Herança de poder: do passado escravocrata ao apoio à ditadura de 1964
O quarto episódio da segunda temporada de Perdas e Danos, Como nossos pais, mergulha nas raízes profundas da desigualdade brasileira. O que a avenida mais movimentada de São Paulo, um império ferroviário e o financiamento da tortura têm em comum? A resposta atravessa séculos de história e nomes de família que se repetem no topo do poder.

O novo episódio do podcast Perdas e Danos revela um dado impressionante: dois em cada três empresários documentados como apoiadores da ditadura são herdeiros de famílias escravocratas.
Nesta edição, Eliane Gonçalves e Sumaia Villela investigam a trajetória dos Buenos Vidigais. Da herança de terras e pessoas escravizadas no século XIX ao protagonismo no financiamento da Oban e do Ipês durante a ditadura militar, o episódio revela como o capital acumulado sob o regime de escravidão serviu de base para a influência política e econômica que sustentou o golpe de 64.
O episódio conta com depoimentos de historiadores, ex-presos políticos e até de descendentes destas famílias que decidiram romper o silêncio sobre o passado.
A temporada atual investiga como países, empresas e setores da sociedade civil lucraram e colaboraram com a manutenção do regime ditatorial que durou 21 anos no Brasil.
💬 Você pode conferir, no menu abaixo, a transcrição do episódio, a tradução em Libras, documentos históricos e ouvir o podcast no Spotify,.
*Esclarecimento: O Banco Mercantil a que se refere a reportagem é o Banco Mercantil de São Paulo, fechado em 2001, quando foi vendido para o Bradesco, como informado. Os fatos aqui relatados não têm qualquer relação com o Banco Mercantil do Brasil S.A., com sede em Minas Gerais e fundado em 1943.
PERDAS E DANOS - 2ª TEMPORADA: Passado Leiloado
Episódio 4 - Como nossos pais
Trilha do podcast 🎶
Eliane Gonçalves - Herança. Quando a gente ouve essa palavra já pensa logo no espólio de alguém, né? Ainda que sejam dívidas, herança é o que uma geração passa pra que vem pela frente.
Sumaia Villela - E aí, a primeira coisa que vem à cabeça? Imóveis, carros, dinheiro no banco… Mas herança pode ser algo muito maior. Práticas, tradições, hábitos, língua, nomes e sobrenomes… É isso. Nem sempre o que chega pra gente como herança tem preço.
Eliane - Mas, sim, pra alguns herança tem a tudo a ver com patrimônio e pra outros poucos, bem poucos mesmo, tem tudo a ver com muito, muito patrimônio. Oi, eu sou Eliane Gonçalves.
Sumaia – E eu sou Sumaia Villela. Nesse episódio da nova temporada do Perdas e Danos, a gente se dedicou a entender o que tá na origem da riqueza…
Eliane - .... e do poder. A origem da riqueza e do poder acumulados por quem apoiou o regime que afundou o Brasil em uma ditadura que durou 21 anos.
Trilha do podcast 🎶
Sumaia - Segunda Temporada - Passado Leiloado
Eliane - Avenida Paulista, 1450. Esse é o endereço do primeiro banco que ocupou a avenida mais famosa de São Paulo. Foi em 1969 que o então poderoso Banco Mercantil de São Paulo saiu do centro antigo da cidade e inaugurou a vocação financeira da avenida.
Sumaia - Um edifício elegante de 15 andares, estilo modernista e paredes sólidas de concreto aparente, que hoje abriga uma agência do Bradesco, mas que até 2002 foi ocupado pelo Mercantil. Ele fechou nesse mesmo ano, depois da morte do seu último diretor, Gastão Eduardo de Bueno Vidigal.
Eliane - O Banco Mercantil de São Paulo foi fundado em 1938. Uma herança deixada pelo pai de Gastão Eduardo. Outro Gastão, o Gastão Vidigal, sem o Eduardo no meio.
Sumaia - Zona oeste de São Paulo.
Eliane - Qual o nome dessa avenida que passa aqui? Pedestre - Gas… Nossa, agora deu branco, agora bicho. Gastão... Vina Gastão... Vidigal... Gastão Vidigal. Pedestre - Ela é bem movimentada, mas é muito organizada sim. Pedestre - Sim, sim. Muito importante. Tudo passa por aqui. Tudo. Pedestre - Uma avenida é de gente chique, bairro chique. Aqui tem a loja da Porsche, na frente. É tudo conectadinho. Eliane - Você sabe porque que é esse nome? Pedestre - Hum-hum. Não sei. Pedestre - Avenida Doutor Gastão Vidigal. Pra receber o nome de doutor e ainda uma via quádrupla? Deve ter sido muito importante.
Eliane - Doutor Gastão Vidigal da avenida é o mesmo que fundou o Banco Mercantil. Ele batiza outros endereços pelo país afora.
Efeito sonoro 🎶 Voz do Google com endereços Vidigais.
Sumaia - Avenidas, ruas, travessas, becos, praças, um aeroporto e até uma cidade inteira. Já deu pra sacar que a gente tá falando de uma pessoa bem influente, né?
Claudia Moraes - Uma coisa que se diz sobre a família, sobre a família Vidigal, é que a família Vidigal foi de fato, uma das maiores famílias de empresários do Sudeste brasileiro.
Eliane - Essa é Claudia Moraes de Souza. Historiadora e professora da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo.
Claudia Moraes - E dominaram todos os setores. Da indústria, passando pelo comércio e financeira, com a administração do banco Mercantil S.A., também administrado por um Gastão Vidigal, este, na verdade, o filho do primeiro Gastão. O Gastão, ele tem vários filhos, homens e mulheres, mas são os filhos homens que vão assumir esses três campos: as indústrias, as empresas comerciais de serviço e a financeira.
Sumaia - Na indústria, Gastão Vidigal, o pai, foi um dos fundadores da Cobrasma, a Companhia Brasileira de Material Ferroviário, que se destaca na produção de trilhos e trens. Quem herdou a fábrica foi um desses filhos que a professora falou, Luis Eulálio Bueno Vidigal.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Vamos fazer uma pausa aqui porque a gente mal começou e você já deve estar se embaralhando com tantos Vidigais nessa história… Então calma, por enquanto, o importante é saber que os Buenos Vidigais eram uma família praticamente onipresente na economia do país. O que também garantia muita influência na política.
Sumaia - A outra coisa que é muito importante saber, por enquanto, é que o império dos Buenos Vidigais não começou do zero. Tá hora de pedir ajuda pra genealogia para investigar o passado dessa família.
Eliane - O Gastão Vidigal que dá nome a tantos Ceps pelo país afora e que é pai e avô de todos os outros Vidigais que você ouviu até agora, nasceu em 1889, em São Paulo, herdeiro de uma família muito bem posicionada do Nordeste brasileiro. Quando tinha 30 anos, ele se casou com a jovem Maria Amélia Pontes Bueno, de 22 anos, herdeira de uma família que circulava pelas altas esferas há muitos anos.
Sumaia - Há séculos, você quer dizer, né?
Eliane - Verdade. Há séculos. Ok. Vamos voltar alguns anos na nossa linha do tempo.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia - Vamos agora pro século 19. O ano é 1820. O lugar é Vila de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, que coisa de 100 anos mais tarde ia se chamar Marechal Deodoro, uma charmosa cidade histórica de Alagoas, conhecida pela famosa Praia do Francês.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Foi em Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul que nasceu Antônio Pedro Vidigal, filho de outro Antônio Pedro, só que esse português, e avô do Gastão Vidigal que batiza a avenida importante de São Paulo. Agora, presta atenção nesse anúncio classificado de um jornal de Laranjeiras, cidade do interior de Sergipe, onde Antônio Pedro foi morar anos depois.
Efeito sonoro 🎶
Leitura - A União Liberal, Sergipe, 5 de dezembro de 1853. “Antonio Pedro Vidigal”, Laranjeiras, sabe onde existe um escravo cabra…
Sumaia - Cabra: na época, pejorativo de mestiço ou pardo.
Leitura - …sabe onde existe um escravo cabra que diz ser de D. Maria Angelica moradora em Cotinguiba e o annunciante não duvida compra-lo, pelo que essa senhora pode apparecer para tractar.”
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Um anúncio de compra e venda de gente. “Antonio Pedro Vidigal” sabe onde existe um homem pardo, escravizado e usa os classificados para avisar que tem interesse em comprá-lo.
Eliane - O anúncio de 1853 foi publicado 35 anos antes da abolição da escravidão e quando Antônio Pedro Vidigal, na casa dos 30 anos, já tinha herdado e acumulado bens que anos mais tarde engrossariam o patrimônio dos seus descendentes. Mas essa não foi a única pista que a gente encontrou de uma família que contou com mão de obra escravizada pra fazer fortuna.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Vamos seguir em Sergipe, mas dando um salto de quase 30 anos. Vamos pra 1882. O movimento abolicionista caminhava a passos largos e, no continente americano, só Brasil e Cuba ainda não tinham acabado com a escravidão.
Sumaia - No dia 1º de dezembro, o jornal O Libertador publicou a notícia de uma mulher que enfrentava dificuldades para comprar a liberdade da própria filha e do neto, que teoricamente já tinha até nascido livre. A mulher já era alforriada e vivia em Salvador. Ela juntou dinheiro e conseguiu a autorização do juiz pra comprar a filha.
Eliane - Mas quando chegou na hora H, o preço da liberdade era mais caro. Segundo o jornal, o superfaturamento ficou a cargo dos avaliadores acionados pelo tribunal.
Efeito sonoro 🎶
Leitura de jornal - “Avaliamos a escrava de hontem debaixo de juramento prestado por termo nos autos do inventário, dissemos que ella para ser escrava, e igualmente os serviços de seu filho ingênuo só valiam seiscentos mil réis. Porém hoje, também debaixo de juramento que acabamos de prestar, para ella gozar de sua liberdade, vale oitocentos mil réis!”
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Não, você não ouviu errado.
Efeito sonoro 🎶
Leitura de jornal - Para ella gozar da sua liberdade, vale oitocentos mil réis!”
Eliane - No parágrafo seguinte, o autor do texto do jornal de viés abolicionista, Francisco José Alves, dá mais detalhes sobre quem eram os tais avaliadores.
Efeito sonoro 🎶
Leitura de jornal - “Por desgraça deste paiz ainda se encontram muitos itens, como Vidigal e Cruz, que sacrificam a dignidade de homens, para servirem de instrumentos aos caprichos dos ‘esclavocatas’!”
Sumaia - Um Vidigal foi um dos avaliadores que entendeu que para uma mãe comprar a alforria de uma filha, ela precisava pagar 33% a mais do que qualquer outra pessoa que fosse manter ela escravizada.
Eliane - O jornal não dá o nome completo do Vidigal que fez a tal avaliação. Pode ter sido o avô do doutor Gastão, o Antônio Pedro, do começo do século. Ou, quem sabe, um de seus dois filhos, entre eles Afrodísio Vidigal, o advogado da família que virou juiz de direito em São Paulo e pai de Gastão Vidigal, o da avenida importante da capital paulista.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia - Mas a tradição escravocrata da família não para por aí. Vamos agora pro ramo materno dessa genealogia: os Buenos.
Sobe som🎶
Eliane - Lembra da Maria Amélia Bueno, a jovem com quem Gastão Vidigal se casou no comecinho do século XX? O ancestral mais antigo que encontramos da moça é Amador Bueno de Ribeira.
Sobe som🎶
Sumaia - Amador Bueno, o capitão-mor da Capitania de São Vicente, o representante do rei de Portugal no Brasil do tempo das capitanias hereditárias, no século XVII, lá no começo dos anos de 1600. Mas olha, nem foi preciso ir tão longe para confirmar a tradição escravista.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Final do século 19. O avô da Maria Amélia …
Sumaia - …e pra gente não se perder, o bisavô dos filhos de Gastão, os empresários Gastão Eduardo e Luís Eulálio Vidigal.
Eliane - … Pois bem, o avô de Maria Amélia, Augusto Xavier Bueno de Andrade que era fazendeiro de café, pegou uma bolada de dinheiro emprestado no Banco do Brasil, que já naquela época financiava fazendeiros, algo parecido com o Plano Safra, que garante crédito pro agronegócio hoje em dia.
Sumaia - E sabe o que o bisavô do banqueiro e do industrial deu como garantia para o pagamento do empréstimo? Uma fazenda. A São Bento, que ficava em Campinas, no interior de São Paulo. Mas não só a terra. A fazenda e tudo o que tinha da porteira pra dentro: 130 mil pés de café e 75, eu disse 75, homens, mulheres, adolescentes… escravizados.
Sobe som🎶
Eliane - Pessoas oferecidas como bens para garantir um empréstimo a juros subsidiados e com parcelas a perder de vista.
Sumaia - Essa história da fazenda e o empréstimo no Banco do Brasil tá na pesquisa Escravos Hipotecados de Maria Alice Ribeiro, da Unicamp.
Eliane - Mas quem ajudou a gente a levantar a capivara dos Buenos Vidigais foi o professor da Universidade Federal de Campina Grande, José Marciano Monteiro. Ele faz parte do NEP, o Núcleo de Estudos Paranaenses, que investiga as relações de parentesco e poder no Brasil.
Marciano Monteiro - Os estudos que nós temos feito apontam para uma relação muito próxima entre essas famílias da classe dominante brasileira e a sua relação com o processo de escravidão. Até porque muitas delas detinham um controle sobre grande extensão de terra. Esta lógica de controle sobre o latifúndio e consequentemente, a lógica da própria dinâmica do capitalismo brasileiro tem uma relação umbilical com a escravidão no Brasil…
Trilha do podcast 🎶
Sumaia - Escravidão. O sistema econômico que tá na raiz das desigualdades brasileiras. O motor que permitiu a acumulação de riqueza dos Buenos, dos Vidigais e de várias outras famílias que ainda hoje concentram muito dinheiro e muito poder.
Marciano Monteiro - Dificilmente, alguém pertencente à classe dominante tradicional, estará desvinculado desta relação.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Agora, se você tá se perguntando o que a tradição escravocrata tem a ver com um podcast que investiga as empresas na ditadura militar…
Sobe som🎶 João Grilo - No tempo da escravidão “E a escravidão continua, até hoje. Até sempre. Porque o ser humano não cuida. Não cuida da sua própria gente."
Edson Teles - Uma marca muito grande desse modelo econômico da ditadura foi a extração. Eu diria que extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura.
Sumaia - Esse é o Edson Teles. Professor de Filosofia Política da Unifesp, Universidade Federal de São Paulo, e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense, o Caaf.
Edson Teles - É claro que a atividade econômica prevê, em muitas vezes, a extração, mas extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva. E quando eu digo extrair, não é só extrair da terra, do minério, da água, da matéria-prima, mas extrair dos próprios trabalhadores. Usar o corpo do trabalhador sem considerar os seus direitos, a sua dignidade humana, que é o trabalho análogo à escravidão, ou a violação de direitos diretamente, ou mesmo as violências de assédio e outras mais graves. Então isso também é parte de um processo de extração.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - O Edson liderou o grupo de pesquisadores responsáveis pelo mais amplo estudo feito até agora no país sobre as relações íntimas entre a ditadura militar e as empresas.
Edson Teles - Parte delas teve engajada na promoção do golpe de 1964, ou seja, mesmo antes de existir a ditadura, algumas delas estavam engajadas na promoção do golpe. Como é o caso, por exemplo, da família Vidigal, que era proprietária da empresa metalúrgica Cobrasma, aqui em Osasco, São Paulo, que financiava uma instituição da extrema direita brasileira, o Ipes, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, e que foi um dos grandes fomentadores e articuladores dessa instituição do golpe.
Sobe Som 🎶 Trecho do filme o Ipes precisa de você
Sumaia - Essa não é a primeira vez que o Ipes aparece no Perdas e Danos. E se você tá acompanhando a gente, já sabe que a gente explica o Ipes assim ó:
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Uma espécie de Brasil Paralelo da época que ajudou a preparar o terreno pro golpe de 64 e continuou atuando em colaboração com a ditadura depois.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - E a família Bueno Vidigal era sócia do clube golpista.
Efeito sonoro 🎶 Trecho do filme o Ipes precisa de você
Sumaia - Esse era o tom da campanha do Ipes que espalhou pânico pelo Brasil afora e abriu caminho pro golpe. Só que na gramática do grupo, crise, descalabro e desordem quase sempre era sinônimo de trabalhador exigindo direitos. Quem conta isso pra gente é a Maria Amélia Teles, a Amelinha Teles.
Amelinha Teles - O poder, o poder de impor uma exploração sem limites junto à classe trabalhadora. Esse era o principal objetivo desse apoio à ditadura, calar a boca dos trabalhadores.
Eliane - Amelinha é jornalista, pesquisadora, ex-presa política…
Amelinha Teles - Porque a classe trabalhadora foi a maior vítima do golpe de 64, sem dúvida nenhuma. Tanto é que os sindicatos sofreram intervenção. Quer dizer, todas as empresas sofreram uma ditadura específica contra a classe operária, porque se tirou a estabilidade, que nós tínhamos a estabilidade, fazia muita diferença, e achatou o salário, o custo de vida sempre descontrolado, e nós vamos ver uma questão social se avolumando, não é que não existia antes, mas se avoluma.
Sumaia - Ela tinha 27 anos quando foi presa e torturada. Na frente dos dois filhos. O mais novo, com 2 anos, o hoje professor Edson Teles.
Edson Teles - A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no primeiro mês, abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. E a grande maioria desses indivíduos eram trabalhadores sindicalizados.
Eliane - Dentro da indústria dos Vidigais não faltavam motivos pra reivindicações. A Cláudia também participou do projeto coordenado pelo Caaf para investigar as empresas e a ditadura e se debruçou sobre a Cobrasma. Ela foi atrás dos arquivos da empresa no Ministério do Trabalho e olha só o que encontrou:
Claudia Moraes - Uma grandiosíssima companhia, e as condições de trabalho sempre foram vergonhosas. Com questões do tipo: não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório para trabalhadores desde a fundação da empresa, até praticamente final dos anos 70. Então o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, mesmo que estavam muito ligadas a questão de higiene na fábrica e de segurança do trabalhador.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia - Um cenário que não tá muito longe do que a gente chama hoje em dia de trabalho análogo à escravidão. Foi nesse cenário de precariedade que a Cobrasma virou epicentro de um dos maiores levantes operários do país, em plena ditadura militar. A greve de Osasco de 1968.
Efeito sonoro 🎶
João Joaquim da Silva - O Exército veio e cercou.
Eliane - Esse é João Joaquim da Silva. Ele fazia parte do Sindicato dos Metalúrgicos e era uma das lideranças da greve.
João Joaquim da Silva - Dia 17 de julho de 1968. Aí eles cercaram realmente a empresa, aí fez um corredor. E todos os trabalhadores, fuzil, baioneta. Calado. Começaram a sair. Alguns realmente, tinham lá o pessoal da portaria, os seguranças, que sabia quem era, quem não era, então foram dedando as lideranças e os outros foram indo embora pra casa.
Sumaia - Ele contou essa história pra Cláudia, no projeto Memórias Resistentes, que guarda registros de história oral da cidade de Osasco.
Claudia Moraes - Três brucutus, carro de choque, caminhões da força pública, oito viaturas e cerca de 150 agentes de segurança, a Força Pública do Estado, que hoje é a Polícia Militar, e o Exército.
Eliane - Ela refez pra gente toda a cronologia da greve.
Claudia Moraes - Fecharam as vias de acesso da cidade, depois eles seguem para Cobrasma. Às 22 horas eles desocupam, eles invadem a fábrica. Só com a invasão da fábrica se fala em cerca de 300 prisões naquela noite. Parte levados para a delegacia de Osasco e parte já levado direto para o Dops.
Sumaia - Mesmo com toda repressão, a greve que começou na empresa dos Vidigais se alastrou por outras fábricas de Osasco. Mais de 10 mil trabalhadores foram mobilizados.
Claudia Moraes - No segundo dia a greve continuou, o exército invadiu no segundo dia o sindicato e mais um conjunto de pessoas, mais de 100 pessoas foram presas no sindicato. No terceiro dia, eles se reuniram na Igreja Santo Antônio, que era a igreja matriz da cidade. A igreja foi tomada, a igreja foi invadida e mais umas dezenas foram presos na igreja. Então foram três dias ininterruptos de ocupação da cidade, invasão na fábrica, invasão do sindicato, prisão no sindicato, invasão da igreja, prisão da igreja.
Sumaia - Três dias de greve e mais de 400 presos. Uma paralisação que começou com um apito.
Efeito sonoro 🎶 Apito Cobrasma
Inácio Pereira Gurgel - Eu ajudei a puxar o apito da Cobrasma pra fábrica parar.
Eliane - O funcionário que deu o sinal pra todo mundo desligar as máquinas foi o Inácio Pereira Gurgel falou sobre isso num depoimento gravado pro Museu da Pessoa, em 1996:
Inácio Pereira Gurgel - Nós formávamos a chamada Comissão dos Dez. Era feita por funcionários que atuavam no sindicato. E eu era um deles. Coisa mais forte que teve em todo o movimento sindical de Osasco. Nós conseguimos um refeitório, almoço pra todo mundo, nós conseguimos prêmio de produção, nós conseguimos prêmio de insalubridade, nós conseguimos aumento de salário e conseguimos, no tempo da greve, levar umas boas lambadas nas costas que a polícia não deixou barato.
Efeito sonoro 🎶
Claudia Moraes Souza - É no caso da greve de 1968, em que a gente enxerga claramente, a forma como os empresários chamaram o Exército brasileiro para atuar como repressor dentro da fábrica, não só da Cobrasma, mas uma greve das metalúrgias e de outros setores também da cidade de Osasco.
Sumaia - Exército sendo chamado pra conter reivindicação de gente que trabalhava em situação precária.
E a condição de trabalho análogo a escravidão não era uma cena restrita à Cobrasma, dos Vidigais. De novo, Edson Teles.
Edson Teles - A gente pode ver que em várias dessas empresas houve o trabalho análogo à escravidão. Seja dos seus próprios trabalhadores ou uso de populações tradicionais para fazer esse trabalho. Então, um benefício econômico ligado a um processo repressivo é o trabalho análogo à escravidão, em que você não registra, não paga direitos, muitas vezes não usava salário, era em troca de usar a tal da residência, o bairro, acesso ao mercado, acesso a algum sistema de saúde básico e coisas que o valham.
Trilha do podcast 🎶
Eliane - A mobilização dos trabalhadores em Osasco foi um marco. E é tida como um dos estopins para o endurecimento da ditadura. Cinco meses depois da greve, foi promulgado o AI-5, que liberou de vez a caça a quem ousava abrir a boca pra reclamar de qualquer coisa.
Efeito sonoro 🎶
Leitura - Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. (...) O Presidente da República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios, sem as limitações previstas na Constituição, suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais (...)
Sumaia - O AI-5, Ato Institucional que fechou o Congresso Nacional; deu ao presidente da República o poder de cassar mandatos, intervir em estados e municípios e suspender os direitos políticos de qualquer cidadão; acabou com o direito de habeas corpus em crimes políticos; instituiu a censura prévia na imprensa e nas artes.
Trilha do podcast 🎶
Eliane - Depois do AI-5, a dobradinha entre militares e empresários seguiu firme e forte. A Amelinha foi testemunha.
Amelinha Teles - Há momentos, inclusive, de um estreitamento desse apoio dos empresários, um estreitamento que é dar dinheiro mesmo, garantir o funcionamento de aparatos repressivos como os Doi-Codi, que começou com o nome de Operação Bandeirantes, aqui em São Paulo, e depois, segundo eles, por ter sido bem sucedido, passou a ser Doi-Codi e espalhou esse tipo de organização por todo o Brasil. E os empresários subsidiavam esse serviço, ou desserviço, enfim, esse sistema repressivo.
Sumaia - Operação Bandeirantes, a Oban, o embrião dos Doi-Codis, financiado pelos empresários. A gente já falou sobre isso no episódio 2, mas não tinha como deixar de trazer o aparato de tortura da ditadura pra cá, justamente quando a gente tá falando de um passado de pelourinhos que afeta a nossa história até hoje.
Ivan Seixas - Essa Oban, ela funciona inicialmente junto à PE, que a Polícia do Exército, na Rua Abílio Soares, em São Paulo.
Eliane - E quem vai trazer novos detalhes do aparelho de repressão é o jornalista e ex-preso político, Ivan Seixas, que também já teve por aqui com a gente.
Ivan Seixas - Como aquilo causava muito transtorno para os soldados conscritos, aqueles que serviam durante um tempo e saíam, não eram profissionais do Exército, começou a ter muita reclamação, porque ouviam tortura, ouviam pessoas sendo espancadas, arrastadas e aí eles decidiram tirar dali e levaram para 36ª delegacia, que fica a 500 metros do portão de entrada da PE, funcionava ali na rua Tutóia. Essa primeira, a Oban, ela é comandada pelo major, depois coronel Valdir Coelho e depois, em 1970, passa para o comando do Major Carlos Alberto Brilhante Ustra, e nesse mesmo momento, quando essa passagem do Valdir Coelho para o Ustra, há a oficialização da criação dos Doi-Codis.
Eliane - O sistema Doi-Codi se multiplicou pelo país afora. Além de São Paulo, também foram abertas unidades em outras nove capitais brasileiras. Em seis anos, só o Doi-Codi de São Paulo prendeu 6.700 pessoas e pelo menos 50 foram assassinadas lá dentro. Quem levantou essa estatística, feita pelo próprio exército, foi o jornalista Pedro Estevam Pomar, que era criança quando o avô foi assassinado em uma emboscada que ficou conhecida como a Chacina da Lapa.
Sumaia - Voltando pro Ivan Seixas tinha 16 anos quando foi preso com o pai, Joaquim Seixas, e levados pro Doi-Codi na - entre aspas - delegacia na rua Tutóia. Foram torturados, um na frente do outro, e Joaquim morreu no dia seguinte. Foi dentro do aparelho de tortura que Ivan descobriu mais detalhes do sistema de financiamento da repressão:
Ivan Seixas - Fizeram uma parceria com um empresariado que colaborava e se beneficiava da ditadura para fazer uma caixinha de premiação. Cada um de nós que era capturado tinha um valor a cabeça. O Capitão Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, a cabeça dele valia 750 mil dólares. Um ano depois, quando ele foi assassinado, valia um milhão e meio de dólares. Eu, de lá um tempo que eu estava lá no Doi-Codi, um carcereiro falou pra mim, o Marechal, era o nome, o apelido dele, ‘porra, moleque, você me deu 300 dólares’. Eu falei, ‘não te dei nada, vocês saquearam a minha casa’. ‘Não, não estou falando do saque, estou falando do prêmio da tua cabeça. Pra mim você deu 300 dólares. Pro Major, que era o Ustra, né? Ele vai ficar rico com a cabeça de vocês’.
Eliane - Cabeça a prêmio…
Sumaia - ... Capitão do mato…
Sobe som🎶
Ivan Seixas - O Ustra depois vai ter uma mansão na beira do Lago Paranoá. Com um dinheiro de salário de soldo de coronel, é que não foi.
Eliane - Se você ouviu o segundo episódio dessa temporada, talvez se lembre dessa voz aqui.
Erasmo Dias - Operações Ban… Precisamos disso, disso, disso. Isso nós temos. Isso nós não temos.
Sumaia - Coronel Erasmo Dias, militar linha dura, secretário de segurança pública de São Paulo e figura chave na estruturação da Oban e do Doi-Codi. E se você é uma pessoa ligada nos detalhes, talvez se lembre o nome do civil de peso, que cooperou com o aparato repressivo.
Erasmo Dias - E quem pode arrumar pra gente? Pode arrumar pra gente o Vidigal, pode arrumar pra gente… Ele tem relação aí fora… Então dois ou três civis de peso desse, de respeito, servia de ponte com os outros. Então muita gente cooperava.
Eliane - O Vidigal pode arrumar pra gente…
Sumaia - Se lembra que lá no começo a gente contou que a família Vidigal tinha um braço financeiro? O Mercantil? Pois bem, um dos protagonistas na caixinha que ajudou a bancar a Oban quando o governo tirou de vez os monstros do armário era Gastão Eduardo Bueno Vidigal.
Trilha do podcast 🎶
Eliane - O banqueiro também financiou outros aparelhos de repressão. No depoimento que o ex-delegado do Dops do Espírito Santo, Cláudio Guerra, deu à Comissão Nacional da Verdade, Gastão Bueno Vidigal também foi lembrado. Segundo Cláudio Guerra…
Leitura trecho do relatório da Comissão Nacional da Verdade - O Banco Mercantil de São Paulo e o Sudameris destacaram-se como os maiores provedores de recursos para os agentes da repressão, pois viabilizaram o pagamento de uma espécie de bolsa mensal a eles, em contas em nome de laranjas (ou mesmo em nomes falsos), além do pagamento de “prêmios” (em dinheiro), em decorrência da captura e do assassinato de opositores do regime ditatorial.
Sumaia - Para Ivan Seixas essa política de pagar os sicários estimulou os militares linha dura, provocou a morte de muita gente, como o Jornalista Vladimir Herzog, e adiou a abertura democrática. Porque, né? Lucrativo.
Ivan Seixas - A repressão política, além da crueldade de torturar, matar, era também… uma fonte de riqueza para eles. Eles não queriam que acabasse a luta contra a ditadura porque cada um de nós tinha um preço para eles se beneficiarem. Queriam continuar sendo remunerados pelas prisões e mortes, como eles fizeram.
Eliane - E já que a gente tá revirando o passado profundo… A genealogia também ajuda a explicar a brutalidade.
Ricardo Oliveira - O militar da ditadura, um general, um almirante, um brigadeiro, ele tem um avô que ainda muitas vezes está na escravidão nas suas regiões de origem, ainda são escravistas.
Sumaia - Esse é o professor Ricardo Costa de Oliveira, coordenador do NEP (Núcleo de Estudos Paranaenses) e referência na pesquisa da genealogia do poder.
Ricardo Oliveira - E aí eles transmitem a mesma mentalidade, os mesmos valores autoritários, e até mesmo a cultura da tortura, que a cultura da tortura sempre foi aplicada contra grupos populares, escravizados, indígenas, negros, africanos, e durante a ditadura militar, também foi usada contra setores da classe média, classe média alta, brancos.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Bom, voltando aos Buenos Vidigais. Além da fábrica da família ter sido o epicentro de uma greve contida pela truculência, além do banco de um Vidigal ter financiado o aparato de tortura nos porões da ditadura, o clã também contribuiu com o aparelhamento do regime à luz do dia.
Sumaia - O presidente da Cobrasma, Luís Eulálio Bueno Vidigal foi vice-presidente do GPMI, o Grupo Permanente de Mobilização Industrial. A gente encontrou no Arquivo Nacional um documento do SNI, o Serviço Nacional de Informação, de 1968, explicando o que era o tal do GPMI:
Leitura de documento - … “O GPMI é o órgão da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo que congrega civis industriais e militares e estuda os meios de uma fábrica de utilidades civis produzir materiais necessários às operações militares”.
Eliane - Fábrica de utilidades civis produzindo materiais para operações militares. A gente vai trazer a Cláudia aqui de volta pra ela traduzir o que significa isso em se tratando da fábrica de trens e trilhos dos Vidigais.
Claudia Moraes - A Cobrasma, como uma empresa metalúrgica, produtora de vagão ferroviário, teria vocação para a construção de tanques, caso o exército assim necessitasse.
Sumaia - Em 1982, o sargento do Exército, Edegard Nogueira Borges, deu uma entrevista para o Coojornal, da Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre, explicando como a Cobrasma ajudou a transformar carros da polícia em blindados de guerra.
Efeito sonoro 🎶
Leitura Reportagem Coojornal 1982 - “As polícias militares só podem ter esses carros até determinada milimetragem na carcaça protetora, para que não seja arma convencional de guerra, privativa das Forças Armadas. Então o carro da PM de São Paulo era o Tatu, conhecido por Brucutu, que eles fabricavam na Cobrasma sob o controle e fiscalização da 2ª Região Militar. Mas ocorre que os operários da Cobrasma nos mostraram que os oficiais do II Exército e da 2ª Região Militar (...) foram lá e modificaram as especificações, passando a fabricar para a então Força Pública de São Paulo, carros de combate convencionais como se fossem carros comuns para uso em manifestações de rua (...)”.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Os brucutus, aliás, foram usados para conter os grevistas de 68 na própria Cobrasma. Além de tanques de guerra pra conter manifestantes de rua, a lista do GPMI incluía armas, munições, uniformes, alimentação e por aí vai. Tudo o que o exército precisasse e que pudesse ser fornecido pelas empresas que faziam parte do grupo.
Sumaia - O investimento foi lucrativo.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia - Os produtos fabricados pela Cobrasma tinham um cliente: o governo. Informação confirmada pelo próprio Luiz Eulálio Vidigal em depoimento à Comissão da Verdade de Osasco:
Entrevistador - A Cobrasma era fornecedora do governo, né? Era um dos principais clientes, né?
Luís Eulálio - 100%. 100%.
Eliane - A empresa também se beneficiou com incentivos fiscais, contratos vitaminados e empréstimos bilionários do BNDE (o BNDES antes do S de Social). No seu auge, ali no começo dos anos 70, a Cobrasma chegou a faturar coisa de 470 milhões de dólares por ano. Em 1975, produziu quase 1.500 vagões para entregar para o governo. E o faturamento alto não foi exclusividade da empresa dos Vidigais. O Edson Teles de novo.
Edson Teles - Ao apoio à construção da ditadura, a estruturação do processo repressivo, tinha um pagamento que eram os benefícios econômicos. Todas elas cresceram entre o final dos anos 60 e durante os anos 70 e início dos anos 80. Esse benefício se dava através dos bancos estatais. BNDE, por exemplo, você acha uma série de documentos em que, no mesmo momento em que uma polícia militar, uma força paramilitar e a empresa estão se alocando num território, por exemplo, dentro de uma reserva indígena, o BNDE está transportando para as contas da empresa um mega empréstimo com regras econômicas totalmente fora do mercado.
Sumaia - Bom… Com a abertura democrática, os contratos da Cobrasma com o governo foram suspensos, a empresa se endividou e em 1998 a fábrica encerrou as operações.
Eliane - Já o irmão de Luiz Eulálio, o Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, do Banco Mercantil, morreu em 2001, aos 82 anos, como um dos homens mais ricos do país.
Leitura - Folha de S.Paulo, 8 de agosto de 2001 - Vidigal era um dos homens mais ricos do país, com uma fortuna estimada em US$ 1 bilhão. Começou sua carreira no banco controlado por seu pai, Gastão Vidigal.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia - Nos últimos anos os herdeiros dos Buenos Vidigais saíram um pouco dos holofotes. Mas Brasil, né gente…
Sobe som🎶
Eliane - A família voltou para as manchetes em 2019 quando um outro banco do clã, o Banco Paulista, criado em 1990 por Álvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gastão Vidigal, foi investigado pela Operação Lava Jato, acusado de lavar R$ 48 milhões para a construtora Odebrecht.
Nós entramos em contato com a assessoria de imprensa do Banco Paulista e perguntamos se alguém da família toparia falar sobre a tradição escravista como fonte de origem da riqueza do clã e se, depois de 60 anos da ruptura democrática que resultou na ditadura militar, teriam interesse em fazer uma revisão sobre o apoio dado por integrantes da família ao regime de opressão. Também perguntamos sobre as acusações feitas pela Operação Lava-Jato. A assessoria de imprensa do banco esclareceu apenas que o atual presidente do Banco Paulista, Guti Vidigal, não é herdeiro direto do banqueiro que financiou a Oban e nem tem relações com a Cobrasma.
Sumaia -Também entramos em contato com a direção da Cobrasma para falar com Luís Eulálio Vidigal e fizemos as mesmas perguntas. Também questionamos sobre a ocupação da fábrica pelo exército em 1968, o crescimento da empresa durante a ditadura e o encerramento das atividades fabris a partir da abertura democrática.
Eliane - Não houve resposta para nenhuma das nossas questões.
Sobe som🎶
Sumaia - Os Vidigais são só um exemplo de um país em que o elevador social tá quebrado. Por aqui, uma pessoa que nasce pobre precisa de umas nove gerações pra chegar na classe média. Algo como uns 300 anos. Quem fez essa conta foi a OCDE, um fórum formado por 38 países que é conhecido como clube dos ricos. Brasil, Colombia e África do Sul são destaques no carro alegórico da imobilidade social.
Sobe som🎶
Eliane - E nesse elevador que não funciona, quem tá no topo não mede esforços pra continuar por lá. Perguntei sobre isso pro professor Ricardo: A mobilidade aqui parece ser até menor do que nas castas da Índia, né?
Ricardo Oliveira - É menor, Eliane. Uma vez, uns anos atrás, até fiz um levantamento comparando o Congresso brasileiro com o poder legislativo na Índia. E o Brasil tinha muito mais famílias políticas, continuidades e nepotismo que na Índia. Que na Índia também, a sociedade de castas, brâmanes... Mas lá eles até tinham cotas, por exemplo, para Dalits, os intocáveis. Eles ainda procuram… E o Brasil é mais terrível a concentração de poder.
Sumaia - E a gente tá falando isso porque assim como os Vidigais não estavam sozinhos no projeto de golpe que levou os militares ao topo para evitar mudanças que poderiam diminuir as desigualdades, também não são os únicos que há séculos vem acumulando riqueza a partir da exploração do trabalho alheio.
Eliane - E aí, a gente foi atrás de quem eram os empresários que também apoiaram o golpe e o regime dos militares e que, também, como os Vidigais, também herdaram fortunas construídas com o trabalho escravo. E sabe o que a gente descobriu?
Sumaia -Que dois de cada três empresários que estão documentados como apoiadores do regime de opressão são herdeiros de famílias escravocratas.
Trilha do podcast 🎶
Sumaia - Peraí que a gente vai te contar como chegamos nesse número.
Eliane - Vamos voltar pro relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Especificamente pro capítulo com o título Civis que colaboraram com a ditadura. Lá estão listadas as empresas que financiaram a ditadura de diferentes formas.
Sumaia - E dos 62 empresários que nós conseguimos refazer a árvore genealógica, pelo menos 40 são de famílias de senhores de escravos.
Ricardo Oliveira - Grandes empresários, como esses que vocês levantaram da Comissão Nacional da Verdade, a gente verifica a genealogia familiar e aí é claro, desde o início do século XX, século XIX, século XVIII, e o que nós observamos, é uma constatação, que a classe dominante tradicional no Brasil tem um núcleo duro desde o período colonial em todas as regiões. E é claro, quando a gente volta algumas gerações, não precisa nem ir muito longe, às vezes um avô ou bisavô, de quem nasceu em 1950, você tá já no senhoriato escravista das suas regiões.
Eliane - Geralmente sobrenomes famosos como o da família Guinle de Paula Machado, que já foi dona do Porto de Santos inteiro. Batista Figueiredo, que além do último ditador militar, também tinha entre seus herdeiros o vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo, a família Beltrão,a Magalhães, a Frias… E por aí vai…
Sumaia - E, olha, a gente tem certeza que o número pode aumentar. Primeiro porque só entrou na lista quem a gente conseguiu confirmar mesmo os antepassados, checando certidão de nascimento, atestados de óbito, livros de batismo… E tiramos quem era filho ou neto de imigrantes recentes como os italianos e alemães. Mas, olha, entre esses encontramos também quem se uniu a famílias escravocratas.
Ricardo Oliveira - Parece que é um nome da imigração, é um nome que tem algumas décadas no Brasil, mas eles enriquecendo ou no poder político, há uma lógica de casamentos com essa classe dominante tradicional. E aí eles reproduzem pelo lado materno essa mesma formação. Mas é uma relação sociológica direta e fundamental entre poder político, poder empresarial e classe dominante tradicional. E quem é emergente, ascendeu, vai casar, ele ou filhos e netos, é 100 % praticamente, porque rico casa com rico, poderoso casa com poderoso, e quem chega nesse grupo social, na classe dominante começa a conviver, é claro, instituições, clubes sociais de elite, jóqueis, iates, clubes, sociedades rurais, e aí todos vão se entrosando e casando. É um enredo genealógico familiar de longa duração e que está presente em todo o poder político. A exceção que é raríssima é alguém que venha de fora.
Sobe som🎶
Ricardo Oliveira - E para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias.
Sobe som🎶
Aloysio Clemente Breves - Meu nome é Aloysio Clemente Breves. Eu faço questão do Clemente porque na minha família, meus irmãos todos são Aloísio. Os nomes são extensos, muito grandes. Por exemplo, meu nome é Aloysio Clemente Maria Infante de Jesus Breves Beiler. E meus irmãos, a Luís, o Saulo, a mesma coisa, só muda o segundo nome.
Eliane – Pra simplificar: Aloysio Clemente Breves. Descendente de Joaquim Breves, o "Rei do Café".
Clemente Breves - Essa tradição de nomes longos, e às vezes a repetição de nomes, era muito comum no século XIX. O rei do café, Joaquim José de Sousa Breves. O irmão, José Joaquim de Sousa Breves. Primeiro filho, o mesmo nome do pai, só acrescentava o "Filho". O neto: o nome do pai e do avô. Quando você pega o histórico, genealogia das famílias, é uma coisa de doido, né? Mas, fazer o quê? Fora a alta consanguinidade. O casamento entre primos-irmãos, tio com sobrinha... tinha muito. Então, por exemplo, o Joaquim casou-se com a sobrinha, filha da Baronesa do Piraí. Tio da própria mulher. Uma confusão terrível. Então todos eles faziam isso objetivando o acúmulo de patrimônio, a não dispersão do patrimônio fora da família.
Sumaia – E olha, Aloysio Clemente não é descendente apenas do Rei do Café. Joaquim Breves foi o maior traficante de africanos do Império.
Eliane – A gente ouviu o Clemente Breves pela primeira vez no Projeto Quirino, o podcast que tem o jornalista Thiago Rogero à frente e que, se você ainda não ouviu, por favor, pode maratonar que é uma aula de história — mas só depois que terminar o Perdas e Danos, por favorzinho. Mas voltando aos Breves.
Clemente Breves - O nome Breves domina o cenário. Brigas, processos, crimes, tudo que você pode imaginar. Fora o tráfico de escravos pesado, principalmente pelo Joaquim. Ele é considerado o maior traficante de escravos do Brasil na época do Império. E uma característica: ele viveu muito. Ele chegou aos 80 e poucos anos de idade. Isso se reflete na vida dele, porque ele não parou a atividade. Lei Eusébio de Queiroz...
Sumaia – ... que proibiu o tráfico de escravizados.
Clemente Breves - Entendeu? Ele pouco se importava com isso. Ele continuava na atividade, comprando fazenda e trazendo africanos associados a diversas pessoas. Acumulou uma fortuna.
Eliane - O que o Clemente tem de diferente de muita gente com origens parecidas com a dele é que ele decidiu abrir o baú e trazer a público o passado da família.
Clemente Breves - O que o Joaquim fazia? Ele comprava terras. Comprava, tomava, era muito poderoso, e plantava. E com isso ele derrubava matas, ele destruía a terra para aproveitar aquela terra fresca, rica em húmus ainda, para plantar o café. o café dava uma grande safra. E para isso ele precisava de mão de obra. Qual era a mão de obra? O português não queria pegar no pesado, então trazia da África. E com isso ele produziu grandes safras. Em 1860 ele foi o maior produtor do mundo de café.
Sumaia - E ao abrir o passado, Clemente transformou o que era um incômodo pra ele em incômodo pra todo mundo que tenta apagar essa história.
Clemente Breves - Cresci ouvindo essas histórias. Isso me incomodava muito, muita curiosidade em saber. Mais tarde eu resolvi pesquisar mais a fundo, aí fui à Biblioteca Nacional… Aí encontrei um universo de informações da época. Eu falei: ‘não, eu vou contar essa história’. E coloquei na internet lá em 1996, no site breves.café. E teve boa repercussão, muita gente não sabia da história. É o que hoje eles chamam de apagamento: ‘Olha, escravidão não é negócio bom, entendeu? Então vamos embranquecer o preto e vamos esconder a escravidão, né?’ A história da família Breves é uma história que chega a ser bizarra, patética, você usa o nome que você quiser. Eu acho que o meu papel é mostrar o que de fato aconteceu. É bom ou ruim? É isso que acontece. Muita gente da família Breves não gosta disso. Vou ser sincero. ‘É um tema que você não deve tocar’. ‘Olha, meu filho, não vou tocar porque? Porque um parente não gosta?’ Se fosse mentira, tudo bem. Mas não é mentira. Não é mentira. Se você não tiver o alicerce do passado, você tende a cometer erros que você não imaginava. E para você cair num erro desse, é muito fácil.
Eliane - Sem o alicerce do passado, a tendência é repetir os erros… Para Marciano Monteiro foi o que aconteceu em 2016.
Marciano Monteiro - Todas as vezes e no Brasil tentou-se amenizar o processo de construção das desigualdades, quer seja com as reformas de base construídas lá anteriormente a 64, quer seja com as políticas inclusivas, nos governos, Lula e já com o governo do próprio Fernando Henrique Cardoso. Com o golpe recente ocorrido no Brasil, nós tivemos uma clareza de que a luta era, portanto, pela manutenção dos privilégios de uma pequena parcela da população que historicamente tem se beneficiado do estado brasileiro
Sumaia - Buscar os alicerces no passado para reconstruir a memória…
Efeito sonoro 🎶 Voz do Google com endereços.
Marciano Monteiro – Na verdade, não é tão somente sobre ruas. É sobre lugares de memória. É como as avenidas, estádios, hospitais, escolas... elas são demarcadas por nomes dessas famílias tradicionais. As disputas políticas não se dão tão somente entre os vivos. As disputas políticas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Então, o porquê de colocar o nome de uma avenida extremamente importante com o nome do meu bisavô? É porque isso alimenta o que nós denominamos de capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer: "Esta avenida é em homenagem ao meu bisavô". Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e do ponto de vista da representação, que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e não tem referências. "Quem é você?". E percebamos: no caso das pessoas que foram historicamente escravizadas, o que mais tentaram destruir foi exatamente a memória dos seus antepassados. Porque quando você destrói a memória, você não tem mais referência. Então engana-se quem pensa que o Vidigal morreu. Ele morreu para um ingrato, mas para muitos, ele continua vivo na memória.
Efeito sonoro 🎶 - Som do apito da Cobrasma
Eliane - Sabe o funcionário da Cobrasma que deu o sinal pra começar a greve em Osasco? Inácio Pereira Gurgel.
Inácio Pereira Gurgel - Nasci em Garanhuns, Pernambuco, aos 12 de agosto de 1934. Uma vida muito sofrida, mas… Muito humilde, mas muito forte, tá?
Sumaia - Um homem negro, pernambucano e que além de metalúrgico e sindicalista, também foi poeta e ator. Ele já morreu e anos depois, em 2013, virou parque.
Necão Gurgel - Eu tô num lugar que chama parque ecológi… parque escola ecológico Inácio Pereira Gurgel, que é o meu pai.
Eliane - Um pedacinho bem pequenininho de mata atlântica num bairro boêmio de Osasco, com um lago bem pequenininho e uma creche pública na entrada.Necão Gurgel - eu sonhei com o meu pai. Toda vez que eu sonho com ele, eu venho aqui. Meu pai foi um grande homem. Eu sinto muito a… Meu pai já faleceu, meu pai já partiu, faz um tempo já e eu sinto muito a falta dele, muita.
Sumaia - E esse é um trecho de um vídeo que o filho do Inácio, Necão Gurgel, postou no instagram, no dia do show dos 80 anos de Alceu Valença em São Paulo.
Necão Gurgel - hoje eu vou ver o Alceu. Eu vou no show do Alceu Valença. E o primeiro show que eu fui na minha vida, aos cinco anos de idade, foi do Alceu. Meu pai adorava o Alceu. Adorava. Adorava. Mas meu pai, da música do norte e nordeste do Brasil assim… Era meu pai. Vou lembrar muito dele.
Sobe Som 🎶 Anunciação
Eliane - Lembrar muito dele….
Sumaia - Lembrar… Lembrar é uma disputa política e também é uma forma de reparação
Eliane - E a tarefa de reparar um pouquinho que seja as violações da ditadura um grande desafio que o Brasil ainda precisa enfrentar. Alguns países já conseguiram fazer isso. A Argentina e o Chile com suas ditaduras por exemplo, a Alemanha com as vítimas do nazismo…
Sumaia - No Brasil, o negócio não caminhou tão bem. Mas tem uma trilha que está levando a resultados possíveis. E foi a trilha que a gente pegou no começo de tudo, quando essa temporada ainda era uma ideia. Melhor - era uma vontade.
Trecho do próximo episódio - A primeira iniciativa foi realmente reorganizar a Comissão da Anistia, começar a fazer sessões públicas de julgamento. As Caravanas da Anistia que permitiam que nós circulássemos pelo país, dando visibilidade a voz das vítimas, em escolas, nas praças públicas, num processo de educação da população para a democracia, Uma iniciativa que foi original, inédita no Brasil que até hoje é reconhecida internacionalmente. Uma pena que foi destruída e ainda não foi recomposta.
Eliane -Mas voltando à trilha. Ela surgiu a partir de um caminho de sementes que foram plantadas aos poucos por tantos personagens que passaram ao longo dos nossos episódios.
Sumaia -No próximo e último episódio de Passado Leiloado, vamos contar como foi essa jornada em busca de memória, verdade e justiça, e como as empresas podem ser, enfim, convocadas a reparar as perdas e danos causados pela ditadura que ajudaram a manter.
🎵 Encerramento 🎵
Eliane -Essa é a segunda temporada do podcast Perdas e Danos, uma produção original da Radioagência Nacional, veículo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Sumaia - Os episódios são liberados todas as quartas-feiras no site da Radioagência Nacional e no seu tocador de podcast de preferência. Ah, e em libras no YouTube.
Eliane - Então já salva nosso perfil e não esquece de usar a ferramenta de avaliação da plataforma se você gostou do que ouviu até aqui. Isso nos ajuda a chegar em mais gente.
Sumaia - Esse podcast é idealizado e narrado por Eliane Gonçalves e Sumaia Villela. A concepção de pauta dessa segunda temporada é minha. A Eliane desenhou a primeira temporada.
Eliane - A nossa dobradinha segue em todas as etapas do projeto: pesquisa histórica, produção, entrevistas, roteiro, montagem e pós-produção no geral.
Sumaia - A edição e divulgação nas plataformas é da Beatriz Arcoverde.
Eliane - A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio foram feitas pelo Jailton Sodré, a partir das composições gentilmente cedidas pelo nosso colega, Nelson Lin. E a voz da vinheta do Perdas e Danos é da Marli Arboleia.
Sumaia - Já a identidade visual e a arte são assinadas pela Caroline Ramos.
Eliane - Gudryan Neufert fez as leituras dos jornais e Leandro Calixto os documentos oficiais.
Sumaia - A versão do episódio em Libras, divulgada no YouTube, é feita pela equipe da EBC.
Eliane - Usamos material histórico do acervo da EBC; do Arquivo Nacional; do Acervo do FamilySearch,do Museu da Pessoa, do Dicionário de Ruas de São Paulo, do Acervo Online do Memórias Resistentes, do Acervo Digital da Memória Fonográfica do Mato Grosso do Sul. Também usamos trechos dos documentários Greve de 68 de Luís Guevara Mora e Cidadão Boilesen de Chaim Litewski. Da música Casa Véia, da Banda de Pife Esquenta Muié, do Batuque do Escravo, registrado por Walter Lima e Zélia Lessa, do Canto Tupinambá Canide Ioune, da música No tempo da escravidão do Mestre João Grilo, de Xibombombom das Meninas, Anunciação de Alceu Valença e Capitão do Mato de Douglas Germano, tudo com fins jornalísticos.
Sumaia Agradecemos a Jaime Rodrigues, Marciano Monteiro, Thiago Campos, Michely Cordão pela ajuda com contatos, informações e apoio em geral.
Eliane - E principalmente obrigada a você que nos ouviu até aqui. Se puder tirar um tempinho para contar o que achou do podcast, agradecemos muito.
Sumaia Por favor, deixe uma mensagem em perdasedanos@ebc.com.br ou ouvidoria@ebc.com.br. Também tem o site ebc.com.br/ouvidoria. Também dá para fazer uma manifestação em Libras para o número (61) 99862-1971
🎵 Vinheta de Encerramento 🎵
| Apresentação, idealização, reportagem, roteiro, pesquisa histórica, produção, entrevistas, pós-produção e montagem | Eliane Gonçalves e Sumaia Villela |
| Edição e divulgação nas plataformas | Beatriz Arcoverde |
| Voz do título do podcast | Marli Arboléia |
| A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio | Jailton Sodré |
| Composições para identidade sonora foram cedidas pelo músico e colega do EBC | Nelson Lin |
| Arte | Caroline Ramos |
| Interpretação em Libras: | Equipe EBC |
| Leitura dos documentos e trechos de jornais | Gudryan Neufert e Leandro Calixto |
| Pesquisa histórica: | Acervo da EBC; Arquivo Nacional; Rádio Jornal do Brasil; |
| Agradecimentos: | Jaime Rodrigues, Marciano Monteiro, Thiago Campos, Michely Cordão |
| Implementação na Web: | Beatriz Arcoverde e Lincoln Araújo |
| Músicas com fins jornalísticos | Casa Véia, da Banda de Pife Esquenta Muié; Batuque do Escravo, registrado por Walter Lima e Zélia Lessa; Canto Tupinambá Canide Loune, No tempo da escravidão do Mestre João Grilo, Xibombombom das Meninas, Morena Tropicana de Alceu Valença e Capitão do Mato de Douglas Germano |