Podcast abre "caixas-pretas" de multinacionais que atuaram na ditadura
O segundo episódio da 2ª temporada do podcast Golpe de 1964: Perdas e Danos, produzido pela Radioagência Nacional, mergulha em um terreno sensível e, por décadas, mantido sob sigilo: a colaboração financeira e estratégica de grandes multinacionais com o regime militar brasileiro. Sob o título "Caixas Pretas", o episódio investiga como marcas consagradas no mercado nacional estiveram envolvidas com o aparato de repressão e lucraram com as grandes obras da ditadura.

A investigação revela conexões que vão desde o apoio financeiro direto à Operação Bandeirantes (Oban) — centro de tortura e morte em São Paulo — até estratégias agressivas de mercado.
Um dos destaques é a atuação da Nestlé. O episódio resgata documentos do Arquivo Nacional que comprovam doações para institutos que prepararam o terreno para o golpe de 1964 e cita o relatório da Comissão Nacional da Verdade sobre o financiamento empresarial à Oban. Além disso, o podcast aborda o "marketing do leite em pó", que na década de 70 desestimulou o aleitamento materno em países em desenvolvimento.
O episódio também conta um pouco da trajetória da Brown Boveri (atual ABB) e a participação estratégica no consórcio da Itaipu Binacional. A investigação detalha como o orçamento da usina deu um salto astronômico, saindo dos U$ 2 bilhões previstos para mais de U$ 25 bilhões, em um cenário marcado por denúncias de propinas e as chamadas "gorjetas" para garantir fatias na obra.
No entanto, o caminho para a verdade ainda encontra barreiras, principalmente de acesso aos arquivos das empresas . E abrir essas caixas-pretas dá oportunidade de conhecer de forma mais profunda este período nefasto da nossa história, que retirou direitos, perseguiu pessoas, acumulou riquezas e ampliou a desigualdade social.
💬 Você pode conferir, no menu abaixo, a transcrição do episódio, a tradução em Libras e ouvir o podcast no Spotify,.
PERDAS E DANOS - 2ª TEMPORADA: Passado Leiloado
Episódio 2 - Caixas Pretas
Sobe som🎶
Eliane Gonçalves – Caixas pretas. Elas servem pra explicar porque as coisas desandaram a tal ponto que o que era pra ser um vôo virou desastre. Quando abertas, elas mostram o que foi feito ou não foi feito, o que deixou de funcionar, se o erro foi do piloto ou foi uma falha mecânica do avião. E elas não revelam o passado à toa. Abrir uma caixa preta têm um objetivo bem prático: evitar outros acidentes.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia Villela – É justamente pelo que revelam depois de abertas, que as caixas pretas também são usadas pra falar do que ainda tá em segredo, do que é sigiloso, do que não é transparente…
Eliane – Por isso, caixa preta é uma expressão que traduz bem a relação entre as empresas e a ditadura militar.
Sumaia – Algumas dessas histórias até já começaram a ser reveladas. É o caso da Volkswagen que monitorou e ajudou a prender seus funcionários. Ao menos um deles foi torturado dentro da fábrica.
Sumaia – Oi, eu sou Sumaia Villela.
Eliane – E eu sou Eliane Gonçalves. E esse é o Perdas e Danos, o podcast que nessa segunda temporada investiga quem lucrou com a ditadura militar no Brasil.
Sumaia – Bom, no primeiro episódio a gente foi atrás da engrenagem que ajudou a Suíça a turbinar o PIB dela fazendo parcerias com o regime autoritário. Agora, a gente avança pras pessoas jurídicas, para tentar abrir as caixas pretas que ajudam a explicar como algumas multinacionais lucraram com a opressão.
Vinheta do podcast 🎶
Comerciais da Nestlé 🎶- O novo Nescau é vitaminado e é leve… Você faz maravilhas com o Leite Moça.... Fique em paz com a sua consciência. Para os seus exija o melhor. Leite Ninho, garantia Nestlé.
Sumaia – Ela nem precisa de apresentações, porque a gente tem certeza que você sabe do que estamos falando, né? A Nestlé tinha - quer dizer - tem muito interesse no mercado brasileiro. A maior indústria de alimentos do mundo é suíça. Aqui no Brasil ela vende de papinhas de bebê a bombons, passando por ração de cachorro.
Efeito sonoro 🎶
Eliane – Dá pra dizer que todos os brasileiros são potenciais consumidores da marca. Talvez, bem mais do que potenciais, na verdade. No site, a própria empresa diz que está em 99% das casas brasileiras e tem pesquisa mostrando que a marca é a segunda mais lembrada no Brasil.
Sumaia – Parece doce, mas com o perdão do chavão, é amargo. A Nestlé acumula histórias bem controversas, como o marketing agressivo para vender leite em pó no lugar da amamentação.
Marina Rea – A Nestlé utilizou principalmente promoções comerciais bastante efetivas no começo da vida.
Eliane – Essa é Marina Rea, ela é médica, pesquisadora, já foi conselheira da OMS, a Organização Mundial de Saúde, e é uma das fundadoras da rede Ibfan, a Rede Internacional pelo Direito de Amamentar.
Marina – A promoção comercial dentro da maternidade foi uma coisa vergonhosa que a Nestlé fez. Então, como a Nestlé convence as mães que esse era o melhor produto? Primeiro, botando como disponível. Se você não disponibiliza, é claro que a pessoa nem vai conhecer. A outra questão é essa forma de entrar nas maternidades, onde os bebês nascem. E buscar nos médicos um parceiro, né? Entrando nas universidades era ótimo, porque os estudantes são jovens e peças de né? Para fazer a cabeça deles, é…
Sumaia – Representantes comerciais dentro das universidades, médicos prescrevendo leite em pó, distribuição gratuita nos primeiros dias de vida, atrapalhando a amamentação… A fórmula foi fatal. Em 1974, uma organização social da Inglaterra chamada War on Want publicou um relatório batizado como The Baby Killer. Em tradução livre, algo como Assassino de Bebês. E acusou as indústrias, começando pela Nestlé, de provocar a morte de crianças em países pobres.
Eliane – Hoje em dia, a empresa segue metida em controvérsia. Em 2024, uma ONG suíça, a Public Eye, mostrou que produtos que a marca oferece pras crianças de países pobres são mais açucarados que os que vão pras crianças ricas. Marina participou da pesquisa.
Marina – Aqui nós fizemos com Mucilon. Ficou claro que nosso… o nosso produto. Tinha mais açucar… nosso, só não, né? Da Índia, também do México também… Mais açúcar comparado com o Mucilon vendido na Suíça, vendido na Inglaterra. Nos países desenvolvidos, eles não põem essa quantidade de açúcar. A Nestlé. Essa é uma denúncia de hoje. Quer dizer, a empresa continua desse jeito.
Sumaia – Com escândalo e tudo, a Nestlé entrou no Brasil para ficar e consolidou a marca por volta de 1970. E quem estava no comando do bonde Brasil nessa época? Justamente os militares. A multinacional suíça não perdeu a carona.
Efeito sonoro 🎶
Eliane – A Sumaia tá falando do ditado Don't Miss The Bus, que virou nome de livro pra falar dos interesses da Suíça no Brasil. Falamos disso no primeiro episódio e se você não ouviu, vale a pena voltar lá. Mas depois de ouvir esse aqui até o final, tá?
Sumaia – Definitivamente, a Nestlé não perdeu o bonde. De 1971 a 75, a rentabilidade da empresa no Brasil praticamente dobrou. Em pleno milagre econômico, o crescimento médio do PIB tava na casa dos 9% ao ano. Bem alto pros padrões atuais. Mas o faturamento da Nestlé conseguia ser ainda maior: na casa dos 12%.
Efeito sonoro 🎶
Eliane – E se tem um segredo que segue bem guardado é a interferência da gigante do setor de alimentos na política interna dos países onde ela tem interesse econômico.
Trecho em Francês – (...) c'est-à-dire que pour chaque franc investi au Brésil -c'est ...
Sumaia – O que você tá ouvindo é um trechinho do discurso que o ativista Jacques Depallens fez, em 1971, para denunciar as violações de direitos humanos no Brasil dos militares. A polícia da Suíça tava de olho em quem criticava a proximidade do país com a ditadura. Bom, o discurso dele foi transcrito, foi parar num relatório policial, no episódio 1 desse podcast e, agora, estamos trazendo ele pra cá também. Porque… Adivinha o nome da empresa que Jacques Depallens aproveitou para denunciar…
Trecho em Francês – Le Brésil permet de réaliser des sur-profits. Beaucoup d'usines, notamment Nestlé ou autres, sont amorties en un ou deux ans, ce qui suppose des profits de 50 à 100% par année.
Tradução – O Brasil permite lucros gigantescos. Muitas fábricas, especialmente a Nestlé, mas outras também, quitam os investimentos em um ou dois anos, e isso implica em lucros de 50% a 100% ao ano.
Efeito sonoro 🎶
Eliane – A gente foi atrás dessa história. E encontramos pistas da simpatia da Nestlé com a ditadura brasileira. Como as contribuições pro IPES, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, uma espécie de Brasil Paralelo da época que ajudou a preparar o terreno pro golpe de 64 e continuou atuando em colaboração com a ditadura depois.
Sumaia – O Arquivo Nacional tem os recibos que comprovam o apoio financeiro da empresa ao golpismo...
Efeito sonoro 🎶
Eliane – A empresa deixou poucas pistas dessa relação, tá. Mas o que encontramos levam para um capítulo bem sombrio dos livros de história: a Oban, Operação Bandeirantes.
Sumaia – A operação criada em 1969 para centralizar as ações contra os movimentos de oposição à ditadura. O maior aparato de tortura e morte da história recente do Brasil.
Sobe som🎶
Dirceu Antônio – A Operação Bandeirantes tinha uma estrutura precária.
Eliane – Esse é Dirceu Antônio, ex-agente da Oban.
Dirceu – Tanto é que tinha o chefe e dois subordinados que era eu e outro sargento. Que coordenava as equipes, coordenava tudo.
Sumaia – O ex-agente foi entrevistado para o filme Cidadão Boilesen, um documentário que, se você não viu, vale a pena ir atrás. A Oban começou como se fosse uma espécie de organização paramilitar. Antes, era apenas uma delegacia cedida pelo governo do estado que ficava num bairro residencial da classe média alta paulista e a quatro minutos da sede do Segundo Exército. Mas ganhou musculatura com a ajuda extraoficial dos empresários.
Eliane – Quem detalhou isso pra gente foi o jornalista e ex-preso político Ivan Seixas. Ele trabalhou na Comissão Nacional da Verdade de São Paulo exatamente com o tema da colaboração de empresas com a ditadura.
Ivan Seixas – A Oban foi criada como uma operação. Não era uma entidade do Estado. Foi articulada com empresários, Exército e governo estadual. Apesar de ser uma ação ilegal, ela legalmente não existia, mas era pública. O governador de São Paulo, Abreu Sodré, participava das reuniões, saía dizendo que estava sendo criada a Operação Bandeirante. O comandante do II Exército, Canavarro Pereira, fala em nome da Operação Bandeirante. Então a Oban é uma experiência ilegal, mas pública, que depois é transformada numa estrutura militar, já abrangendo as outras duas Forças Armadas.
Sumaia – A Oban virou, depois, o DOI-CODI, principal braço de repressão da ditadura. Sabe o Carlos Alberto Brilhante Ustra?
Sobe som🎶 Discurso Bolsonaro elogiando Ustra
A gente pode dizer que ele é o mais famoso torturador do regime militar. Pois é, comandou o DOI-CODI em São Paulo. A gente ainda vai se aprofundar nessa estrutura ao longo da temporada, então guarda esses nomes.
Eliane – Vamos ouvir outro trechinho de Cidadão Boilesen. Agora você ouve o Coronel Erasmo Dias.
Erasmo Dias – Operações Oban… Precisamos disso, disso, disso. Isso nós temos. Isso nós não temos. E quem pode arrumar pra gente? Pode arrumar pra gente o Vidigal, pode arrumar pra gente… Ele tem relação aí fora… Então dois ou três civis de peso desse, de respeito, servia de ponte com os outros. Então muita gente cooperava.
Sumaia – Muita gente cooperava… Gente com bala na agulha. Empresários de empresas nacionais e multinacionais.
Erasmo – E o apoio pra nós era importante. Não só com informação, com estrutura. Era pra nós uma participação que interessava. Porque era o meio civil que tava se mobilizando. Porque afinal de contas, sozinho você não ganha guerra nenhuma.
Sobe som🎶
Eliane – E foi assim, que a fábrica suíça de chocolates e a máquina de moer gente aqui no Brasil se encontraram.
Efeito sonoro 🎶
Eliane –O registro está na página 330 do Volume 2 do relatório da Comissão Nacional da Verdade. Abre aspas:
Efeito sonoro 🎶
Eliane – “Ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo, antiga residência da senhora Viridiana Prado, durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban. Também colaboraram multinacionais como a Nestlé, General Electric, Mercedes Benz, Siemens e Light”.
Eliane – Fecha Aspas.
Sumaia – Bom, esse e outros encontros foram negados por Delfim Netto, em 2013, quando ele depôs na Comissão da Verdade de São Paulo. Nessa ocasião, Delfim ainda jurou que não sabia que a Oban era um aparato de tortura.
Eliane – Mais de 60 anos depois do golpe, empresas e empresários ainda mantêm essa história em arquivos bem fechados.
Efeito sonoro 🎶
Eliane – A Nestlé entre elas.
Sumaia – Foi pra tentar abrir essa caixa preta, que a gente foi atrás da Gabriella Lima, a pesquisadora da Universidade de Lausanne na Suíça, que você já conheceu no primeiro episódio.
Eliane – Só que ela deu com a cara na porta.
Gabriella Lima – A Nestlé, ela me recusou o acesso três vezes aos arquivos da Nestlé. Na verdade, quando eu estava escrevendo foi no momento do Covid. As primeiras negações deles, o pretexto era pandemia, estava fechado o arquivo. Então ninguém vai poder vir. Aí, seis meses depois que abriu tudo, então assim, eu relancei tipo: ‘pronto, agora está tudo aberto. E aí, vamos marcar uma visita?’ Nada, nada, nada, nada.
Eliane – Bom… transparência nunca foi exatamente o forte da gigante de alimentos ultraprocessados.
Sumaia – Nessa tentativa de abrir a caixa preta da Nestlé, uma voz chamou nossa atenção.
Efeito sonoro 🎶
Oswaldo Ballarin - We give all the instructions...
Eliane – Esse é o Oswaldo Ballarin, presidente da Nestlé Brasil, numa audiência pública que aconteceu em 1978, no Senado dos Estados Unidos.
Edward Kennedy – Do you think that your product ought to be used in areas where there's illiteracy? [Baixar bg aqui] Where there is illiteracy? People can't read?
Sumaia – E quem tá interrogando ele é o senador Edward Kennedy.
Efeito sonoro 🎶
Oswaldo Ballarin x Edward Kennedy - Edward – Do you think that your product ought to be used in areas where there's illiteracy, vast illiteracy? Oswaldo – wha… Edward – Where there is illiteracy? Oswaldo – well… Edward – People can't read? Oswaldo – But that is very difficult to control Senator because you go in a region and they are not all illiterate. They are some who are. How can you control that the product goes to one rather than to the other. Edward – Well… as I understand, but you said is that impure water it should not be use Oswaldo – Yes.
Oswaldo Ballarin x Edward Kennedy - Edward – Você acha que seu produto deveria ser usado em áreas onde há analfabetismo, um analfabetismo generalizado? Oswaldo – o quê? Edward – Analfabetismo: quando as pessoas não sabem ler? Oswaldo – Mas isso é muito difícil de controlar, Senador, porque você vai a uma região e nem todos são analfabetos. Alguns são. Como você pode controlar que o produto vá para um lugar e não para o outro? Edward – Bom… Se eu entendi, o que o senhor disse é que água não potável não deve ser usada. Oswaldo – Sim..
Eliane – O senado dos Estados Unidos investigava a responsabilidade da indústria alimentícia pelos altos índices de mortalidade infantil pelo uso de leite em pó.
Oswaldo Ballarin x Edward Kennedy - Edward – And my final question is: what do you do? Or what do you feel is your corporate responsibility to find out the extent of the use of your product in those circumstances in the developing part of the world? Do you feel that you have any responsibility? Oswaldo – We can't have that responsibility, May I make a reference to... Edward – You can't have that responsibility? Oswaldo – No!
Oswaldo Ballarin x Edward Kennedy - Edward – Minha pergunta final é: o que você faz? Ou… qual você acha que é a responsabilidade corporativa para descobrir a extensão do uso do seu produto nessas circunstâncias, nos países em desenvolvimento? Você acha que tem alguma responsabilidade? Oswaldo – Não podemos ter essa responsabilidade. Posso fazer uma referência a... Edward – Vocês não podem assumir essa responsabilidade? Oswaldo – Não!
Sumaia – A investigação abriu caminho pro Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno que proibiu a publicidade de produtos para substituir a amamentação…. Mas voltemos ao representante da Nestlé, Oswaldo Ballarin.
Eliane – Enquanto o senador pressionava o executivo da Nestlé nos Estados Unidos, aqui no Brasil, Oswaldo Ballarin dava aulas na faculdade de medicina para a então estudante Marina Rea…
Marina Rea – O Ballarin deu aula na minha faculdade. Sobre fórmulas infantis. Convidado pela USP. Eliane – Ele não era médico… Marina – Não. Ele era um cara que financiava reuniões, né? E aí em troca, convidava ele para vir lá lançar os novos produtos: ‘novas fórmulas que vamos lançar’. Aí aparecia ele lá. Terrível.
Sumaia – Bom, Marina Rea se formou. E, a despeito do lobby, virou referência na luta pelo direito à amamentação. Já Ballarin, além das, entre aspas, “aulas para estudantes de medicina”, também participava de convescotes com os ditadores que buscavam apoio financeiro para a repressão. Uma reportagem de 2013 dos jornalistas José Casado e Chico Octávio conta das homenagens organizadas por militares e empresários para celebrar a parceria na Oban.
Efeito sonoro 🎶
Leitura do Jornal - O Globo, 10 de março de 2013 – Em São Paulo, generais e empresários esmeravam-se na lapidação de seu relacionamento com reuniões e solenidades cada vez mais frequentes. Na terça-feira, 9 de dezembro de 1970, por exemplo, o chefe do Estado-Maior do II Exército, general Ernani Ayrosa, abriu o quartel para homenagear alguns dos seus mais destacados colaboradores.
Eliane – Pra gente não se perder: General Ayrosa, o General que comandava o QG do Exército que ficava a 4 minutos da sede da Oban. E aí, na lista dos tais colaboradores convidados para a homenagem, lá está Oswaldo Ballarin, da Nestlé. De novo, a Gabriella.
Gabriella – Ballarin… Ele fez, tipo, de tudo.
Sumaia – Ballarin era mesmo famoso pela facilidade de trânsito nas altas esferas do governo brasileiro e isso fez dele um tipo de embaixador de empresas suíças no Brasil:
Gabriella – Depois de 40 anos de carreira na Nestlé, ele vai ocupar a presidência da Brown-Boveri, que é ABB, o acrônimo da Brown Boveri, Indústrias Elétricas Brown-Boveri, que é a filial do Brasil. Nesse mesmo ano, he vai entrar no Conselho de Administração das Indústrias Eternit…
Comercial Eternit 🎶
Sumaia – … que é a indústria do cimento suíço, que também é uma das maiores que está ali implementada no Brasil. Ele também é representante da Ômega e da Tissot, que são duas marcas de relógio no Brasil, entre 68 e 77.
Comercial Tissot 🎶
Sumaia – …Em 77, ele pega a direção da Sandoz, que é farmacêutica, né? Sandoz, vocês conhecem, com certeza.
Comercial Cibalena 🎶
Eliane – Ainda entram na lista de empresas que contaram com os serviços de Oswaldo Ballarin a alemã Volkswagen, o Banco Francês e Brasileiro, Sharp, Eucatex, Cofap, Construtora Beter e… o Consórcio Itaipu Eletromecânico, o CIEM. Guarda essa sigla, por favor.
Gabriella – Ele é brasileiro… Na verdade, ele era chave entre o mundo político e o mundo empresarial.
Sumaia – E é pegando carona nesse currículo de peso que a gente sai da Nestlé e segue os passos de Ballarin começando pela ABB.
Gabriella – o acrônimo das Indústrias Elétricas Brown-Boveri.
Sumaia – ABB. Asea Brown Boveri - ou Bovéri, como é conhecida no Brasil. Mas a Asea chegou bem depois. Lá nos anos 60 era só Brown Boveri mesmo.
Eliane – Bom…se a Nestlé não precisava ser apresentada, a gente tem certeza que com a Asea Brown Boveri é exatamente o oposto. A menos que você trabalhe no setor de energia. No site, ela se apresenta assim:
“líder global em tecnologias de eletrificação e automação.”
Sumaia – Aqui no Brasil, a multinacional conta com duas fábricas, uma em Contagem, em Minas Gerais, e a outra em Sorocaba, no interior de São Paulo. A Eliane foi até lá, mas nem os vizinhos souberam dizer o que era essa tal de Brown Boveri.
Povo Fala – Você conhece a ABB? – Eu tô procurando uma informação, você sabe onde fica a ABB? – ABB? Nunca ouvi falar. – Mas fica aqui em Sorocaba. – Cê já ouviu alguma empresa chamada ABB por aqui? – Como? – ABB – Autoescola? – (...) Uma empresa que chama ABB. – ABB… – Brown Boveri? – Você conhece ABB? – (...) Ah. É isso mesmo. É uma fábrica. Quando a gente passa. É uma fábrica. Fábrica de quê? Ah, uma fábrica, eu não sei o que é realmente.
Eliane – Uma fábrica com 125 mil metros quadrados que produz desde geradores de alta tensão até tomadas e interruptores caseiros.
Sobe som 🎶
Eliane – Aqui no Brasil, a Brown Boveri forneceu equipamentos pra construção do Bondinho do Pão de Açúcar.
Sumaia – Pra criar o sistema de ondas curtas da Rádio Nacional, hoje EBC, Empresa Brasil de Comunicação, que fez esse podcast.
Efeito sonoro 🎶
Eliane – Pras centrais elétricas de Furnas e pros transmissores de Belo Monte.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – Fechou contrato com a Vale pra ajudar a colocar em operação a maior mina de minério de ferro do Brasil, em Canaã dos Carajás, no Pará.
Efeito sonoro 🎶
Eliane – E em 2023 assinou um acordo com o governo do Ceará pra desenvolver um hub de produção de hidrogênio verde.
Efeito sonoro 🎶
Documentário Itaipu Consórcios – No canteiro de obras, em Foz do Iguaçu, reúnem-se toda a diretoria e o conselho administrativo da empresa encarregada da construção da maior hidrelétrica do mundo…
Sumaia – Mas a gente vai focar na Brown Boveri na época em que ela fez parte do consórcio que forneceu equipamentos para Itaipu, o tal CIEM, o Consórcio Itaipu Eletromecânico.
Documentário Itaipu Consórcios – … a fim de aprovarem consórcios de empresas fornecedoras de equipamentos.
Eliane – Só pra gente ficar na mesma página: antes de falar dos contratos da Brown Boveri com Itaipu, vamos lembrar um pouco da história da maior obra de engenharia da ditadura militar.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – A ideia de construir uma hidrelétrica aproveitando a energia das Sete Quedas, o complexo de cachoeiras do Rio Paraná, vinha dos anos 1950. Pelos primeiros estudos, a usina ficaria inteirinha no território nacional. Só que aí rolou uma treta bem forte com o Paraguai. Como o Rio Paraná tá na divisa dos dois países, nosso vizinho alegou que a hidrelétrica traria grandes prejuízos pra ele.
Eliane – No governo de João Goulart, Brasil e Paraguai entraram em acordo e decidiram construir uma usina binacional. Só que, dois meses depois do consenso, veio o golpe. Goulart saiu de cena e entraram os militares e agora eu vou dar um salto, resumindo a história toda, e ir lá pra 1973 quando, enfim, foi assinado o tratado para construção de Itaipu.
Itaipu O Rio Que Nos Une – Em ambiente solene e histórico é assinado o tratado de mútua cooperação. O contrato de financiamento da obra da Itaipu Binacional no valor de 2 bilhões de dólares é também assinado. 70% do numerário necessário à construção é concedido pela Eletrobrás, a entidade binacional.
Sumaia – Do lado de cá, o ditador que assinou o documento foi o general Ernesto Geisel. Do lado de lá, o general Stroessner. Agora só falta mais um detalhe pra gente fechar esse parênteses histórico…
Efeito sonoro 🎶
Itaipu O Rio Que Nos Une – O contrato de financiamento da obra da Itaipu Binacional no valor de 2 bilhões de dólares é também assi….
Eliane – 2 bilhões de dólares. Esse foi o custo anunciado. Em 1991, o relatório anual da empresa registrava um valor 12 vezes maior. Tamo falando de quase 25 bilhões de dólares. Oficialmente, a explicação para um orçamento mais de 1000% maior foram mudanças no projeto, tipo o aumento no número de turbinas, e o pagamento de juros…
Pedro Campos – Isso é uma das grandes polêmicas da obra. Uma extrapolação tão significativa assim do orçamento original.
Sumaia – Pedro Campos é professor de História na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e investigou as grandes obras da ditadura militar.
Pedro – E o que a gente verifica é isso. O orçamento cresce de maneira bastante absurda. O documento oficial divulgado pela empresa de Itaipu, eles vão alegar custos financeiros e, de fato, nessa época existe uma extrapolação dos juros, gastos e custos financeiros muito elevados. Agora, para multiplicar por 10 o orçamento original. Realmente é algo a ser devidamente investigado, apurado com mais detalhamento, né?
Eliane – Se o Paraguai era peixe pequeno perto do Brasil, o sistema financeiro internacional foi o tubarão. Foi preciso pegar muito dinheiro emprestado e mais da metade dos custos de construção, coisa de 14 bilhões de dólares, foram só pra pagar juros, taxas e multas bancárias.
Sumaia – Em 1974, o Jornal do Brasil entrevistou banqueiros de vários países. A reportagem ajuda a entender a euforia do capital estrangeiro com o Brasil. Um dos entrevistados era o representante da União de Bancos Suíços, Norbert Muller. Ouve só um trechinho da análise dele.
Leitura de Jornal – “Para o Brasil existirão sempre as melhores condições porque constitui uma das únicas alternativas mundiais para aplicação de capitais, tanto na forma de empréstimo como na de investimento”.
Eliane – Muito mais empréstimos que investimentos. De cada quatro dólares que entravam no Brasil, três eram empréstimos. O Brasil virou um parque de diversões [Música de carrossel] do sistema financeiro. E Itaipu era a jóia da coroa.
Leitura de Jornal – Jornal do Brasil, 27 de fevereiro de 1978. Itaipu contrata 8 bilhões e 600 milhões de cruzeiros em financiamentos para continuar suas obras.
Sumaia – Além dos juros, outro jeito do dinheiro voltar pro país que emprestou a grana eram os contratos com empresas de lá. Escuta essa notícia:
Leitura de Jornal – Diário da Manhã, 20 de junho de 1980. O General José Costa Cavalcanti, diretor-geral da Itaipu Binacional, acompanhado de diretores, seguirá hoje para a Suíça, onde assinará três contratos de financiamento e empréstimos para a central hidrelétrica de Itaipu.
Eliane – Só nessa viagem, o Brasil pegou coisa de 260 milhões de dólares. [Música de carrossel] Do total, 58 milhões obrigatoriamente deveriam ser usados para…
Leitura de Jornal – (...) para o fornecimento de uma subestação (...) destinada a elevar a tensão de energia produzida pelas 18 unidades geradoras de Itaipu… [Efeito de riscar no papel] (...) da empresa fornecedora Brown Boveri.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – Carrossel, né? Entre 1979 e 1982 os empréstimos para a construção de Itaipu alcançaram 450 milhões de Francos Suíços. O dinheiro saía dos bancos estrangeiros, passeava pelo Brasil e voltava turbinado de onde saiu em forma de lucro com a venda de equipamentos e serviços ou de juros.
Eliane – O Brasil ficava com o contrato amarrado com a empresa suíça. Em compensação, a empresa prometia nacionalizar a produção. Então algumas turbinas e geradores foram mesmo fabricados no Brasil.
José Pedro da Silva – Grandes aparelhos, né? Do tamanho de uma casa assim.
José Pedro – Eu sou José Pedro da Silva, né? É de origem metalúrgica, aposentado hoje.
Sumaia – Zé Pedro, hoje com 84 anos. Ia completar 30, quando começou a trabalhar na fábrica da Brown Boveri em Osasco, cidade da região metropolitana de São Paulo.
José Pedro – O gerador de energia, os transformadores mais. Para fabricá-los, a técnica é, toda aquela casca fora, antes de ter a parte elétrica, mas dentro vai uma repartição de centenas de pequenas chapas de aço, ali dentro. E essas chapinhas que vão ali dentro de aço, eles buscavam lá fora, na Europa. E era muito cara, então, segundo pessoas, economistas, pessoas que falavam para gente: ‘sabe porque eles buscam lá fora? porque é uma maneira de mandar recursos daqui para lá’. E já estavam fabricando essas chapinhas aqui no Brasil, essas chapas. Mas não compravam aqui, compravam lá de fora, você entendeu? Que ia nesses transformadores todos, de Itaipu e tudo, né?
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Pegou? Mesmo aquilo que parecia ser produzido no Brasil tinha DNA europeu.
Sumaia - Essa engrenagem toda de pegar dinheiro emprestado pra pagar quem tá emprestando não foi exceção dos contratos de Itaipu, nem da Suíça, nem da Brown Boveri. De novo, o Pedro, não o metalúrgico, o professor.
Pedro Campos – Geralmente é isso: esses grupos financeiros estão colados com essas empresas. Na Europa é muito comum. E era muito comum isso: ‘a gente empresta esse dinheiro desde que parte dele seja para aquisição de equipamentos da empresa suíça tal`.
Trilha sonora de agente secreto 🎶
Eliane - Se essa mecânica te fez lembrar o vilão do filme o Agente Secreto, o empresário sudestino com assento no conselho da Eletrobrás e que não media esforços para minar as pesquisas do departamento de engenharia elétrica da Universidade Federal de Pernambuco…
Agente Secreto - Eu sei que vocês aqui tem esse sotaque diferente. Um jeito de fazer as coisas de outra maneira. [Mixar o rabicho do bg da sonora com o tema de agente secreto e encerrar a música um pouquinho depois da palavra “acaso”]
Sumaia - ... sua lembrança não é por acaso. Claro, para quem assistiu. Desculpem o spoiler, não resistimos.
Eliane - Além de frear o desenvolvimento tecnológico e a indústria nacional, o legado dessa política generalizada dos militares de se atolar em empréstimo pra vitaminar o orçamento foi uma dívida externa gigantesca. Em 1984 o Brasil já não tinha mais crédito na praça e mal pagava os juros dessa conta. Em 1987, o primeiro presidente civil, José Sarney, pediu moratória. Caiu na inadimplência. Em bom português, deu calote.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia - Agora que a gente já falou dos empréstimos, vamos para outro terreno pra tentar entender os mais de 1000% de superfaturamento de Itaipu. Agora bem mais pantanoso:
Leitura de Jornal - Jornal do Brasil 6 de maio de 1978 - O Ministro Shigeaki Ueki…
Eliane - das Minas e Energia.
Leitura de Jornal - …recusou-se a explicar os motivos da sua decisão de dar prioridade à instalação das linhas de Itaipu em corrente contínua. A decisão provocou a necessidade de acelerar as negociações para importação dos equipamentos, o que dá a Furnas menos tempo para discutir preços. Já os fornecedores - Asea, Brown Boveri, Ge e Siemens serão beneficiados…
Sumaia - Vai anotando: ministro desdenhando de prestação de contas, negociações aceleradas, fornecedores beneficiados . Pouco mais de um mês depois, outra notinha no jornal anunciava o resultado da maior licitação do setor elétrico do mundo.
Leitura de Jornal - Jornal do Brasil, 21 de junho de 1978 – A maior concorrência mundial no setor hidrelétrico para fabricação dos 18 turbogeradores de Itaipu, no valor de 707 milhões de dólares, foi integralmente ganha pelo consórcio Ciem.
Eliane – Bardella, Brown Boveri, Siemens, Alsthom… Um consórcio de empresas europeias. O Ciem. Se essa sequência serviu pra colocar umas pulgas atrás da orelha, escuta agora o trechinho desta reportagem da Revista Time, dos Estados Unidos, e que foi publicada aqui no Brasil pelo jornal Estado de S. Paulo:
Leitura de Jornal - Estado de S. Paulo, 17 de março de 1981 – “várias das maiores companhias europeias gastaram (...) mais de 140 milhões de dólares em presentes e 'gorjetas' para ganhar uma fatia na construção da represa de Itaipu (...)”.
Pedro Campos – Houve uma grande disputa internacional e essas disputas eram realmente… muitos ataques, enfim, uma série de conflitos, uma série de elementos ali, que estão dentro do campo da concorrência. E o que acontece é isso: A GE, a empresa norte-americana, a General Electric, ela foi preterida e ela fez acusações diversas, né? A Siemens, que acabou pilotando o consórcio responsável teria pago propina e existe também uma alegação de que existiam acertos, ainda da obra da usina nuclear de Angra dos Reis, na qual a Siemens também era a principal fornecedora do reator e de todos os equipamentos elétricos da termonuclear, né? A gente não tem como comprovar, mas são indícios, muito significativos.
Sumaia – Além de professor, Pedro Campos também é um dos pesquisadores do projeto pioneiro coordenado pelo Caaf, o Centro de Antropologia Forense da Unifesp, que investigou as ligações entre 12 grandes empresas e a ditadura militar e que a gente ainda vai falar muito nessa temporada. Ele faz parte do grupo que ficou responsável por investigar Itaipu.
Pedro Campos – Inclusive, a GE alega que ela tinha um grau de nacionalização mais elevado que a Siemens - que era uma diretriz do governo selecionar a que tivesse o grau de nacionalização maior e um custo menor, um valor menor. E ela acabou mesmo assim sendo preterida, né?
Eliane – Suspeitas de propinas, licitações fraudadas, contratos superfaturados… Mas presta atenção. Suspeitas.
Sobe som🎶
Pedro Campos – As grandes obras da ditadura, as denúncias apontam que elas tinham corriqueiramente o pagamento de propinas no seu arranjo financeiro…. Acho que essa frase dá pra dizer.
Sumaia – Em Itaipu, as denúncias nunca foram esclarecidas.
Pedro Campos – A gente achou vários documentos no arquivo nacional, na imprensa. Porém, tentamos acessar o centro de documentação da Itaipu. Tentamos diversas formas e não conseguimos. Eles impediram que a gente tivesse acesso ao arquivo de Itaipu. A gente, por exemplo, queria saber sobre os acidentes de trabalho, né? A gente, por exemplo, queria saber sobre os dados contábeis da usina e aí..
Sobe som🎶 Música "Caixa Preta"
Pedro Campos – Infelizmente a empresa não abriu arquivo para equipe de pesquisa poder fazer a sua investigação.
Eliane – Qual a justificativa?
Pedro Campos – Não houve uma justificativa formal, eles simplesmente, foram, digamos assim, atrasando (...) engabelando o grupo de pesquisa.
Sobe som🎶 Música "Caixa Preta"
Eliane – Uma caixa preta que Lygia Jobim tenta abrir desde 1979.
Lygia Jobim – A documentação que ele tinha sobre Itaipu era uma coisa que ele… Ele guardava as sete chaves, tá?
Sumaia – Lygia Jobim é jornalista, advogada e filha de José Jobim, diplomata do Itamaraty, assassinado no Rio de Janeiro, em 1979.
Lygia Jobim – Ele ficava furioso comigo e com meu irmão. Quando algum amigo nosso queria usar o telefone e nós dizíamos: “é ali”. O ali era o escritório dele, onde ele guardava a documentação de Itaipu e nós não íamos juntos, né? Ele ficava furioso: – eu já disse mil vezes que ninguém pode entrar no escritório se vocês não estiverem, porque a documentação de Itaipu está guardada aí. – Mas papai, fulano não tem nada a ver com esse assunto. – Não pode entrar ninguém desacompanhado.
Eliane – Jobim trabalhou por anos na embaixada brasileira no Paraguai, conhecia de perto o projeto de Itaipu, mas na cerimônia de posse do último ditador militar, João Batista Figueiredo, deixou escapar que tinha um dossiê com denúncias de corrupção em Itaipu. Uma semana depois foi sequestrado, torturado e morto. E o dossiê que ele guardava a sete chaves desapareceu.
Sobe som🎶
Sumaia – Lygia não sabe dizer quem, mas não tem dúvidas que a casa da mãe foi invadida.
Lygia Jobim – Tinha gente que nós não sabíamos se era do Sni ou se não era do Sni, que frequentava a casa, né? Eu acredito que uma dessas pessoas tenha feito isso. Mas eu não posso te dizer, eu acho que foi fulano, acho que foi beltrano. Eu não sei. Realmente eu não sei te dizer. Eu não sei indicar ninguém.
Eliane – Um embaixador assassinado depois de ter sido torturado e uma caixa-preta que segue lacrada…
Sumaia – Mas se no Brasil, Itaipu ainda é um mistério, na Suíça, algumas caixas começam a ser abertas..
Sobe som🎶
Gabriella Lima – Eu usei duas caixas que eu encontrei no arquivo federal, porque o governo estava sabendo dessa coisa toda aí desde o começo, o governo suíço. Onde tinha uma troca de documentação entre a empresa e o governo suíço de como a gente vai tirar a gente dessa confusão aí que estava com o processo. Porque eles foram processados, a Brown Boveri.
Eliane – Ao revirar os arquivos suíços, Gabriella encontrou muita informação da atuação da Brown Boveri em Itaipu.
Gabriella Lima – … Eu fui no arquivo da Brown Boveri e aqui na Suíça também, então eu peguei as caixas sobre as filiais do Brasil e eu encontrei duas caixas que eram explicitamente sobre esse caso, então tinha toda a estratégia de elaboração da defesa deles.
Sumaia – O caso em questão era uma denúncia empresarial. Gabriela encontrou os documentos que mostravam a estratégia de defesa da Brown Boveri contra a denúncia feita pelo empresário do setor elétrico, Kurt Mirow, brasileiro, de origem alemã. Na denúncia ele acusava as multinacionais de montarem um cartel que canibalizou as empresas brasileiras.
Eliane – Kurt Mirow denunciou o cartel das multinacionais no Cade, o Conselho de Defesa Econômica. Mas a Brown Boveri foi inocentada por falta de provas. Isso depois de atrasos na perícia, relatórios com erros, o afastamento de um perito e a denúncia de suborno por outro. Só que os arquivos da multinacional suíça não falavam só de crimes financeiros.
Gabriella Lima – No começo um processo sobre dumping e que terminou envolvendo a questão da espionagem e da corrupção e do financiamento da ditadura, porque quando eles começaram a investigar as atividades da Brown Boveri, aí saiu todos os cadáveres do armário, assim, de uma vez.
Alemão – Lausanne, 20. November 1979 An den Schweizerischen Bundesrat wir unterbreiten Ihnen beiliegend eine Dokumentation mit 16 Schriftstücken...
Tradução – Lausanne, 20 de novembro de 1979 Ao conselho federal suíço Em anexo, apresentamos um dossiê com 16 documentos, que demonstram que setores da empresa Brown Boveri no Brasil utilizam comprovadamente os serviços de organizações de tortura disfarçadas. Pelos documentos incriminatórios, o senhor pode constatar que o presidente da Brown Boveri Brasil admitiu perante um tribunal de cartel brasileiro que sua empresa apoia uma companhia financeira que mantém esquadrões da morte e especialistas em tortura.
Gabriella Lima – E eles tinham uma porcentagem das encomendas que eles tinham que pagar para o cartel ali dentro para financiar a luta contra a oposição. E foi daí que surgiu a questão da repressão e do financiamento da tortura, porque aí foi quando o processo abriu, eles viram dentro das atividades do cartel que existia, eles chamavam fundo de luta contra a oposição, e aí foi que surgiu a questão da Cias…
Sumaia – Um fundo de luta contra a oposição e uma empresa, a Cias, com a sigla do serviço de inteligência dos Estados Unidos.
Gabriella Lima – Eles contrataram uma pessoa que se chamava Robert Plassing, que trabalhava para eles e que era proprietário de uma sociedade que chamava C.I.A.S. Cias, né? Consultores industriais associados, eles se apresentavam como um gabinete de relações públicas, uma empresa fictícia, no caso, onde as empresas suíças davam o dinheiro para eles, para financiar as operações do Doi-Codi e, em troca disso eles tinham informações sobre os trabalhadores.
Eliane – Robert Lentz Plassing. Um expoente da extrema-direita que coletava dinheiro de empresários para financiar o aparato repressivo que operava na clandestinidade. As denúncias de Kurt Mirow viraram o livro "A Ditadura dos Cartéis".
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – Nele, o empresário conta que foi pressionado a participar da vaquinha do terror. Como se recusou e ainda expôs a chantagem, Mirow passou a ser ameaçado, teve o apartamento invadido, documentos extraviados, passaporte roubado em plena viagem à Alemanha e a vida monitorada. E quem aparece entre os autores das ameaças?
Jornal Movimento, 17 de abril de 1978 – “Quando a ‘Ditadura dos Cartéis’ já se encontrava no prelo, em junho de 1976, a primeira pressão veio por intermédio exatamente de Robert Plassing. (...) Robert Plassing passou a ameaças, dizendo que coisas ‘desagradáveis’ poderiam acontecer, como a explosão de bombas no seu apartamento ou no escritório. Acrescentou ele que as companhias multinacionais já estavam acostumadas com estes métodos e que não teriam escrúpulos para agir com violência”.
Trilha do podcast 🎶
Eliane – Mirow também foi denunciado ao Superior Tribunal Militar por violação da Lei de Segurança Nacional. O ministro da justiça da época, Armando Falcão, determinou a apreensão do livro e o denunciou à justiça.
Sumaia – As relações entre as multinacionais suíças, especialmente a Brown Boveri, e a agência de relações públicas de Robert Plassing foram denunciadas por Jean Ziegler, ex-presidente do comitê consultivo do conselho de direitos humanos da ONU.
Francês – Question ordinaire Genève du 19 septembre 1979 La société finançait également l'achat d'un matériel de torture sophistiqué...
Tradução – Questão ordinária Genebra de 19 de setembro de 1979 A empresa também financiou a compra de sofisticados equipamentos de tortura nos Estados Unidos. Essa empresa financiou, notadamente, a “Operação Bandeirantes”, que conta com dezenas de especialistas em tortura (...) Oswaldo Ballarin, executivo da Nestlé e atual presidente da Brown-Boveri em São Paulo, admitiu ter transferido regularmente e substancialmente fundos da empresa entre 1963 e 1978 para a empresa Consultores Industriais Associados. Oswaldo Ballarin (e a Brown-Boveri) são, portanto, culpados de cumplicidade em homicídio premeditado.
Sumaia – Robert Lentz Plassing aparece como uma das 377 pessoas responsáveis por torturas e assassinatos no relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Plassing integrou o Doi-Codi do Rio de Janeiro, onde era conhecido como Samuca. Em outro aparelho de tortura, o Dops, ele se apresentava como "doutor" Robert Plassing.
Gabriella Lima – Então, a Brown Boveri, o que ela fazia? Ela pagava esse cara, quer dizer, essa empresa, para financiar essas operações, e, em troca, eles fichavam todos os trabalhadores da empresa para saber quem era sindicalista, quem era filiado a partido de esquerda ou que tinha sensibilidade de esquerda...
Eliane – Elemento perturbador como o Zé Pedro, o metalúrgico da Brown Boveri, ex-dirigente sindical e um dos líderes da greve de 1978.
Zé Pedro (Metalúrgico) – Aí no dia 21 de junho, esse grupo nosso parou a Brown Boveri.
Sumaia – 78 foi o ano marcado pelo nascimento de um novo sindicalismo no Brasil e as greves começavam a pipocar nas fábricas do ABC paulista.
Efeito sonoro 🎶
Zé Pedro (Metalúrgico) – Zerou. Três mil trabalhador. Zerou assim. Até que chega o momento, com cinco dias de greve, alcançou-se um tanto de mais de 80% das nossas reivindicações.
Eliane – Essa foi a última greve de Zé Pedro na fábrica. Depois, ele foi demitido e preso, justamente quando os trabalhadores organizavam uma nova paralisação contra a represália.
Zé Pedro (Metalúrgico) – Nessa hora, vem uma radiopatrulha da Polícia Militar e assim que me viram lá, o cara chegou e perguntou meu nome (...) ele falou, seu senhor está preso. Aí chegando lá fui conversar com o coronel Salgado. (...) ele falou assim, ‘Zé Pedro, você está famoso aqui (...) eu recebi ordem para pegar você lá’.
Sumaia – Quando Zé Pedro foi preso, a ditadura já tinha perdido apoio. A inflação crescia, a carestia aumentava, a dívida externa já estava nas alturas e torturas e assassinatos já tinham queimado o filme do regime no exterior.
Zé Pedro (Metalúrgico) – Então a ditadura já tava escapando pelos ombros deles, que eles não consegia mais segurar só na porrada. Se fosse noutros tempos, eu não estaria mais aqui falando mais com você.
Trilha do podcast 🎶
Eliane – Oswaldo Ballarin morreu em 1999. Mas a gente encontrou uma carta enviada por ele ao jornal francês Le Monde Diplomatique em resposta às denúncias.
Francês – Nos rapports avec la C.I.A. se sont toujours maintenus dans les limites strictes...
Tradução – “Nossas relações com a C.I.A. sempre se mantiveram dentro dos limites estritos e adequados, habituais em uma agência de publicidade ou de relações públicas, não tendo sido solicitada nenhuma tarefa além do que se espera de especialistas desse tipo. Nem eu, nem a Brown Boveri tivemos a menor interferência em outras atividades dos gerentes ou colaboradores da Cia. Constituem, portanto, verdadeiras calúnias as insinuações sobre uma ação política direta ou indireta da minha parte ou da Bbc [Brown Boveri] por intermédio da Cia.”
Sumaia – A atual direção da Itaipu nos mandou uma nota lembrando que, como a construção da usina coincide com o período de repressão, ela foi marcada por esse momento histórico:
Nota Itaipu – A execução do projeto teve início em 1975, em um contexto marcado pela ditadura militar brasileira, quando práticas autoritárias resultaram na sonegação de informações e em violações à dignidade humana e aos direitos fundamentais.
Eliane – Itaipu listou as ações que mantém hoje para defender os direitos humanos.
Nota Itaipu – – Atualmente, a Itaipu desenvolve iniciativas voltadas à promoção dos direitos humanos, com foco na igualdade de gênero, no fortalecimento de capacidades locais e na inserção dessas perspectivas na educação...
Sumaia – Nós pedimos acesso aos arquivos de Itaipu, mas para isso não houve resposta.
Eliane – Nós entramos em contato com a ABB, Asea Brown Boveri, e perguntamos sobre o mecanismo de internacionalização dos serviços, as denúncias de corrupção, o financiamento da repressão e o monitoramento de funcionários. E se ele reconhecia que a empresa lucrou com a ditadura.
Sumaia – Eles responderam com uma nota e a informação de que essa seria a única manifestação da ABB sobre o caso.
Nota Asea Brown Boveri, – “A política de direitos humanos da ABB formaliza o compromisso da empresa e descreve a abordagem da ABB em relação à devida diligência em direitos humanos. (...) ABB adota uma política de tolerância zero em relação a comportamentos antiéticos, incluindo qualquer forma de suborno ou corrupção (...)”.
Eliane – Nós também procuramos a Nestlé para saber se ela toparia falar sobre o apoio que ofereceu à ditadura no Brasil. A resposta também veio em forma de nota.
Nota Nestlé – A Nestlé reconhece a importância de que esse período continue sendo debatido, dada sua relevância e impacto na sociedade. A empresa não compactua com práticas de repressão, discriminação ou violações de direitos humanos.
Sumaia – Bom, a gente também perguntou se já é possível ter acesso aos arquivos da empresa. Para esse pedido não houve resposta.
Eliane – Já sobre a estratégia que adotou para promover as fórmulas infantis, a Nestlé disse que:
Nota Nestlé – “Acredita firmemente que o aleitamento materno oferece o melhor começo de vida para os bebês e que foi a primeira empresa do mundo a reconhecer formalmente o código da OMS em sua política de marketing de fórmulas infantis, em 1982”.
Sumaia – Sobre a composição do Mucilon que é vendido nos dias de hoje, no Brasil, a empresa disse:
Nota Nestlé – “Os níveis de açúcares adicionados estão bem abaixo dos limites estabelecidos pelo Codex Alimentarius e em total conformidade com as regulamentações locais...”.
Eliane – Todas as notas estão na íntegra no nosso site: radioagencianacional.ebc.com.br
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – Bom… Quanto à Itaipu, Gabriella calcula que tudo o que o Brasil pegou emprestado no Banco Nacional da Suíça para construir a usina, um terço seguiu pra pagar os contratos da Brown Boveri. Mas esse não é nem de longe o custo mais alto dessa história.
Eliane – Pra construir o reservatório de 1350 quilômetros quadrados de Itaipu, foi preciso alagar uma área três vezes maior que a da Baía de Guanabara. Só do lado brasileiro, umas 40 mil pessoas foram deslocadas. Quem dá a pista do tamanho das violações é o professor Pedro Campos.
Pedro Campos – Itaipu Binacional admite a morte de 106 trabalhadores durante a obra, na qual foram empregadas mais de 40 mil pessoas. (...) Além de uma superexploração da força de trabalho (...) a gente também tem um impacto muito grande. Então a gente tem os Avá-Guaranis, que é um povo indígena que foi removido da região (...) camponeses, pequenos proprietários... Então a gente tem, digamos assim, uma obra que a gente chama de uma espécie de mosaico de violações.
Sumaia – Um mosaico de violações, mas com os responsáveis ainda protegidos por segredos guardados em caixas pretas que viabilizaram grandes negócios, muito lucro para alguns e crimes contra a vida nunca investigados.
Trilha do podcast 🎶
Eliane – No próximo episódio, as empresas nacionais entram em cena. Ou continuam no foco, já que a Itaipu já fez as honras por aqui.
Denise – Todo esse financiamento, essa estrutura que faltava absolutamente nada e a inadimplência não existia. (...) Nenhuma pista de nenhum tipo de licitação. Então, realmente foi uma escolha política, por isso tudo a gente consegue entender como realmente foi uma galinha dos ovos de ouro, né?
Sumaia – Vamos continuar a jornada ainda ligada à Itaipu e descobrir como um mercado se abriu para grandes oportunidades em uma área que é determinante para qualquer projeto de país: a educação. É hora de saber como o ouro da casa financiou e se beneficiou da ditadura.
CRÉDITOS
Eliane - Essa é a segunda temporada do podcast Perdas e Danos, uma produção original da Radioagência Nacional, veículo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Sumaia - Os episódios são liberados todas as quartas-feiras no site da Radioagência Nacional e no seu tocador de podcast de preferência. Ah, e em libras no YouTube.
Eliane - Então já salva nosso perfil e não esquece de usar a ferramenta de avaliação da plataforma se você gostou do que ouviu até aqui. Isso nos ajuda a chegar em mais gente.
Sumaia - Esse podcast é idealizado e narrado por Eliane Gonçalves e Sumaia Villela. A concepção de pauta dessa segunda temporada é minha. A Eliane desenhou a primeira temporada.
Eliane - A nossa dobradinha segue em todas as etapas do projeto: pesquisa histórica, produção, entrevistas, roteiro, montagem e pós-produção no geral.
Sumaia - A edição e divulgação nas plataformas é da Beatriz Arcoverde.
Eliane - A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio foram feitas pelo Jailton Sodré, a partir das composições gentilmente cedidas pelo nosso colega, Nelson Lin. E a voz da vinheta do Perdas e Danos é da Marli Arboleia.
Sumaia - Já a identidade visual e a arte são assinadas pela Caroline Ramos.
Eliane - Roberto Camargo fez as leituras dos jornais em português. Leonardo Matumona, Raphael Gindre e Felipe Pio leram os textos em francês e Gerhard Dilger o texto em alemão. Victor Ribeiro fez a voz de Oswaldo Ballarin e Gudryan Neufert a voz de Edward Kennedy. Daniel Ito leu as traduções dos documentos oficiais e Dilson Santa Fé leu as respostas da Itaipu Binacional, Brown Boveri e Nestlé.
Sumaia - A versão do episódio em Libras, divulgada no YouTube, é feita pela equipe da EBC.
Eliane - Usamos material histórico do acervo da EBC; do Arquivo Nacional; do centro de pesquisa Dodis (...) e da IBFAN. Também usamos trechos dos documentários Cidadão Boilesen e ABC da Greve. Do filme O Agente Secreto e da música Caixa Preta do Curumin - tudo com fins jornalísticos.
Sumaia - Agradecemos a Murilo Leal Pereira Neto, Renata Levy, Luísa Monson, Sérgio Zambrotti Bezerra, Nelson Lin, Paulo Donizetti e Ivan Seixas pela ajuda com contatos, informações e apoio em geral.
Eliane - E principalmente obrigada a você que nos ouviu até aqui. Se puder tirar um tempinho para contar o que achou do podcast, agradecemos muito.
Sumaia - Por favor, deixe uma mensagem em ouvidoria@ebc.com.br ou no site ebc.com.br/ouvidoria. Também dá para fazer uma manifestação em libras para o número (61) 99862-1971.
🎵 Vinheta de Encerramento 🎵
| Colar os documentos aqui | |
| Apresentação, idealização, reportagem, roteiro, pesquisa histórica, produção, entrevistas, pós-produção e montagem | Eliane Gonçalves e Sumaia Villela |
| Edição e divulgação nas plataformas | Beatriz Arcoverde |
| Voz do título do podcast | Marli Arboléia |
| A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio | Jailton Sodré |
| Composições para identidade sonora foram cedidas pelo músico e colega do EBC | Nelson Lin |
| Arte | Caroline Ramos |
| Interpretação em Libras: | Equipe EBC |
| Leitura dos documentos em francês | Thierry Dor e Raphael Gindre |
| Leitura dos documentos em alemão: | Gerhard Dilger |
| Leitura dos documentos em português | Roberto Camargo |
| Pesquisa histórica: | Acervo da EBC; Arquivo Nacional; Rádio Jornal do Brasil; da TV GGN; da RTS, rede de veículos públicos da Suíça; e Centro de Pesquisa Dodis, um instituto da Academia Suíça de Humanidades e Ciências Sociais. |
| Trechos de documentários, filmes e música com fins jornalísticos: | Trechos dos documentários Cidadão Boilesen e ABC da Greve; do filme "O Agente Secreto" e da música Caixa Preta, do Curumin |
| Agradecimentos: | Murilo Leal Pereira Neto, Renata Levy, Luísa Monson, Sérgio Zambrotti Bezerra, Nelson Lin, Paulo Donizetti e Ivan Seixas |
| Implementação na Web: | Beatriz Arcoverde e Lincoln Araújo |