas sem voz.

Efeito sonoro 🎶

Mais um trecho de outra entrevista:

Jean – Bem, fui torturado por quatro dias. Quase sem parar. Não saí da câmara de tortura.

Entrevistador – Que tipo de tortura?

Jean – Pau de arara. Você é pendurado pelos pés, pelas mãos e de cabeça para baixo. Nessa posição, aplicavam choques e outras coisas por todo o meu corpo, golpes com cassetetes e o que também é chamado de "telefone" — golpes simultâneos com as mãos nas minhas orelhas. Isso causou uma ruptura no meu tímpano direito, da qual, felizmente, me recuperei bastante. Mas também o que se chama de tortura hidráulica. Por um tempo, eles forçaram água no meu nariz. Além disso, a outra forma são as queimaduras. Como se diz isso? Eles queimam pessoas com cigarros.

Sumaia – Ele fez essas denúncias na Suíça, na Europa inteira, nos Estados Unidos, Canadá…

Jean – Falei na televisão, em programas que eram bem conhecidos na época. 1 hora de entrevista na televisão, programa de debates.

Sumaia – Denúncias que incomodavam o governo suíço.

Gaelle – Esses eventos eram monitorados pela polícia.

Vinheta do podcast 🎶

Eliane – Em suas pesquisas, Gaelle localizou um relatório da polícia suíça que mostra a vigilância sobre os passos de Jean e outros ativistas que criticavam não só a ditadura brasileira, mas também desciam a lenha no capital suíço, que ajudava a financiar a opressão por aqui.

Sumaia – É a transcrição de uma palestra do Jean, em um desses encontros com ativistas na maratona que ele enfrentou para mostrar o que acontecia nos porões brasileiros. Foi em março de 1971. Selecionamos vários trechos. É longo. Mas vale a pena ouvir.

Eliane – Vamos ao relatório da polícia.

Leitura de trechos da fala do Jean Marc no relatório policial

“Há uma frase que é frequentemente repetida no Centro de Tortura de São Paulo: (...) é preciso primeiro passar todo o povo brasileiro pelo "pau de arara" para saber quem é patriota e quem não é. É a teoria de que a verdade só vem da tortura”.

Não há limitação, no Brasil, quanto às pessoas torturadas. Você pode ter crianças que são torturadas. Havia um menino que foi levado na mesma época que eu. Ele tinha 14 anos, e tinha paralisia infantil. Ele foi torturado para fazer sua mãe falar, que também foi levada comigo.

Na Ilha das Flores, onde fiquei na prisão durante um ano e quatro meses, lembro de três casos de prisioneiros que não foram torturados (...). Todos os outros (...) foram torturados - em diferentes graus, mas ninguém escapa do chamado interrogatório preliminar. Três a quatro horas de tortura no pau de arara, com choques elétricos, golpes de cassetete e todas as formas de violência que podem ser aplicadas para fazer alguém falar. Geralmente, os interrogatórios começavam com apenas uma pergunta: fale! É só isso: fale! Nós não sabemos o que temos que falar, mas é o começo.

(...) há um objetivo mais geral: aterrorizar pessoas que são torturadas, mesmo que não tenham participação direta no movimento revolucionário, para, preventivamente, mostrar a elas os riscos de participar desse movimento.

(...) Comandante Eduard Delice da Ação Libertadora Nacional, que foi morto e massacrado sob tortura dois meses após sua prisão, pois estava na lista para ser trocado por Bucher. Não queriam deixá-lo sair da prisão, então ele foi torturado até a morte. Sua esposa foi levada para vê-lo e descreveu sua condição física para outros prisioneiros.

Efeito sonoro 🎶

Sumaia – Aqui, a gente vai fazer um corte. É que Jean descreve em detalhes as condições de como foi encontrado Eduardo Collen Leite, conhecido como Bacuri, e não Eduard Delice, como escreveu o policial suíço.

Eliane – É tão violento que a esposa dele, a Denise Crispim, que também foi torturada quando estava grávida de seis meses, não teve forças para falar quando foi depor na Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 2024.

Denise Crispim – Eu fui com meu sogro, o pai do Eduardo, e uma irmã dele. E fomos para o cemitério Areia Branca, em São Paulo. Chegando lá, encontramos um aparato policial enorme. E meu sogro foi para reconhecer o corpo. Eu ia entrando junto, e eles me proibiram. Disseram assim: “não é nem teu marido, você é amasiada. Não é nem teu marido”. E me empurraram. “Só os familiares”. Aí trouxeram o corpo dele numa espécie de carrinho. E era numas condições não descrevíveis.

Sumaia – Voltando ao Jean, ele termina a descrição do assassinato de Bacuri assim:

Jen Marc – Isso dá uma ideia do grau de violência e barbárie. Este não é um caso isolado.

Sumaia – Naquele mesmo dia, no mesmo evento, quem também foi grampeado pela polícia foi o representante dos Jovens Progressistas de Vaud, região no sudoeste da Suíça, Jacques Depallens.

Jacques Depallens – (...) le flux des capitaux est négatif pour le Brésil, c'est-à-dire que pour chaque franc investi au Brésil - c'est connu - trois francs sont rapatriés en Suisse et là je pense que c'est extrêmement important d'expliquer que l'aide suisse, elle n'est ni faible, ni insuffisante, elle est nulle, et c'est mesmo une contribution négative et néfaste à l'économie brésilienne.

(...) o fluxo de capitais é negativo para o Brasil, para cada franco investido no Brasil, três francos voltam para a Suíça (...) É importante deixar claro que a ajuda suíça não é fraca nem insuficiente. Ela é nula. Na verdade, ela é negativa e prejudica a economia brasileira.

Sumaia – Outro trecho:

Jacques Depallens – Le Brésil permet de réaliser des sur-profits. Beaucoup d'usines sont amorties en un ou deux ans, ce qui suppose des profits de 50 à 100% par année, ce qui dépasse tout-à-fait les possibilités offertes sur le marché européen ou sur le marché nord-américain, par exemple.

O Brasil permite lucros gigantescos. Muitas fábricas quitam os investimentos em um ou dois anos, e isso implica em lucros de 50% a 100% ao ano. O que extrapola todas as possibilidades oferecidas nos mercados europeu ou norte-americano, por exemplo.

Eliane – Depois ele passa a enumerar declarações públicas dos empresários suíços elogiando a ditadura brasileira.

Jacques Depallens – le gouvernement venu au pouvoir en mars 1964 a assuré la stabilité dont l'économie avait um présent besoin / parle de l'hospitalité compréhensive des autorités et / d'une symbiose entre la Suisse et le cinquième pays du monde / non seulement il règne dans ce pays un climat de segurança absoluta / envisager aussi avec confiança um avenir promissor.

O governo que assumiu o poder em março de 1964 garantiu a estabilidade que a economia tanto necessita + da receptividade das autoridades + da simbiose entre a Suíça e a quinta maior economia do mundo + o país não só oferece um clima de segurança absoluta + permite vislumbrar um futuro promissor com confiança.

Eliane – O ativista termina convidando os suíços a reagir:

Jacques Depallens – Il est clair qu'il faut passer à l'offensive contre les investisseurs suisses présents au Brésil.(...) Il faut à tout prix dénoncer la pratique de ces investisseurs.

É evidente que temos que partir para a ofensiva contra os investidores suíços que estão no Brasil. (...) Temos que denunciar as práticas desses investidores a todo custo.

Sumaia – A íntegra desse relatório policial suíço, que está em francês, a gente disponibilizou na página do podcast na Radioagência Nacional, assim como outros documentos e arquivos que localizamos para esse podcast.

Eliane – Para Gaelle, esse relatório é importante porque confirma que o governo suíço estava monitorando os ativistas brasileiros, mas também escancara que a Suíça não podia alegar que não sabia o que estava acontecendo no Brasil.

Gaelle – Do governo, a gente encontra em relatórios e em cartas que eles sabem que, por exemplo, a polícia em geral é muito violenta, que eles falam da repressão, por exemplo, no momento do golpe. Eles têm um conhecimento, vamos dizer, do que está acontecendo.

Sumaia – De fato, existia um esforço diplomático para que as notícias do lado de cá não atrapalhassem os negócios do lado de lá. Jean não foi expulso, mas outros presos políticos que foram torturados não tiveram tanta sorte.

Eliane – Apolônio de Carvalho e Ladislau Dowbor, que eram exilados na Argélia, estiveram na Suíça para denunciar os crimes cometidos pela ditadura. Mostraram as marcas da tortura na televisão. Fizeram duas conferências e defenderam a resistência armada contra o regime autoritário.

Sumaia – Tanto as declarações de Jean como as de Apolônio e Ladislau estremeceram as relações entre os dois países. A gente sabe disso, porque encontramos correspondências diplomáticas confidenciais vindas tanto do Brasil como da Suíça. Os dois lados citam esses casos como um marco que poderia desandar a “amizade” lucrativa.

Efeito sonoro 🎶

Correspondência Diplomática Suíça: Após von der Weid ter concedido diversas entrevistas a jornais, o embaixador brasileiro (...), em nome de seu governo, expressou "descontentamento e profunda decepção" e, em particular com o comportamento do "terrorista" von der Weid, com o fato de suas atividades públicas, seus insultos e calúnias contra o governo brasileiro terem sido tolerados pelas autoridades suíças.

Efeito sonoro 🎶

Relatório do governo brasileiro: O caso do cidadão de dupla nacionalidade Jean Marc von der Weid é delicado em virtude da proteção que empresta às suas atividades sua segunda nacionalidade, suíça. Sob essa proteção é que pôde realizar duas conferências atacando o Brasil e a ordem vigente no país. (...) não apenas o caso dos dois terroristas brasileiros, mas também o de outros refugiados (...) levaram o assunto da liberdade de expressão desses indivíduos a ser debatida pelas câmaras federais (...).

Efeito sonoro 🎶

Informação do MRE para o senhor presidente da República, novembro de 1970. Assunto: Campanha difamatória contra o Brasil. Terroristas brasileiros na Suíça. (...) A rapidez com que as autoridades federais suíças decidiram expulsar do país os terroristas em questão parece-me dever-se (...) à firmeza com que reclamamos do comportamento do governo suíço no caso e indicamos os danos que causaria às nossas relações políticas e econômicas.

Eliane – Os dois ex-presos políticos foram expulsos do país, e seus vistos cassados. O Estado suíço alegou quebra da neutralidade do país.

Sumaia – O que acabou gerando bastante repercussão de todo jeito, porque por acaso, Apolônio de Carvalho tinha lutado na Guerra Civil Espanhola contra o ditador Franco, e era herói de guerra na França por atuar na resistência contra o nazismo de Hitler na Segunda Guerra Mundial. A ficha corrida de luta contra regimes opressores era longa.

Eliane – Bom, mas desse caso a gente já consegue ver que não era só o setor privado que estava empenhado na relação com a ditadura militar. O governo suíço, por meio do serviço diplomático, também estava participando.

Sumaia – E isso nos leva mais uma vez ao embaixador sequestrado. Não ao dia do sequestro, mas meses depois, em maio de 1971...

Efeito sonoro 🎶

Locução: Relatório final do chefe da missão no Rio de Janeiro (Instrução nº 722). CONFIDENCIAL.

Eliane – Encontramos, num arquivo suíço, um relatório do embaixador Bucher marcado, na época, como confidencial, e que tinha o futuro representante da Suíça no Brasil como destinatário. É um texto em alemão que a gente pediu para um jornalista da Alemanha, o Gerhard, ler para a gente.

Sumaia – Ele fala do caso dos brasileiros expulsos da Suíça. Comemora a pacificação das relações. E dá outras pistas de como funcionava essa engrenagem diplomática por dentro...

Locução Gerhard: Após minha libertação, mesmo nos círculos bem-intencionados em relação à Suíça e a mim pessoalmente, havia o temor de que eu pudesse "falar demais", como aconteceu com os que foram sequestrados anteriormente. Mas quando perceberam que minha atitude em relação ao Brasil continuava positiva, surgiu uma simpatia e gratidão quase eufórica pela Suíça e por mim pessoalmente, que ainda persiste. As relações não poderiam estar melhores hoje.

Eliane – O embaixador também descreve a situação dos três presos políticos suíços que ainda estavam detidos no Brasil.

Sumaia – E fala do melindre do governo brasileiro, que não estava gostando de ver as entranhas expostas no estrangeiro. Bucher tenta desacreditar os relatos de torturas.

Locução Gerhard:: as autoridades brasileiras têm reagido de forma extremamente sensível nos últimos dois anos a tudo o que pode ser visto como uma interferência em seus assuntos internos. Isso se deve em parte a relatos completamente falsos ou exagerados da imprensa internacional sobre o Brasil, assim como de certas organizações internacionais, especialmente no que diz respeito ao genocídio de indígenas, presos políticos e torturas.

Eliane – Se o embaixador que estava saindo classificava as notícias como exageradas, o colega dele que veio depois falou totalmente ao contrário em uma correspondência de outubro de 1973. O cônsul suíço no Rio, Marcel Guelat, escreve ao secretário-geral do Departamento de Política do Ministério das Relações Exteriores um documento chamado “Tortura no Brasil”. Ele avisa, de forma bem direta, que o Estado brasileiro de fato cometia crimes.

Documento chamado "Tortura n Brasil" - Embora a situação econômica do Brasil esteja apresentando uma recuperação notável, em contraste com os países vizinhos, é verdade que a ditadura militar pretende manter seu poder por meio de uma repressão duríssima. Isso é evidenciado pelas inúmeras condenações proferidas por tribunais militares contra indivíduos, em sua maioria pertencentes à elite intelectual e aos círculos estudantis. + Assim como o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), há muito conhecido por sua brutalidade, certas unidades do Exército, agora responsáveis por investigar julgamentos envolvendo atividades subversivas, estão, por sua vez, começando a recorrer a vários métodos de tortura: abuso físico, queimaduras, eletrochoques, congelamento, etc. Dada a disciplina militar que impera nas tropas, parece-me improvável que esses fatos sejam ignorados nos mais altos escalões, a ponto de se levar a crer que o governo brasileiro mudou de ideia e aprova o uso da tortura, continuando, é claro, a negá-los.

Vinheta podcast🎶

Sumaia – Então... é, a Suíça sabia. Mas nunca houve uma ruptura política ou econômica com a ditadura.

Eliane – Negócios à parte, né, Sumaia? Gaelle, de novo.

Gaelle – Só que eles não veem - as autoridades políticas, né -, não enxergam isso como uma coisa que eles podem ter influência, e também não como uma coisa que possa afetar a política de expansão econômica no país, pela parte das autoridades. O único medo é mais da opinião pública.

Gabriella Lima – Tem toda uma questão sobre o sentido da neutralidade suíça também que na verdade é um instrumento de expansão comercial e financeira.

Gaelle – A comunidade empresarial estrangeira e também suíça ela vê o Brasil como um país assim chave para não cair no comunismo. Eles dizem, se a gente perder o Brasil, vamos perder a América Latina toda. Então, o Brasil é realmente visto como um país-chave em relação a isso.

Vinheta podcast🎶

Sumaia – Nós entramos em contato com o governo suíço por meio da embaixada no Brasil para entender como o país vê, hoje, o que aconteceu no passado.

Eliane – Por escrito, a Suíça respondeu que “uma resposta detalhada exigiria análises que não são possíveis no âmbito da administração federal suíça, pois demandam pesquisas históricas aprofundadas”. Mas disse que “saúda” a realização de estudos independentes e que esse tipo de trabalho contribui para compreender o passado e promover o debate.

Sumaia – A Suíça também destacou que o Brasil nunca foi objeto de sanções internacionais.

Eliane – A gente colocou a íntegra da nota na página do podcast, em radioagencianacional.ebc.com.br.

Sumaia – Também procuramos a Câmara de Comércio Suíço-Brasileira. Inicialmente, foi dada para gente a oportunidade de consultar os arquivos em papel da organização e uma resposta foi prometida.

Eliane – Mas, após a gente detalhar as dúvidas por e-mail, foi respondido por telefone que o presidente da Câmara de Comércio não tinha sido localizado e, por isso, não autorizariam mais o acesso aos arquivos e não conseguiriam responder às perguntas. A negociação ocorreu durante os meses de fevereiro e março.

Sumaia – E vale uma explicação aqui: a gente escolheu a Suíça porque essa relação com a ditadura militar brasileira não é uma história conhecida, como é a dos Estados Unidos, da Alemanha. Mas nunca é demais lembrar: não é um caso isolado.

Eliane – Mas nesse episódio inteiro, a gente fala do país. Até agora não demos os nomes de quem fez negócio com a ditadura, né, Sumaia?

Sumaia – Então, Eliane, as empresas estão por todos os lados. Relógio suíço é só um símbolo. Vai muito além disso. De negociadoras de commodities a farmacêuticas, da indústria alimentícia a maquinário para o setor elétrico.

Eliane – Indústria de alimentos e setor elétrico. Aliás, esses dois ramos que parecem não ter nada em comum nos levam a empresas que se envolveram na trama da ditadura, mas que se mantêm invisíveis aos nossos olhos.

Gabriella – Foi ela que produziu os equipamentos para o metrô de São Paulo, bondinho do Rio (...) Eles contrataram uma pessoa que era proprietário de uma sociedade que se apresentavam como um gabinete de relações públicas e era uma agência que coletava recursos das empresas para financiar as operações do DOI-CODI, e em troca disso, eles tinham informações sobre os trabalhadores.

Sumaia – No próximo episódio, a gente conta a história de como essa e outras multinacionais lucraram com a ditadura brasileira.

Vinheta de encerramento 🎶

Eliane – Essa é a segunda temporada do podcast Perdas e Danos, uma produção original da Radioagência Nacional, veículo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Sumaia – Os episódios são liberados todas as quartas-feiras no site da Radioagência Nacional e no seu tocador de podcast de preferência. Ah, e em libras no YouTube.

Eliane – Então já salva nosso perfil e não esquece de usar a ferramenta de avaliação da plataforma se você gostou do que ouviu até aqui. Isso nos ajuda a chegar em mais gente.

Sumaia – Esse podcast é idealizado e narrado por Eliane Gonçalves e Sumaia Villela. A concepção de pauta dessa segunda temporada é minha. A Eliane desenhou a primeira temporada.

Eliane – A nossa dobradinha segue em todas as etapas do projeto: pesquisa histórica, produção, entrevistas, roteiro, montagem e pós-produção no geral.

Sumaia – A edição e divulgação nas plataformas é da Beatriz Arcoverde.

Eliane – A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio foram feitas pelo Jailton Sodré, a partir das composições gentilmente cedidas pelo nosso colega, Nelson Lin. E a voz da vinheta do Perdas e Danos é da Marli Arboleia.

Sumaia – Já a identidade visual e a arte são assinadas pela Caroline Ramos.

Eliane – Thierry Dor e Raphael Gindre fizeram as leituras dos documentos em francês e Gerhard Dilger dos documentos em alemão que aparecem nesse episódio. Os documentos e traduções para o português foram lidos por Alex Ribeiro, Edgard Matsuki, Lucas Pordeus Leon, Rilton Pimentel, Roberto Camargo e Daniel Mello.

Sumaia – A versão do episódio em Libras, divulgada no YouTube, é feita pela equipe da EBC.

Eliane – Usamos material histórico do acervo da EBC; do Arquivo Nacional; da Rádio Jornal do Brasil; da TV GGN; da RTS, rede de veículos públicos da Suíça; e do Centro de Pesquisa Dodis, um instituto da Academia Suíça de Humanidades e Ciências Sociais. Também usamos trechos dos filmes O que é Isso Companheiro, de Bruno Barreto; Lamarca, de Sérgio Rezende; da série Ruas Rebeldes, de Bruno Torturra; e de música de Erasmo Carlos - tudo com fins jornalísticos.

Sumaia – Agradecemos a Ciro Grangeiro, Raico Fisher, Gaelle, Isabela Vieira, Victor Ribeiro, Carolina Pavanelli, Cibele Tenório, Guilherme Strozi e Daniel Mello pela ajuda com contatos, informações e apoio em geral.

Eliane – E principalmente obrigada a você que nos ouviu até aqui. Se puder tirar um tempinho para contar o que achou do podcast, agradecemos muito.

Sumaia – Por favor, deixe uma mensagem em ouvidoria@ebc.com.br ou no site ebc.com.br/ouvidoria. Também dá para fazer uma manifestação em Libras para o número (61) 99862-1971.

Efeito sonoro 🎶

Em breve
Apresentação, idealização, reportagem, roteiro, pesquisa histórica, produção, entrevistas, pós-produção e montagem Eliane Gonçalves e Sumaia Villela
Edição e divulgação nas plataformas Beatriz Arcoverde
Voz do título do podcast Marli Arboléia
A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio Jailton Sodré
Composições para identidade sonora foram cedidas pelo músico e colega do EBC Nelson Lin
Arte Caroline Ramos
Interpretação em Libras: Equipe EBC
Leitura dos documentos em francês Thierry Dor e Raphael Gindre
Leitura dos documentos em alemão: Gerhard Dilger
Leitura dos documentos em português: Alex Ribeiro, Edgard Matsuki, Lucas Pordeus Leon, Rilton Pimentel, Roberto Camargo e Daniel Mello
Pesquisa histórica: Acervo da EBC; Arquivo Nacional; Rádio Jornal do Brasil; da TV GGN; da RTS, rede de veículos públicos da Suíça; e Centro de Pesquisa Dodis, um instituto da Academia Suíça de Humanidades e Ciências Sociais.
Agradecimentos: Ciro Grangeiro, Raico Fisher, Gaelle, Isabela Vieira, Victor Ribeiro, Carolina Pavanelli, Cibele Tenório, Guilherme Strozi e Daniel Mello
Trechos de filmes e música com fins jornalísticos: O que é Isso Companheiro, de Bruno Barreto; Lamarca, de Sérgio Rezende; da série Ruas Rebeldes, de Bruno Torturra; e de música de Erasmo Carlos - tudo com fins jornalísticos.
Implementação na web:: Beatriz Arcoverde e Lincoln Araújo
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