Saiba como a ditadura abriu espaço para grandes negócios na educação
Como um prédio construído com dinheiro público, destinado a uma comunidade carente de escolas, acaba com as chaves entregues a uma instituição privada para atender exclusivamente a elite de uma grande obra? Este é o fio condutor do terceiro episódio da segunda temporada de “Golpe de 1964: Perdas e Danos” que revela os bastidores do que ocorreu com a educação no país.

O episódio toma como ponto de partida a construção da Usina Binacional de Itaipu para ilustrar como o projeto educacional da ditadura não foi apenas uma questão de currículo, mas um modelo de negócio que beneficiou empresários e aprofundou o abismo social no país. E traz o relato impressionante de José Kuiava, então inspetor de ensino em Foz do Iguaçu em 1975. Ele narra o momento em que recebeu ordens diretas de Curitiba para entregar as chaves de uma escola pública recém-construída para o Colégio Anglo-Americano, uma instituição privada do Rio de Janeiro que se instalava na fronteira para atender os funcionários de Itaipu.
A investigação detalha contratos da época que garantiam ao setor privado um cenário de sonhos: prédios equipados pelo Estado, manutenção paga pela usina e inadimplência zero, já que as mensalidades eram repassadas diretamente pela empresa. Enquanto a população local lidava com um déficit crônico de salas de aula, os filhos da alta cúpula de Itaipu usufruíam de laboratórios de última geração.
Para além do caso local, o podcast conecta os pontos com a política nacional. Com a participação de especialistas como o sociólogo Luiz Antônio Cunha e a pedagoga Silvana Souza, o programa explica como a ditadura sufocou o legado de Paulo Freire para abrir caminho para a expansão do ensino privado.
O episódio também traz uma entrevista exclusiva com Ney Suassuna, ex-ministro e antigo proprietário do Anglo-Americano, que defende a atuação da época como um "desbravamento" necessário diante da incapacidade do Estado.
A temporada atual investiga como países, empresas e setores da sociedade civil lucraram e colaboraram com a manutenção do regime ditatorial que durou 21 anos no Brasil.
💬 Você pode conferir, no menu abaixo, a transcrição do episódio, a tradução em Libras, documentos históricos e ouvir o podcast no Spotify,.
PERDAS E DANOS - 2ª TEMPORADA: Passado Leiloado
Episódio 3 - Pedagogia do privilégio
Sobe som🎶
Sumaia Villela - “O inferno são os outros”.
Vinheta do pocast🎶
Sumaia - Peço emprestada a frase do Jean-Paul Sartre e tiro ela do conceito original, aqui, para falar sobre como é tentador jogar apenas no colo de outros países ou empresas estrangeiras a sustentação da ditadura militar por mais de duas décadas no Brasil.
Eliane Gonçalves- A gente pode até ter ajudado você a ter essa impressão com os dois episódios anteriores desta segunda temporada do Golpe de 1964: Perdas e Danos.
Sumaia - Então nos permita desfazer esse conceito. Não é uma mentira total. Mas seria uma verdade confortável pros brasileiros, né. O problema está lá fora, é colonial. Aqui dentro, só os militares têm culpa no cartório.
Eliane - Se você acompanha a gente desde a primeira temporada, já sabe que, do ponto de vista da população, o golpe de 1964 conseguiu um apoio importante em camadas sociais com bastante voz na sociedade. Um pessoal que frequentemente vira sinônimo de “opinião pública”, tornando invisíveis tantos outros.
Sumaia - E agora que falamos de empresas, também não dá para jogar só no colo do estrangeiro o apoio ao regime militar. As bases da ditadura têm DNA brasileiro, sim.
Eliane - Empresas brasileiras fizeram bons negócios com a ditadura. De vários tipos, legais ou ilegais, com diferentes graus de envolvimento nos crimes cometidos pelo estado.
Sumaia - Teve quem tirou o setor público do caminho pra boiada passar. Quem tirou concorrentes do caminho. Outros receberam muitos incentivos públicos. E teve quem comprovadamente violasse direitos humanos. Eu sou Sumaia Villela.
Eliane - E eu sou Eliane Gonçalves. Pra contar essa história, a gente elegeu uma área específica. Quando a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, que tava florescendo antes do golpe de 1964, deu lugar à pedagogia do privilégio. Um setor que foi determinante para desafios atuais e que influencia a capacidade que um povo tem de reescrever a própria história e moldar o futuro. A educação.
Sumaia - E foi cavucando nisso que encontramos um laço com a nossa já conhecida Itaipu. E como esse exemplo é tão simbólico pro que aconteceu nesse período.
Eliane - Voltamos, portanto, a uma das maiores obras da ditadura militar.
Vinheta do pocast🎶
Sumaia - Segunda temporada: Passado Leiloado
Sobe som🎶 Áudio promocional de Itaipu na época
Sumaia - O ano era 1975. A cidade fronteiriça do oeste do Paraná, Foz do Iguaçu, vivia uma transformação acelerada. Barrageiros, os trabalhadores de grandes obras de hidrelétricas, chegavam a rodo. Outros iam pra lá tentar a sorte mesmo sem experiência, abrir comércios, achar alguma oportunidade.
Eliane - Muita novidade chegando, antes que muita coisa fosse embora. O município de economia rural estava prestes a viver uma transformação intensa e extensa. Paisagens e populações sumiriam do mapa em breve. Literalmente.
Sobe som🎶 Áudio promocional de Itaipu na época
Sumaia - O projeto que levou décadas de discussão entre Brasil e Paraguai tinha virado realidade. Em alguns anos, a Usina Binacional de Itaipu, que virou um dos maiores projetos de infraestrutura da ditadura militar, tomaria o lugar do grandioso Salto das Sete Quedas — e de comunidades inteiras.
Sobe som🎶 Áudio promocional de Itaipu na época
Eliane - Em 10 anos a população de Foz quadruplicou. Eram 34 mil habitantes em 1970, antes da construção da hidrelétrica. Saltou para 136 mil em 1980.
Sumaia - Era assim com Itaipu. Tudo era superlativo quando se tratava desse projeto.
Sobe som🎶 Áudio promocional de Itaipu na época
Eliane - Foram 1,8 mil quilômetros quadrados de desapropriação no Brasil e no Paraguai. 1,5 mil quilômetros quadrados só de área inundada para formação do reservatório. É o tamanho da cidade de São Paulo.
Sumaia - 40 mil pessoas foram retiradas de suas terras só no lado brasileiro pra fazer esse projeto acontecer. A gente já começou a contar essa história no episódio anterior. Se você não ouviu, procura por ele quando terminar este aqui.
Eliane - Bom, 40 mil também foi o total estimado de trabalhadores que a Itaipu chegou a empregar, no auge das obras. Metade deles morava do lado brasileiro. Junto com os familiares, eles somavam cerca de 120 mil pessoas.
Sumaia - Você deve imaginar que uma explosão demográfica dessas impacta em absolutamente tudo. Comércio, preço e oferta de alimentos, aluguel, saneamento, transporte, saúde. E educação.
Eliane - A cidade só tinha duas unidades de ensino de 2º grau, e uma delas era de ensino agrícola. A rede de ensino era precária de várias maneiras: de falta de espaço à qualificação dos professores.
Leitura - Trecho Jornal do Paraná, Sete de Dezembro de 1974: No município os problemas mais graves ocorrem no setor de educação que exigirá medidas de emergência já em 1975. Trata-se de uma crise muito séria – diz Ivete Torres Ribeiro, encarregada pela Secretaria de Educação e Cultura para estudar o assunto. Já tinha problemas antes de Itaipu. O número de salas de aula não atende a clientela. Para março Foz do Iguaçu necessita no mínimo, de mais 18 salas, e o número de unidades escolares terá de ser aumentado. Hoje a população em idade escolar em Foz do Iguaçu é de 15 mil e os estudantes são em número de 12 mil, havendo um déficit de salas escolares para 3 mil alunos.
Sumaia - Se pra população de antes a educação já andava mal das pernas, imagina agora, que não parava de chegar família com criança em idade escolar.
Kuiava - Acontece que eu comecei a minha vida em 72, lá em Foz do Iguaçu…
Eliane - A voz que você ouviu agora é do José Kuiava. Ele é professor aposentado da Unioeste, Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Na época dessa nossa história, ele tinha 31 anos, e tinha vindo do Rio Grande do Sul com a família. Depois de ser diretor do colégio agrícola, virou inspetor de ensino na região.
Sumaia - E nessa época, ele estava para inaugurar uma escola pública que ia aliviar um pouco a demanda crescente de Foz do Iguaçu. Um prédio com área ampla, arborizada, na rua Silvino Dalbó. Trazendo um conceito novo pra lá.
Kuiava - Era moda nos tempos da ditadura nos anos 1974, 75, e ele era construído no Brasil inteiro.
Eliane - Nessa época, a educação profissionalizante foi instituída como “regra” para o segundo grau.
Kuiava - “Era uma estratégia da ditadura. As bases dos municípios, das periferias, os estudantes que não tinham dinheiro para pagar colégio particular, tinham um colégio público e que na conclusão desse colégio era uma espécie de profissionalização a nível de ensino médio. Ou seja: quem concluísse esse colégio já estava pronto para uma profissão das empresas e não iriam para as universidades".
Sumaia - Era um colégio polivalente, com um padrão estrutural melhor do que as outras escolas da cidade.
Kuiava - Era mais moderno, mais preparado. Tinha biblioteca, tinha laboratório, tinha auditório. Tinha uma sala de exposições na entrada. Então era um colégio o mais bem estruturado para a educação no ensino médio na época.
Eliane - Tava tudo pronto pra entregar o colégio pra comunidade. A equipe já estava formada. Mas aí, teve Itaipu…
Efeito sonoro 🎶
Kuiava - “Um diretor de Curitiba me telefonou e disse que eu, como inspetor, estava com as chaves do Politécnico, entregasse isso a Itaipu para que ela então abrigasse o colégio Anglo-Americano. E disse assim: ‘olhe, você vai ter que entregar as chaves e veja uma assinatura de um compromisso que a Itaipu vai ter com aquele colégio e o Anglo-Americano’”.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia - É, é isso que você ouviu. As chaves do colégio precisaram ser entregues para que Itaipu destinasse a estrutura exclusivamente para as famílias dos trabalhadores da usina e da Unicon, que era o consórcio de empreiteiras que tocava a obra.
Eliane - E sim, não era entregar as vagas. Era entregar as chaves. Porque esse prédio público, construído com dinheiro público, para atender a comunidade, seria ocupado por um colégio privado.
Kuiava - Ao questionar a ordem, argumentando que os jovens e filhos de Foz do Iguaçu já haviam esperado por muitos anos pelo colégio polivalente, em resposta e em um tom de ordem mais enérgico, o diretor disse que não havia nada a fazer a não ser entregar as chaves mediante um termo de responsabilidade assinado pela Itaipu.
Sumaia - O jovem inspetor precisou adiar as promessas públicas que tinha feito aos moradores de Foz.
Kuiava - Eu não gostei muito, porque eu, como inspetor, já tinha dado na rádio, notícias, jornais, na inauguração do colégio, para que os alunos daquela região, daquele bairro, principalmente, fossem, então, atendidos lá e de repente tive que suspender tudo e diz, olha, o colégio foi entregue nas mãos do Anglo-Americano, que vai ser à disposição da Itaipu. Essa que foi a notícia, né.
Denise - A gente costuma dizer quem estuda Itaipu é que Itaipu era prioridade de tudo em tudo. Então, absolutamente tudo que se precisava em termos de tecnologia, de infraestrutura, de capital humano, de pessoas, a Itaipu tinha prioridade.
Eliane - isso incluía a maior parte dos esforços para aumentar toda a estrutura que a cidade precisava para segurar o tranco do inchaço populacional. Tudo ia pro que a Denise Sbardelotto tá resumindo como “a prioridade de tudo em tudo”.
Sumaia - Professora da Unioeste, Denise é de Cascavel, perto de Foz, e viveu as consequências das transformações no oeste do Paraná por conta de Itaipu. Mas ela não está aqui nesse podcast pela origem dela. A gente já volta nessa explicação.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Estávamos na “prioridade de tudo em tudo”. A menina dos olhos da ditadura. Itaipu. Era em função dela e dos trabalhadores dela que as coisas aconteciam. A obra, afinal, não podia parar, né.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – E para acomodar esse povo todo de uma maneira que a construção continuasse sem pausas, foi construída uma complexa e completa estrutura para que os empregados tivessem onde morar, onde estudar, comer, se tratar, até mesmo onde usar o tempo livre.
Eliane - E o Anglo-Americano foi a empresa privada escolhida para um ótimo negócio…
Leitura - Contrato nº 177/76. Unicon e Colégio Anglo-Americano. Operação na Cidade de Foz do Iguaçu, do educandário do Canteiro de Obras, a ser instalado em prédio equipado e cedido pela Unicon.
Seis de fevereiro de 1976. Unicon - União de Construtoras Limitadas, com sede em Foz do Iguaçu, estado do Paraná…
Sumaia – A Itaipu construiu 3 vilas habitacionais no lado brasileiro, sem contar outras 4 no Paraguai. Eram quase 10 mil casas como em condomínios, com segurança particular, cancela na entrada, hospital, supermercado… e escola particular.
Eliane – Toda a estrutura para a instalação do colégio foi viabilizada pela Unicon, que, lembrando, usava dinheiro público pago pela Itaipu. O terreno, as instalações físicas, os móveis, o material, as mensalidades.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – Há coisa de 10 anos, Denise entrevistou Elza de Carvalho, uma ex-vice-diretora do Anglo-Americano que ficou na instituição até 1991. E o relato é que inclusive a reposição do que estragava era feita pela Itaipu. Vamos ler um trechinho.
Elza (Leitura): “Ela mantinha tudo. [...] À medida que a gente precisava ia pedindo eles iam mandando, mandando. [...] Era federal filha, governo federal, aí vinha tudo bem a tempo e a hora. E nós professores ganhávamos bem. [...] Porque a Itaipu pagava muito bem né pros funcionários então o colégio não podia tá tão diferenciado.” (Carvalho, 2013).
Eliane - Tudo isso é firmado em contrato. Os valores das mensalidades iam de Cr$ 300 para pré-escola a 4ª série do 1º grau até Cr$ 500, para o 2º grau. Com data certa pra pagar, mensalmente. O reajuste anual também já estava previsto.
Sumaia - Foram adiantados dois pagamentos médios mensais, de Cr$ 400 mil cada, para custeio de despesas com a implantação, deduzidas dos dois últimos pagamentos a serem feitos. O colégio ainda recebia 10 casas das vilas para alocar o pessoal.
Eliane - No documento, a Unicon assegura um pagamento mínimo correspondente a 1.000 vagas. Mas isso aí é fichinha perto da realidade.
Sumaia – No primeiro ano de funcionamento do Anglo-Americano em Foz do Iguaçu, ele já tinha 10 mil vagas ofertadas.
Eliane – E chegou a ter 14 mil matrículas. O recorde foi registrado quando as obras de Itaipu também estavam no auge.
Sumaia - Se a gente calcular que uma turma lotada, grande, tem 40 alunos, são 350 turmas!
Denise - O que aconteceu foi a Itaipu e a Unicon constroem todos os prédios, toda essa infraestrutura, desde carteiras, mobiliários, de coisas mais simples às mais complexas, né? Material didático. E entrega para o Anglo-Americano administrar, por muitos e muitos anos, simplesmente receber os alunos e, portanto, ter também a mensalidade garantida, porque era um dinheiro da Itaipu Binacional que era entregue à Unicon e a Unicon repassava ao colégio, então o colégio não tinha inadimplência, né? Não tinha essa dificuldade do setor privado, de não receber pagamento. Isso não existia".
Eliane – Imagina um negócio privado de educação que não precisa fazer propaganda, colocar um anunciozinho em jornal, um segundo de jingle em rádio, um panfleto pra conseguir aluno? E, a cada mês, zero inadimplência?
Efeito sonoro 🎶
Denise - Por isso tudo a gente consegue entender como realmente foi uma galinha dos ovos de ouro, né? A Itaipu e a Unicon custeavam toda uma infraestrutura para o Anglo-Americano simplesmente trabalhar e ganhar dinheiro, né? Lucrar”.
Sumaia – E o Anglo ainda contou com ajuda de fora. A biblioteca do colégio foi montada pelo Projeto Especial Multinacional de Educação Brasil, Paraguai, Uruguai entre o Ministério da Educação e a Organização dos Estados Americanos, Mec/Oea, que foi criado para investir na educação do oeste do Paraná diante dos enormes impactos da construção por lá. Kuiava coordenava esse projeto, na época.
Kuiava - E também eu forneci pelo projeto Mec/Oea os livros da biblioteca do Anglo-Americano, os livros que eram de história, geografia, a literatura, a língua portuguesa eram, acho que mais de 1000 livros que foram conhecidos a essa biblioteca. Pelo projeto Mec/Oea, eu coordenei essa doação desses livros, tá?
Eliane - Bom, Sumaia, e quem conseguiu um contrato tão favorável? E como?
Sobe som🎶
Sumaia – Vamos lá. O Anglo-Americano era uma escola tradicional do Rio de Janeiro. Foi fundada em 1919 com o nome British American School, pela educadora inglesa Margareth Coney. Ocupava um palacete em Botafogo, depois abriu uma segunda unidade em outro prédio elegante na Avenida Atlântica, na orla de Copacabana. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo Getúlio Vargas proibiu que estrangeiros tivessem instituições educacionais. O nome em inglês também estava vetado. Daí, a escola mudou de nome para o que é hoje, e também foi passando para outros donos.
Eliane – Em 1974, um ano antes de conseguir o contrato com a Itaipu, foi comprado por Ney Robinson Suassuna, que assumiu a presidência da mantenedora.
Kuiava - A ordem veio de Curitiba, via telefone, do diretor-geral da Sec, professor Ernesto Penauer, determinando que eu entregasse as chaves do prédio ao senhor Ney Suassuna.
Sumaia - Foi para ele que Kuiava entregou as chaves do Polivalente. E é ele quem assina o contrato com a Unicon.
Ney Suassuna - O meu pai tinha uma escola e eu tinha essa obrigação de, por exemplo, fazer o ditado dos meninos. E assim, eu já era professor. Eu na Paraíba não só fui professor do Colégio das Damas, como fui professor do Colégio Estadual, mesmo tendo só 17 anos. Então já era uma coisa comum para mim, a área de ensino.
Eliane – Esse é Ney Suassuna, hoje com 85 anos.
Ney Suassuna - Eu tenho um primo que virou governador na Paraíba, João Agripino, e ele me disse: “Ney, eu queria lhe botar como secretário”, porque eu trabalhei muito na campanha dele. Por quê? Porque a nossa família, os Suassuna, era superior politicamente antes. Nós perdemos em 30, passamos a estar por baixo. Por quê? Porque um primo meu matou João Pessoa. E, quando matou João Pessoa, nós perdemos todos. Porque Getúlio tinha um vice. Quem era o vice? João Pessoa. Então ele botou, embora tivesse sido um problema pessoal deles dois, o nosso primo, quando fez isso, nós passamos para debaixo. Os Maia sumiram. Os Maia antes eram os donos de tudo. Nós éramos os donos de tudo, político, público. E, quando desceu, descemos, ficamos numa situação muito difícil.
Sumaia - Ney Suassuna é suplente de senador da República e já foi ministro da integração nacional do governo Fernando Henrique Cardoso. Mas a gente pede licença para começar essa apresentação bem antes, lá na infância dele.
Sobe som🎶
Eliane – Ney é paraibano. Suassuna, no caso, é o sobrenome que você deve estar pensando, mesmo.
Ariano Suassuna - "Eu não sei contar muitas histórias não, mas ao mesmo tempo eu gosto de contar histórias".
Sumaia - Ele é da mesma família de Ariano Suassuna, que por sua vez é filho do ex-governador da Paraíba João Suassuna, que teve o nome envolvido num crime que abalou o país lá em julho de 1930: o assassinato de João Pessoa.
Eliane – O resumo é que um terceiro João, o Dantas, aparentado com o ex-governador, matou João Pessoa com um tiro em meio a um conflito familiar por poder. Acontece que João Pessoa era candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas, na época. E o atentado acabou sendo atribuído aos Suassuna.
Sumaia - João, o Suassuna, também acabou assassinado dois meses depois, por vingança. E a família perdeu a posição política que tinha até então. E esse é um argumento que o Ney Suassuna usa para contar a trajetória dele como um self-made man. Sabe, aquela pessoa que vence sozinha na vida?
Eliane – Mas então Ney estava contando que o então governador João Agripino Maia queria dar um cargo de secretário pra ele, né. O primo. Mas acabou tomando outra decisão.
Ney Suassuna - Quando terminou, ele disse: “Eu queria que você fosse meu secretário, mas você está para terminar economia. Economia não tem fundamento você terminar em João Pessoa, porque santo de casa não faz milagre. Você vai para São Paulo”. Eu digo: “Como, para São Paulo?”. Ele disse: “O Faria Lima é meu compadre, eu sou padrinho do filho dele e, por essa razão, ele me dá um lugar no poder”. Faria Lima era o prefeito de São Paulo.
Sumaia - Então ele começou a vida assim, com uma ajuda do prefeito que hoje dá nome a um dos maiores símbolos da capital paulista.
Mas não gostou de São Paulo…
Ney Suassuna - Além de chamar a gente de baiano, era um povo estranho, tudo calado, tudo diferente de nós, nordestinos. Aí eu comecei a visitar o Rio de Janeiro.
Eliane – E é aí que a gente se aproxima mais da nossa história com o Anglo-Americano. Ney Suassuna fincou raízes no Rio. E lá, começou a trabalhar no Ministério do Planejamento.
Ney Suassuna - Entrei e subi com uma rapidez maior do que eu esperava. Comecei a trabalhar como auxiliar lá na área do ministro e fui subindo, subindo, subindo, no ministério.
Sumaia - Subiu tanto que passou a trabalhar diretamente com Roberto Campos, um dos ministros mais importantes da ditadura militar. Ele já passou pela nossa primeira temporada.
Eliane – Só que Ney Suassuna queria mais.
Ney Suassuna - No ministério, eu cheguei à conclusão de que há dois tipos de gente: o cara que quer subir na vida e o cara que quer ser escravo na vida. Quem é o escravo? O escravo é aquele que aceita um salário. Quem aceita um salário é um escravo. Tem que estar lá na hora, tem que estar lá naquilo, para, no final de tudo, receber aquele tantinho. Aí eu olhei e digo: “Menino, eu não posso”. Eu falei: “Não é isso que eu estou querendo”.
Sumaia - Daí, Suassuna diz que foi se aventurar no mercado privado. Recebeu uma ajudinha do Ministério do Planejamento, que mandou ele para os Estados Unidos fazer um curso de computação e manteve licença remunerada por 6 meses pra ele pensar se queria sair, mesmo. Daí, ele pegou o que aprendeu no estrangeiro e abriu um curso livre. Depois, comprou o Anglo-Americano. E seus olhos miraram de volta para o poder público, mas desta vez do outro lado do balcão.
Ney Suassuna - Consegui muitos alunos, reformei todo o colégio. Quando foi um dia, eu digo: “Mas espera aí, tem dois tipos de gente, não é isso que você diz? Vou continuar com o colégio, sim, mas vou fazer uma coisa diferente”. Comecei a olhar o que havia em volta de mim no Brasil. Descobri que tinha as grandes hidrelétricas começando a fazer. Essas grandes hidrelétricas eram aqui e no Amazonas, quer dizer, no sul e no Amazonas. Eu fui falar com o pessoal primeiro lá de Itaipu.
Eliane – Ele conta, então, teve uma reunião com o general José Costa Cavalcanti, que era o diretor-geral de Itaipu.
Ney Suassuna - Quando cheguei lá, ficaram dizendo que queriam os padres de tal ordem, não me lembro mais qual era a ordem. Tinham chamado, mas eles foram lá e não quiseram. Eu digo: “Pronto, vocês acharam quem? Então eu faço isso. O meu colégio é o Anglo-Americano”. Me convidaram para fazer um plano.
Sumaia - Ele fez o plano. Como a gente já sabe, Itaipu entrava com tudo. O Anglo-Americano, com o planejamento didático e os professores.
Eliane – Professores que o Anglo ainda não tinha, né. Ney Suassuna abriu um monte de seleção no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, e pediu pra Itaipu as casas para abrigar os profissionais. E conseguiu. Foi aí que o colégio fluminense decolou.
Efeito sonoro 🎶
Ney Suassuna - De repente, nós tínhamos nada mais, nada menos do que 14 mil alunos. Eu fiquei pasmo de ver que era um mundo. O meu colégio no Rio tinha 500 alunos, o de lá tinha 14 mil.
Sumaia - Te ajudando com a proporção: um crescimento de 2.800%.
Efeito sonoro 🎶
Ney Suassuna - Fiz o colégio também do lado dos paraguaios. Comecei a chegar nessa procura: onde tem mais? Teve Tucuruí, eu também fui.
Eliane – Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. Também teve contratos com a Petrobras para educar famílias brasileiras no Iraque, onde a estatal tinha negócios.
Ney Suassuna -Teve os japoneses, eu também fui. De repente, eu tinha quase 50 mil alunos.
Efeito sonoro 🎶
Ney Suassuna - Começou a crescer mais a faculdade de computação, e eu comecei a fazer faculdades. Fiz nada mais, nada menos do que faculdades desde o Rio Grande do Sul até a Paraíba. De tudo: medicina, economia, direito, tudo.
Sumaia - Com a fortuna que conquistou a partir de Itaipu, Ney Suassuna comprou um monte de terreno na Barra da Tijuca quando tudo ainda era mato, como se diz no popular. E multiplicou mais ainda o dinheiro com a expansão da cidade do Rio de Janeiro pra lá.
Ney Suassuna - Então eu acho que a única coisa que eu tenho mesmo de seriedade em relação a Itaipu é a saudade. Era um tempo bom, porque eu era novo, era mais forte e lutei muito. E foi uma guerra que eu ganhei. Então agradeci muito aos diretores, ao nosso general, agradeci muito. Fiquei com muita pena quando ele morreu.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Mas me tira uma dúvida, Sumaia. Ele chegou assim, do nada, lá na hidrelétrica, e conseguiu uma audiência com o diretor-geral — que era tão poderoso que foi cogitado como próximo ditador da república?
Sumaia - Foi exatamente o que eu perguntei a ele.
Sumaia - Então, quando o senhor foi recebido pelo general Cavalcanti, o senhor conseguiu essa agenda só chegando lá? O senhor conseguiu assim, ou, por exemplo, por ser do ministério, teve alguém que arrumou a reunião?
Ney Suassuna: Eu cheguei dizendo que era do Ministério do Planejamento, que tinha trabalhado com o ministro, enfim. Eu cheguei com o meu currículo também na frente.
Sumaia: E o senhor já tinha saído a essa altura do Ministério do Planejamento ou ficou com os dois por um tempo?
Ney Suassuna: Não, estava naqueles meses dos seis meses. Ou melhor, me perdoe, me deram 12 meses: seis meses pagando e seis meses sem pagar.
Eliane - Deixa eu desenhar aqui… Então ele era funcionário do poderosíssimo Ministério do Planejamento da ditadura, e mesmo sendo funcionário público conquistou o contrato com uma estatal, Itaipu, como dono de uma empresa privada, que era o colégio Anglo-Americano.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia - Suassuna também atuou como representante das instituições privadas de ensino, que no fim da década de 70 pressionava o governo por isenção fiscal e outras benesses em função da crise no país e pressão dos professores por melhores salários. Ele foi da direção do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro. Ah, e também foi do Conselho de Educação do Estado do Rio de Janeiro.
Eliane – Bom, mas deu pra ouvir dele que a escolha do Anglo-Americano para tocar a educação dos filhos dos trabalhadores em Itaipu não foi por licitação. Mesmo assim, a gente foi atrás de mais informações sobre isso.
Sumaia - Não encontramos qualquer indício de processo democrático de seleção, assim como Denise.
Denise - Eu fiz uma varredura de busca de fontes, assim, posso dizer que foi bem incansável. Estive muitas vezes nos arquivos de Itaipu, que não são fáceis de acessar. Busquei por todos os lugares, todas as fontes em Foz do Iguaçu, Câmara Municipal, todas as possibilidades de encontrar. E eu realmente não encontrei nenhum documento. Então nós temos realmente aí um caso de escolha política.
Eliane – Hoje, o Anglo-Americano de Foz do Iguaçu não é mais dele, foi vendido. Nós procuramos a Itaipu Binacional para saber se houve ou não licitação para escolher o Anglo-Americano para um contrato tão grande, mas não tivemos resposta nesse ponto. Mais pra frente, quando fecharmos essa história toda, a gente conta a posição que recebemos da empresa.
Trilha do podcast 🎶
Sumaia - Bom, além das questões envolvendo o uso de dinheiro público para sustentar um negócio privado, o Anglo-Americano acabou por reproduzir uma lógica comum a todo o projeto de assistência aos trabalhadores de Itaipu.
Eliane – O Anglo-Americano na verdade era mais de um. Existiam duas unidades do colégio.
Sumaia - Como tudo em Itaipu, a divisão de classes era extremamente rígida. Cada uma das 3 vilas que foram construídas abrigava uma classe social diferente.
Eliane – Era mais ou menos assim: na Vila A moravam os funcionários especializados, como pessoal administrativo, técnicos, um pessoal que a gente pode colocar como um CLT premium dos dias de hoje. Na Vila B ficavam os cargos altos e mais bem remunerados: executivos, engenheiros, advogados. Já a Vila C recebia o trabalhador braçal, como pedreiros e eletricistas.
Sumaia - Na Vila C, tudo foi construído para ser temporário, porque a ideia era demolir depois. O que não aconteceu por luta de quem morava lá, mas isso é outra história. Bom, era pra ser temporário e mais barato, né. Por exemplo: as casas foram construídas geminadas, em blocos com um teto único metálico, que lembra um teto de galpão, de ginásio, sabe. Se ouvia tudo entre uma casa e outra. As ruas eram de barro.
Eliane – Vila A já tinha casas independentes, com uma família por imóvel. Existiam vários modelos de casa, conforme sua importância na hierarquia da empresa. Chegavam a 150 metros quadrados. As ruas eram de asfalto. Lá também tinha um clube e o colégio mais bonito e maior.
Sumaia - E a Vila B? Ouve só como era:
Kuiava - Eram cento e poucas casas. Tinha até lareiras. Foz do Iguaçu era quentíssimo. Quando visitamos lá com o pessoal que veio de Brasília e Belo Horizonte, a gente perguntou: mas por que lareiras aqui em Foz do Iguaçu? Ele explicou assim: acontece que são casas para alta elite, são os diretores da Itaipu e da Unicon. Logo, eles precisam ter uma casa para que as esposas, os filhos tenham lugar para estar junto, para os jantares assim, as visitas.
Eliane – As unidades do Anglo também tinham diferenças. O colégio da Vila A, que existe até hoje, ocupa uma quadra inteira da cidade, bastante arborizada. E com biblioteca, laboratórios de química e física, hortas, fanfarras. Oferecia da pré-escola até o segundo grau.
Sumaia - A outra unidade ficava na Vila C. Como as casas, ela foi feita de madeira pré-fabricada, com 60 salas de aula, um ginásio e duas quadras descobertas. Mais simples que a irmã maior.
Eliane – Bom, além das diferenças no próprio colégio, a divisão rigorosa de classes em Itaipu também resvalava nos alunos de outra forma. Lembrando que qualquer espaço por lá era estratificado. Até os refeitórios no local de trabalho.
Sumaia - Valdir Sessi é outro pesquisador que teve a vida entrelaçada com Itaipu. Ele investigou como era o controle dos trabalhadores por lá. E gosta dos refeitórios como símbolo dessa divisão.
Eliane – Valdir lembra bem de como tudo era feito para garantir que cada um “soubesse” o seu lugar. Ele veio de uma família pobre de Foz do Iguaçu que saiu da zona rural pra cidade, foi engraxate quando criança e acabou mudando para a Vila C porque o irmão conseguiu emprego na obra de Itaipu.
Valdir Sessi - Em 1978 meu pai morreu. Aí nós ficamos na responsabilidade de um irmão, sabe? Então o meu irmão foi contratado no consórcio e nós tivemos direito a moradia, direito ao hospital, escola e etcetera, tudo que um filho de um trabalhador teria ele como um dizer tutor, né? Ele como responsável, então, foi por conta disso que eu comecei a estudar no Anglo-Americano em 1979.
Sumaia -– Ele estudou na escola da Vila C e também na Vila A, que abria as portas para as crianças mais pobres quando faltavam vagas na C.
Valdir Sessi - o Anglo da Vila C era um colégio mais brutão, sabe assim, ele tinha uma característica pedagógica diferente da Vila A, sabe? O da Vila A também tinha uma pegada diferente, porque as professoras e os professores, tendiam a dar mais voz aos alunos. Filhos de rico, sabe?
Eliane –– E ele lembra bem como a lógica da vida apartada se reproduzia dentro do Anglo-Americano.
Valdir Sessi - A violência simbólica, mesmo, já definia. Por exemplo, se eu viajava no ônibus da Vila C para a Vila A, então eu tinha meus companheiros que eventualmente estavam na minha sala. Então a gente sentava tudo junto e acabava que aquelas pessoas ricas, né? Filhas dos gerentes e tudo, eles se sentiam mal em sentar com a gente. Eles não usavam a cantina da escola, assim, a merenda, eles tinham dinheiro para eles ir na cantina, nós não tínhamos, entendeu? Assim, os filhos dos pobres não tinham essa oportunidade de ir lá comprar um lanche diferenciado.
Sumaia - As diferenças também estavam no tratamento recebido dentro da escola.
Valdir Sessi - A própria roupa, o próprio cabelo, o próprio tênis já denunciava a sua classe social dentro do colégio, então não precisava ser um vidente para dizer quem era rico e quem era pobre. Era bem visível mesmo, então a professora, ela não tinha dificuldade na aula para dirigir a palavra dela, entendeu? Ela já sabia só pelo tipo de calçados que a pessoa usava. Tinha colega meu de colégio que ele usava a botina que o pai dava para ele, tipo aquelas botinas de segurança, né? Quando estava mais ou menos assim, não dava mais para usar dentro do lá dentro do canteiro de obra. Na atividade dele, ele dava para o filho e para escola.
Eliane – Denise conta que ouviu um termo nas entrevistas que fez: os chuta barros.
Denise - Porque eles vinham com barro nas solas dos calçados. Porque a Vila C demorou muito para ser asfaltada, né? E a Vila A foi asfaltada antes, então o as crianças da Vila C eram os famosos chuta barros.
Sumaia – Aliás, não existia 2º grau na Vila C.
Denise - Então a gente entendia que aos filhos dos trabalhadores mais subalternos, o que que era destinado, ofertado? Era uma educação de primeiro grau e na sequência eles eram encaminhados pra cursos profissionalizantes ou no Senai ou qualquer outro curso profissionalizante ofertado ali nos centros comunitários. Por que não havia oferta de segundo grau na Vila C? Alguns poucos que queriam fazer o segundo grau tinham que ir para Vila A. E iam, aceitava-se que eles que recebessem, mas mesmo assim eram os famosos chuta-barros, que chegavam com os calçados cheios de barro.
Eliane - Como o ensino médio profissionalizante era obrigatório, o Anglo oferecia, na Vila A, cursos preparatórios para o ensino superior. Já os cursos da Vila C eram voltados ou para o cuidado ou para profissões que não passassem pela universidade.
Sumaia – Segundo Denise Sbardelotto, mais do que separar classes, a ideia parecia ser manter essa divisão. Formar as novas gerações para continuar na faixa de onde vieram.
Eliane - O Anglo-Americano era um dos braços do que Denise chama de “projeto educacional de Itaipu”. O conceito dela é que existia uma estrutura ideológica para viabilizar que um empreendimento tão imenso fosse construído sem interrupções – e sem correr o risco de “subversivos” reivindicarem nada. Ou sabotarem a obra, como eles temiam.
Sumaia – Nós encontramos uma série de documentos confidenciais do principal órgão de espionagem da ditadura, o SNI, o Serviço Nacional de Informações. Eles mostram que brasileiros e paraguaios foram investigados com base nessa suspeita. Uma colaboração entre as forças armadas do Brasil e Paraguai.
Trecho Relatório Confidencial - Pedido de busca número 004/20/AC/76, 31 de maio de 1976. Esta AC verifica o grande interesse de subversivos brasileiros e paraguaios em se infiltrarem na administração e canteiros de obras da Binacional Itaipu, visando à execução de propaganda e agitação dentro da empresa, com possíveis ações de sabotagem em seus diversos escalões”. Solicita-se enviar os dados conhecidos sobre as seguintes pessoas, relacionadas direta ou indiretamente com as atividades subversivas supracitadas:
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Um dos espionados foi o Agustín Goiburú, médico paraguaio e opositor da ditadura de Alfredo Stroessner. Em 1977, ele foi sequestrado na Argentina e assassinado pela Operação Condor, uma estrutura de articulação entre ditaduras da América do Sul com apoio dos Estados Unidos. Em 2006, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o estado do Paraguai pela morte de Goiburú.
Sumaia – É, o controle da região tava na mão da ditadura, né. Foz do Iguaçu era uma das áreas de interesse da segurança nacional, onde os prefeitos eram nomeados pelos ditadores, sem participação popular direta ou indireta.
Eliane - O coronel Clóvis Cunha Vianna passou 10 anos como prefeito biônico de Foz, de 1974 a 84. Formação: engenheiro. De onde? De Itaipu. Indicado pelo presidente da hidrelétrica, general Costa Cavalcanti.
Sumaia – E Itaipu tinha um aparelho repressivo para chamar de seu: a Assessoria Especial de Segurança e Informações, Aesi, ligada ao Sni. A mesma estrutura que foi instalada em universidades e estatais. Além de vigiar os trabalhadores, as Aesis atuavam nas fronteiras, acompanhavam o que ocorria em Foz, de políticos a jornalistas e até padres, e colaboravam com ditaduras vizinhas. Um exemplo é o documento que a gente trouxe um trecho agora há pouco.
Eliane - Para trabalhar em Itaipu, todo mundo era investigado antes. E até os professores do Anglo-Americano eram “fichados” lá.
Denise - Então, quando se chegava na Unicon para fazer uma ficha de emprego, a ficha desse trabalhador, desse cidadão, ela já era puxada imediatamente, né? Demitiu trabalhadores, existiu até um quartel, uma espécie de uma cadeia dentro da Itaipu, né? Tinha um jornalzinho que alguns trabalhadores criaram no início denunciando algumas questões, algumas arbitrariedades, e esse jornalzinho foi duramente reprimido, né? Quem coordenava, demitido e tudo mais. Os trabalhadores da educação, eles também tinham a sua ficha puxada, né? Então ninguém trabalhava na Itaipu sem ter a sua vida em vasculhada investigada, né? Então, dentro do colégio, a gente, com certeza, professores que não davam trabalho, porque se eles dessem qualquer tipo de trabalho, eles seriam demitidos.
Eliane - E a autonomia do Anglo-Americano era limitada pela ditadura.
Denise - Existia um setor de educação de Itaipu que fazia uma verdadeira auditoria nessas escolas. Então existia uma funcionária, um setor equipado com uma série de profissionais que faziam visitas periódicas ao Anglo-Americano da Vila A e da Vila C para saber se as coisas estavam acontecendo de acordo com o que Itaipu esperava. Então o Anglo-Americano talvez respondesse muito mais a esses auditores da Itaipu. E isso era uma coisa absurda, né? Porque nós tínhamos ali uma entidade e um consórcio de construtoras interferindo diretamente em questões pedagógicas e políticas ali dentro do colégio.
Sumaia – O controle de Itaipu sobre o que era ensinado no Anglo-Americano era firmado em contrato, mesmo. O documento dizia que a escola tinha que permitir a fiscalização da Unicon, embora constasse que estava garantida a autonomia administrativa e didática do colégio. A justificativa girava em torno de garantir um elevado padrão de ensino na instituição. [Efeito de bater continência da tropa]
Eliane - Já fora da bolha de Itaipu, a situação era contrastante.
Sumaia – Se por um lado foi uma escola privada que ficou com o grosso dos estudantes de Itaipu, por outro, o ensino público pagou seu preço na construção da hidrelétrica. [Sobe som de água inundando por alguns segundos, depois entrar como Bg no loc abaixo até “submersas”]
Eliane - A começar pelas escolas inundadas. Denise calculou 95 instituições submersas. E, como os moradores dos distritos inundados não foram realocados...
Sumaia – Deixa eu interromper um pouco só para explicar melhor essa informação.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – O pessoal não foi realocado porque eles foram indenizados. A escolha foi por dar o dinheiro na mão dos moradores e dar “liberdade de escolha” pra eles, como foi o argumento da ditadura. Só que, na indenização, só valia o valor da terra. Não contava a casa que tinha lá ou a atividade econômica que a pessoa exercia nela. E foi todo mundo sendo indenizado aleatoriamente. Pensa: vai saindo um vizinho aqui, outro lá. Você não sabe o quanto deram a ele, ele não sabe o quanto vão dar aos outros. Quando chega na sua vez, não sobrou mais gente pra fazer pressão junto com você.
Trecho de Jornal - Estado de S. Paulo, 11 de Abril de 1982 - Alvorada do Iguaçu e Itacorá foram inteiramente submersos pelo reservatório de Itaipu, deslocando muitas pessoas não apenas de suas propriedades, mas de sua cultura, seus patrimônios culturais e históricos, suas vizinhanças e expectativas de vida. Na porta de uma escola já desocupada foi encontrada a seguinte frase de despedida e que demonstra o apego daquelas famílias à sua vida na vila: “Muito adeus escola. Adeus querida.”
Eliane - E como os moradores saíram por aí inchando outros municípios sem planejamento, essas unidades não foram reconstruídas em outro lugar para atender quem elas já atendiam.
Sumaia – A Denise fala que “supostamente” houve alguma indenização, mas os registros da prefeitura de Foz do Iguaçu, por exemplo, não existem mais. E quando falamos pra Denise que a gente também ia atrás…
Denise - Boa sorte, eles não tem muita informação. Eu tenho a sensação, quando eu estive lá, que teve um incêndio, que eles não tem absolutamente nada naquela prefeitura. E eu não duvidaria que realmente tenha sido feito uma grande fogueira. Tá? Mas é, você pode tentar .
Eliane - Nós entramos em contato com a prefeitura de Foz do Iguaçu por e-mail, por WhatsApp, nos passaram de uma pessoa para outra e, no fim, não houve retorno.
Sumaia – O que sabemos é que uma parte minoritária das escolas foi reorganizada em outros locais, segundo leis da época. Outras, extintas, mesmo.
Sobe som 🎶
Sumaia – Bom, Itaipu financiou alguns projetos para a educação pública. Mas isso também envolvia os próprios interesses.
Eliane - Denise explica que também encontrou notícias de escolas construídas ou ampliadas pela Itaipu e entregues à Foz do Iguaçu e outros municípios atingidos pela barragem da hidrelétrica. Em 1989, uma notícia do jornal O Nosso Tempo falava de 18 unidades. Um informe da própria Itaipu anuncia a entrega de 3 instituições com 24 salas de aula. Mas a pesquisadora avalia que as ações são insuficientes para o impacto do empreendimento na região.
Denise - Tiveram algumas iniciativas muito pontuais de reforma de alguns de algumas escolas de periferia, rurais, algumas escolas em outros municípios nos arredores, mas eram reformas e ampliações muito ínfimas, muito inexpressivas, comparadas ao montante de recursos que foram canalizados ao Anglo-Americano por muitos anos.
Sumaia – Sabe o que precisaram fazer lá em Foz do Iguaçu pra caber todo mundo nas escolas existentes? Um terceiro turno de aula. A carga horária escolar de todo mundo foi reduzida para caber os 3 turnos em um dia só.
Kuiava - Foi difícil, porque tinha um turno que era das 11:00 às 14:00. Eram meio-dia, na hora do almoço.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Ainda existiram algumas iniciativas voltadas para a educação na região feitas pelo Projeto Mec/Oea, que José Kuiava coordenava. Formação de professores, estruturação de escolas.
Sumaia – Bom, a opção pela contratação de uma escola privada e não pela expansão e qualificação do ensino público ainda cobrou outro “preço” lá na frente. Quando a obra acaba, uma quantidade enorme de trabalhadores vai sendo desligada. Com isso, já que o ensino é pago, os filhos perdem o direito de estudar no Anglo. Daí, migram para a rede pública, que não cresceu para abrigar esse novo contingente.
Eliane - O Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado de Foz do Iguaçu de 1989 dá um retrato da educação municipal nessa época: 20% da população de 8 a 14 anos não estava matriculada. 9 mil crianças. Mais da metade da população ou era analfabeta ou só sabia escrever o nome.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – A essa altura, o Anglo-Americano também não estava mais com o negócio lucrativo de antes.
Eliane - Em 1982, quando a obra chega ao fim, as matrículas começam a diminuir. Os salários da rede pública estadual já não eram menores que os do Anglo. Aliás, até ficaram mais altos. Junte isso à enorme inflação da época. Nesse mesmo ano, foi de mais de 100%.
Sumaia – Aí em 1988 o colégio começa a dar as primeiras braçadas no mar aberto do mercado de Foz do Iguaçu, como qualquer outro colégio privado.
Eliane - Um aditamento ao contrato permitiu matrículas de alunos “independentes”, da comunidade, desde que não prejudicassem a prestação do serviço a Itaipu.
Sumaia – Dois anos depois, já sabendo que a Itaipu tinha interesse em acabar com esse esquema de contratação exclusivo do Anglo-Americano, o colégio repassa a unidade da Vila C pro poder público.
Leitura - Trecho Relatório Anual Itaipu de 1990 : [...] Pelo fato de a estrutura de ensino da Itaipu ter-se tornado maior do que a necessidade da entidade, a escola da Vila C foi transferida para a administração municipal de Foz do Iguaçu, e a escola da Vila A foi arrendada a uma entidade particular até a licitação para sua venda definitiva. (Relatório Anual Itaipu, 1990, p. 10).
Eliane - A pré-escola da Vila A também é repassada. Fica o filé: a instituição que atendia os trabalhadores mais bem remunerados e que não eram o grosso dos demitidos depois que as obras terminaram.
Sumaia – A transferência de parte das escolas pra prefeitura foi oficializada no começo dos anos 1990. Quem estudava na Vila C e ainda tinha familiar em Itaipu foi transferido pra escola da Vila A.
Eliane - Foi aí que, em 1993, o Anglo-Americano passou a pagar aluguel do prédio que ocupava e conservar o patrimônio. A escola ainda receberia alunos da Itaipu, mas já estava aberta à comunidade. E os trabalhadores da usina não mais precisavam manter os filhos no Anglo, pois passaram a receber auxílio educação para escolher livremente a escola.
Trilha do podcast 🎶
Sumaia – Agora vamos às respostas. Quem já acompanhou o episódio anterior sabe que a Itaipu Binacional decidiu se pronunciar em nota sobre as questões que estamos levantando nessa temporada. Entre as nossas perguntas, estava o caso do Anglo-Americano.
Eliane - Perguntamos, por exemplo, se o contrato seguiu boas práticas administrativas do setor público, se era razoável, levando em conta o pagamento de toda a estrutura da escola, para além das mensalidades, e se existiam registros do motivo que levou Itaipu a optar pela educação privada e não estruturar o setor público de ensino.
Sumaia – A empresa não respondeu diretamente às dúvidas, mas afirmou que a chegada de milhares de trabalhadores a Foz do Iguaçu exigiu a criação de infraestrutura inexistente, como moradias, hospital e o Anglo-Americano. E afirmou que havia qualidade de ensino.
Leitura Nota- No Anglo-Americano, os filhos dos chamados barrageiros tinham acesso a uma educação integral, gratuita e inovadora para o período, que incluía, além das disciplinas tradicionais, atividades artísticas, culturais e de campo, apresentações de dança e teatro e sessões de cinema. Relatos de ex-alunos e professores indicam que esse modelo educacional contribuiu significativamente para a formação dos estudantes.
Eliane - obre as escolas inundadas, investimento na rede pública da época, isso tudo que tratamos aqui, não tivemos resposta.
Sumaia – A nota também cita ações atuais para afirmar que o “apoio à educação permaneceu ao longo dos anos”.
Leitura Nota- O apoio à educação permaneceu ao longo dos anos, como evidenciado pela atuação da Itaipu na mobilização para a instalação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em 2010. Atualmente, o Itaipu Parquetec abriga cursos de universidades públicas, como a Unioeste, e utiliza seus laboratórios na formação acadêmica, além de receber estagiários de diversas áreas do conhecimento.
Eliane - A gente disponibilizou a nota inteira na página do podcast, em radioagencianacional.ebc.com.br.
Sumaia – Também procuramos o Colégio Anglo-Americano em Foz do Iguaçu, que agora não é mais de Ney Suassuna, mas não houve retorno.
Eliane - Para o próprio Ney, a gente falou que existiam críticas de pesquisadores pela escolha de Itaipu em direcionar o grosso dos recursos públicos de educação para um contrato privado, e não a educação pública.
Sumaia – O senhor acha que, olhando para trás, poderia ter sido diferente, assim, do ponto de vista...? Eu sei que o senhor estava aproveitando uma oportunidade, mas...
Ney Suassuna: Não poderia, não poderia. Porque a cidade de Itaipu tinha 10 mil pessoas. Era muito pouca gente e não tinha como botar, não tinha os prédios, não tinha nada, não tinha outra forma a não ser essa.
Sumaia - Então o governo não teria condição de estruturar do jeito que o senhor estruturou?
Ney Suassuna: Nem tinha a menor chance. Nem no municipal e nem tampouco no estadual. Em nenhum lugar. Tucuruí, no meio da mata. O japonês no meio do Pará. Não tinha, não tinha nada. Quem nós éramos... os que estávamos lutando para fazer crescer o grupo, éramos os desbravadores.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – Bom, mas quando o Anglo-Americano passou a ser só mais uma escola privada de Foz e chegou ao fim o que Denise chamou de galinha dos ovos de ouro, o mercado da educação já estava bem desenvolvido e era mais fácil pros grupos privados se manterem.
LOC - Porque não foi só o Anglo que se deu bem na ditadura. Foi nessa época que a expansão do ensino privado de fato começou. E a ditadura tem tudo a ver com isso.
Trilha do podcast 🎶
Silvana - Nós sabemos que o Brasil teve uma expansão do sistema educacional, vamos dizer, tardia se comparada com outros países da própria América Latina. Então, nós tínhamos na primeira metade do século 20, um país de maioria analfabeta, né? Tanto que muita gente, diz: era um país de analfabetos e desdentados.
Sumaia – Essa é a professora da Unioeste, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, pedagoga Silvana Souza, com pós-doutorado em política social.
Eliane - Para compreender o pós-golpe, é bom lembrar do pré-golpe, e é sobre isso que ela está falando. Na primeira temporada, a gente já tinha falado da situação da educação no país antes de 1964.
Efeito sonoro 🎶
Lia Faria - Só existia público, de graça, o primeiro segmento de ensino fundamental (...).
Sumaia - 41% da população só ia até o que chamamos hoje de primeira fase do fundamental. Juntando com os analfabetos, temos aí quase 9 em cada 10 brasileiros.
Lia Faria: Eu fiz o primário na escola pública. Eu me lembro que na escola inteira só tinha uma aluna negra. (...) Depois, quando você acabava o antigo admissão, que era o quinto ano, não existiam ginásios públicos. (...)
Sumaia - E pras etapas seguintes o funil era ainda mais impressionante. Escolas de ensino médio públicas com autorização formal para funcionar eram 2.300 (...)
Lia Faria - Tudo pouquíssimo, disputadíssimo e com concurso público.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – Volta lá, depois, no episódio 5, Fermento na Massa, para conhecer essa história com mais profundidade.
Luiz Antônio Cunha - Tudo isso que você falou em termos de elitização de exclusão, tudo isso, mas tem um dado muito importante…
Eliane - E esse é Luiz Antônio Cunha, sociólogo, educador e professor emérito da UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Sumaia – E o dado que ele fala que é importante é que, nessa época, apesar de insuficientes, as escolas públicas eram geralmente melhores que as particulares.
Luiz Antônio Cunha - O chamado fundamental 2 e o ensino médio, em cada estado do Brasil havia pelo menos uma escola pública e era o melhor que havia. Escolas privadas podem ser tão boas quanto essas escolas públicas, mas não eram as melhores. Depois do golpe, essa situação vai mudar.
Eliane - As escolas privadas mais fortes da época eram as confessionais, que são as religiosas.
Sumaia – E também já existia um lobby pela expansão da educação privada.
Eliane - A primeira Lei de Diretrizes e Base da Educação, a LDB, foi criada no governo Jango, depois de 13 anos de tramitação e disputas intensas no Congresso Nacional e fora dele. Foi sancionada no fim de 1961. E teve uma intensa campanha para abertura de espaço ao setor privado n.
Sumaia – E aí quem lidera essa discussão na época?
Luiz Antônio Cunha - A elaboração da LDB resultou de uma longa campanha, intensa campanha da igreja católica para a privatização do ensino pós-primário……. Isso porque os colégios católicos estavam entrando em crise. Naquela época de luta pela LDB, os empresários do ensino não eram suficientemente fortes em termos políticos para sustentarem uma luta pelas políticas educacionais, então eles usavam a igreja católica como comissão de frente.
Sobe som 🎶
Sumaia – Ouve só um trecho de uma carta que os bispos gaúchos enviaram em 1958 à presidência da República, que ficou conhecida como Manifesto dos Bispos:
Trecho da Carta - Porto Alegre, 29 de março de 1958: "O Arcebispo Metropolitano e os Bispos da Província Eclesiástica de Pôrto Alegre pedem vênia a Vossa Excelência para representar acerca das gravíssimas conseqüências que, com repercussão sôbre tôda a vida nacional, advirão da insistência com que órgãos do Govêrno Federal propugnam a implantação exclusiva de sistemas de ensino oficiais em todo o País, do mesmo passo que hostilizam, e sem tréguas, a iniciativa particular nesse mesmo campo de atividade."
Eliane - Anísio Teixeira, que nessa época era diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, o INEP...
Sumaia - E a gente já contou na primeira temporada do Perdas e Danos... quem foi um dos agentes do golpe, que impulsionou o apoio civil nas ruas?
Luiz Antônio Cunha - Esse segmento político, a igreja católica, que acabou puxando os empresários de ensino para o campo do poder. Os militares não eram espontaneamente privatistas na área do ensino. Eu entrevistei vários. Eles tinham, digamos, uma perspectiva espontânea de apoio ao ensino público. No entanto, quem ganhou no campo educacional foram essas forças políticas que os apoiaram. Que apoiaram os militares do golpe de Estado. E acabaram forçando mudanças na política educacional no sentido da privatização.
Eliane - Sabe quem era outro defensor inclusive da destinação direta de dinheiro público pras escolas particulares? O então deputado Carlos Lacerda, um dos maiores apoiadores do golpe.
Sumaia – É isso, na LDB de 1961, as portas estavam se abrindo para a expansão do ensino privado. Mas também existia uma vinculação de receitas: uma obrigação da União, estados e municípios gastarem um percentual mínimo com educação, o que era um marco. E avanços no reconhecimento do dever do Estado de oferecer educação gratuita.
Efeito sonoro 🎶
Eliane - Acho que vale explicar aqui. Quem foi pra escola pós-constituição de 1988 talvez não saiba, mas o conceito de que o poder público é obrigado a fornecer escola de graça em todas as etapas é recente, tá. Antes, era só até a primeira metade do fundamental.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – Já com o golpe, o setor privado da educação ganhou como aliado um Estado autoritário, que de um lado perseguia, prendia e exilava muitos dos que defendiam a educação pública…
Eliane - E do outro lado, a ditadura gerava as condições para o crescimento das escolas particulares. Os métodos e os resultados foram divididos em várias frentes. Para abrir caminho no campo regulatório, no planejamento da política educacional do país, por exemplo, o Conselho Federal de Educação foi um alvo.
Luiz Antônio Cunha - De que modo, imediatamente? Mudando a composição do conselho federal de educação. Acabava o mandato dos conselheiros antigos e os novos iam sendo substituídos, por exemplo, em 1968, terminou o mandato de Anísio Teixeira e Durmeval Trigueiro, que eram baluarte de defesa do ensino público. E foram substituídos por proprietários de estabelecimentos de ensino ou seus prepostos. Portanto, eles elaboravam pareceres do conselho que facilitavam a criação e autorização de instituições de ensino, inicialmente dando orientação para os conselhos do âmbito estadual e depois esse movimento subiu ao ensino superior e foi então a época do grande crescimento das instituições de ensino superior privadas.
Sumaia - Genuíno Bordignon, autor do livro Conselhos de educação do Brasil (1842/2020) fez um levantamento a partir das autorizações de funcionamento dadas pelo conselho.
Eliane - Entre 1968 e 1978, o número de instituições particulares cresceu 130% e as matrículas 340%.
Luiz Antônio Cunha - A ênfase passou a ser na criação das instituições privadas. Não que tivesse um plano geral para isso. Mas era uma espécie de microplanejamento interno, não é, não explícito, nas normas que vão acontecendo dentro do governo. Então todo aquele… o movimento estudantil dos primeiros anos do golpe, que era só com o lema de mais verbas para as universidades públicas, não para as universidades privadas, e mais vagas nas universidades públicas. Esse lema foi amortecido pelo grande crescimento das instituições privadas de ensino superior.
Eliane - E aí nós chegamos em um conjunto de políticas que, hoje, são muito defendidas como necessárias para acessar um ensino de qualidade, num país com um mar de escolas e faculdades privadas e problemas de vários tipos na educação pública. São mecanismos já incorporados nas nossas vidas e certamente seria muito impopular acabar com eles.
Sumaia - Mas naquela época, quando a rede privada era muito menor e a necessidade de expansão da rede pública era muito maior, a opção por criar essas políticas teve um peso grande para traçar o futuro da educação brasileira. Ou seja: hoje, a política pública se aproveita do tamanho da rede particular. Na ditadura, a política pública é que foi criada para montar a rede. Por exemplo:
Luiz Antônio Cunha - Para manter esse mercado de funcionamento, criou-se o crédito educativo. O crédito educativo visando beneficiar estudante? Não, visando beneficiar as instituições de ensino que cobravam as mensalidades.
Trecho da Lei do Crédito Estudantil - Resolução do Banco Central do Brasil, nº 356, de 12 de janeiro de 1976. Institui Crédito Educativo Bancário para custeio de anuidades e despesas de manutenção de estudantes.
Eliane - O Programa de Crédito Educativo foi criado em 1976. Quando chegou ao fim, tinha mais de 80% de inadimplência.
Sumaia - Aliás, encontramos um projeto de lei de 1981 para isentar estudantes pobres dos juros do empréstimo. E olha um trecho que embasa a proposta:
Leitura - Trecho PL 5.290 de 1981: No início da década de sessenta, a União era responsável por 70% do total de matrículas nos estabelecimentos de ensino superior, cabendo à privada os 30% restantes. Hoje, inverteram-se os papéis. Em alguns estados, como o de São Paulo, mais de 90% do alunado universitário frequentam escolas de ensino superior pagas.
Eliane - Outra mudança foi a dedução de despesas com educação privada no imposto de renda. Silvana novamente.
Silvana Souza - “Eu chamo de bolsa família classe média. É uma das primeiras ações dos militares depois do golpe. Foi um decreto lei que criava uma renúncia fiscal para as famílias que comprovassem gasto privado educacional com seus dependentes. Poderia abater do imposto de renda. Isso existe até hoje, né? Então veja, isso é um incentivo a tirar seu filho da escola pública e colocar na privada, porque daí não haveria um aumento de gastos, já que você pode deduzir essa despesa no imposto de renda”.
Sumaia - A terceira via de escoamento do orçamento foi uma renúncia fiscal. As empresas que investissem na formação dos seus próprios funcionários ganhariam uma dedução de impostos.
Silvana Souza - Eram as próprias empresas que custeavam a formação dos seus funcionários. O Ford fazia a formação dos seus próprios funcionários e tentava fidelizá-los para não perder essa formação, porque senão o trabalhador vai embora, vai junto o dinheiro do investimento na formação daquele trabalhador. Então, tentava fidelizar o trabalhador por isso. Então, a segunda linha foi empresas que investirem na formação dos seus trabalhadores podem deduzir isso dos impostos a pagar.
Trilha do podcast🎶
Eliane -Nós buscamos dados de despesa com educação no Brasil ao longo dos anos para entender se o impacto dessas mudanças orçamentárias era visível nos números. Thomas Kang é economista e professor da UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Junto com Isabela Menetrier, ele atualizou os dados anuais sobre despesas com educação que até então eram referência para acadêmicos e analistas. Cruzando dezenas de fontes de dados, corrigindo distorções, tentando minimizar lacunas, ele estabeleceu, por exemplo, qual foi o gasto na área em relação ao PIB brasileiro ano a ano, desde 1933 até 2010.
Sumaia - O Thomas conseguiu chegar a alguns indicativos do que ocorreu nessa época. E os resultados são menos óbvios do que poderíamos pensar.
Thomas Kang - Então historicamente, o gasto de educação era baixo. Nos anos 30, era, inclusive, só um pouco mais do que 1%. Lá nos anos 50, em torno de 1,5%. Foi subindo até nos anos 60 estar mais perto ali de 2%, mais ou menos, do PIB. E chega no regime militar, na verdade tem um crescimento, tá? Então isso talvez surpreenda um pouco. Chega aí perto de 2,5%, tá? E vai crescendo até 73, mais ou menos, e aí sim, há uma queda relativa nas despesas de educação.
Eliane - Thomas encontrou uma relação do aumento das despesas com uma reforma tributária feita logo no início da ditadura.
Thomas Kang - Em 1963, você tinha 16% do PIB que eram impostos. Quando chega em 1969, seis anos depois, a carga tributária vai para 26% do PIB. Então, essa maior capacidade fiscal do estado brasileiro, ele também permite que se aumente então os gastos em educação.
Sumaia – E a redução, segundo ele, se deu por uma opção política.
Thomas Kang - Ali por 73, 74, tu tem o choque do petróleo e o choque do petróleo gera uma dificuldade imensa. O Brasil estava muito longe de ser autossuficiente. E o governo militar ali, o governo do Geisel, faz uma aposta de ‘não, vamos continuar industrializando fortemente, então ele toma várias medidas assim de ‘a gente vai continuar investindo na indústria? A gente vai. A gente vai investir em infraestrutura, mas de onde é que a gente vai tirar esse dinheiro?’ Em boa parte, em endividamento externo, e também retirando recursos de outros lugares. Então, ali a educação começa a sofrer.
Eliane - E isso inclui retirar recursos dos estados.
Thomas Kang - Que eram os principais financiadores da educação básica, e isso acabou, na verdade, prejudicando a expansão da educação básica.
Sumaia - Uma observação, tá. Estamos falando de despesas em educação de todos os níveis de governo, não só o federal. Entram aí estados e municípios.
Eliane - Quando a gente olha para os dados separados por nível de governo, dá para perceber que essa tendência de alta é mais visível nas despesas dos estados. A União tem um crescimento mais suave.
Sumaia - E é possível ver que a queda de investimento do governo federal já ocorre em 1967.
Eliane - Foi esse o ano da nova Constituição Federal do país. E o que acontece? A ditadura regrediu na vinculação de receitas para a educação. Ela retirou totalmente da Carta Magna os percentuais mínimos de investimento dos governos federal, estaduais e municipais na área. Esses investimentos mínimos existiam na Constituição de 1946.
Sumaia – E os militares ainda incluíram este trecho aqui sobre o ensino pós-primário:
Efeito sonoro 🎶
Leitura: Artigo 168, Parágrafo Terceiro, Inciso III: (...) Sempre que possível, o Poder Público substituirá o regime de gratuidade pelo de concessão de bolsas de estudo, exigido o posterior reembolso no caso de ensino de grau superior.
Eliane - Os militares não só não aumentaram os anos de escola gratuita obrigatória como determinaram que a prioridade era dar bolsa para estudar na iniciativa privada.
Sumaia – Dois anos depois, uma emenda constitucional piorou as coisas.
Efeito sonoro 🎶
Leitura - Artigo 176, Parágrafo Segundo: “respeitadas as disposições legais, o ensino é livre à iniciativa particular, a qual merecerá o amparo técnico e financeiro dos poderes públicos, inclusive mediante bolsas de estudo”. Inciso III – “O Poder Público substituirá, gradativamente, o regime de gratuidade no ensino médio e no superior pelo sistema de concessão de bolsas de estudos, mediante restituição”
Eliane -Traduzindo: a educação particular tinha que receber apoio financeiro do poder público. E o projeto era substituir o ensino médio e superior públicos por um sistema de bolsas na rede privada.
Efeito sonoro 🎶
Sumaia – O governo federal de fato avançou na política do ensino superior pago.
Luiz Antônio Cunha - O ensino superior do Brasil sempre foi pago. A lei dizia que devia ser cobrado. O ensino gratuito era só no ensino primário. Só que durante as décadas de 1950 e 1960, a inflação foi se acelerando e o valor das mensalidades não foi sendo reajustado na mesma medida. Então chegou a um ponto que era mais caro cobrar do que deixar gratuito. Então, o que é possível dizer que na época do golpe, em 1964, o ensino superior federal era gratuito de fato, mas não de direito. Depois do golpe, falaram: vamos passar a cumprir a lei, então cobrar mensalidades. Por que que isso interessava especialmente ao setor privado? Se as públicas tinham vantagem da qualidade e também do prestígio, elas tinham também a vantagem da gratuidade. Mas se elas começassem a cobrar e chegassem ao nível de preços de mercado, essa vantagem comparativa diminuiria. Percebeu o mecanismo?
Eliane - O plano era ir além, aprofundando a privatização das universidades.. Num modelo parecido com os Estados Unidos. O convênio Mec Usaid abriu um departamento inteiro dentro do Ministério da Educação para que técnicos norte-americanos pudessem “assessorar” as mudanças no ensino brasileiro.
Sumaia – Por influência estadunidense ou dos empresários brasileiros, outras leis turbinaram o pacote para a expansão da rede particular de ensino.
Eliane - Com a justificativa de formar professores rapidamente, a ditadura criou a licenciatura curta. Era uma formação mais rápida e precária que, ao fim, permitia que a pessoa começasse a dar aulas. Além de ser um formato mais lucrativo, a mudança derrubava a remuneração dos professores.
Sumaia - Outra redução foi a de anos letivos. E sabe educação a distância? Foi instituído o vovô dos cursos EaD atuais.
Silvana Souza - Na época, a educação a distância era como? Eram faculdades que eram autorizadas para educação a distância e que, na verdade, exigia um mínimo de presença. As pessoas iam lá, eram faculdades que tinham aula sexta e sábado. Tinha um professor e um auditório no final de semana, um auditório enorme de 300, 400 pessoas que passava. Essa lista tinha um bedel que se chamava, né? Passava essa lista, as pessoas iam assinando. [Tentar achar algo midiático sobre essas aulas]
Eliane - Dez horas seguidas de aula, muitas vezes. Começava na sexta e depois tinha todo o dia de sábado. As pessoas saíam de cidades vizinhas para comparecer. Ou não exatamente…
Silvana Souza -Criou-se, à época, um sistema em que os alunos pagavam uma pessoa da cidade para ir lá assinar a lista de presença por eles. Tinha ônibus que saíam do interior sexta-feira para as pessoas irem só no sábado. O principal era assinar a lista, não era assistir aula, não era nada disso, entendeu? Então também um sistema corrupto, porque eram turmas excessivamente grandes. E aí saber quem era quem, que assinava com aquele nome, dizia que era e pronto, né?
Sumaia - Mesmo tirando da equação essa possibilidade de matar aula, ainda sobram outros problemas.
Silvana Souza - É uma forma de ganhar dinheiro em larga escala. Um sistema que vise a qualidade, você teria que pagar 5 professores, um para cada 40. Você paga um para 200, tá economizando. De pagar 5 professores, você paga apenas um.
Sumaia - Era uma educação para servir às empresas, e não às pessoas que estavam sendo educadas. Por exemplo, ao focar na formação para o mercado. Inclusive reforçando os muros entre classes sociais.
Eliane - Lembram da escola polivalente que foi entregue ao Anglo? Que era uma política da ditadura o ensino profissionalizante obrigatório no ensino médio?
Silvana Souza - Os militares intensificaram esse pragmatismo econômico na educação e o acordo MEC-Usaid tem essa característica, esse DNA que significa o quê? Aos trabalhadores, a educação mais curta e objetiva possível. Para ir logo para o mercado de trabalho com o menor custo possível, né? Vai logo trabalhar e não fica tendo ideia de ir para faculdade, de virar intelectual, de virar determinadas profissões que não é para si, né?
Sumaia - E lembra que, dependendo da unidade do Anglo, essa formação era voltada para preparar pro ensino superior ou para que o filho do pobre saísse de lá já pra trabalhar e não pra universidade? Pois é, essa era a política geral do país.
Silvana Souza - A elite, é claro, dá um jeito. Então você tinha, por exemplo, no ensino médio, o magistério que era para formação de professores, e tinha contabilidade, que era para formação de técnico em contabilidade. E tinha patologia clínica e tinha DA, desenho arquitetônico. Que, veja, era um curso para formação do ensino médio para preparar para engenharia um, para medicina o outro. Adivinha onde é que os filhos da classe trabalhadora se matriculavam hegemonicamente? Claro que no magistério e em contabilidade, que são cursos técnicos, mesmo, operacionais. Houve uma diferenciação entre os diferentes profissionalizantes, que aí exigiam mais laboratório, mais aulas de química, mais aulas de física, disciplinas de formação básica geral que todo ser humano deveria ter direito ao acesso pelo simples fato de ter nascido, independente da sua condição econômica, né? Então, mesmo quando parecia promover uma política de igualação, era uma política de diferenciação de classe. Uma escola para cada classe social.
Trilha do podcast🎶
Eliane - Seja no planejamento da educação, na prioridade de investimentos ou da política de repressão aos trabalhadores, o projeto da ditadura estava posto. Mas existem casos em que linhas foram cruzadas para além do dinheiro. Envolveram violência direta contra pessoas.
Sumaia - Algumas dessas histórias foram investigadas pela Universidade Federal de São Paulo a pedido do Ministério Público Federal, como já falamos nesta temporada. A gente ainda vai contar melhor esse processo.
Eliane - Mas uma dessas empresas chamou nossa atenção por outras informações que descobrimos ao longo da nossa pesquisa.
Sumaia - Quer dizer. A história levantada pelos pesquisadores já é rica em provas de violações de direitos humanos. Já é cheia de detalhes sórdidos. Mas tem mais. O que essa empresa guarda é o elo entre ditadura e outras páginas infelizes da nossa história. [Trecho música Chico Buarque]
Eliane - Quanto mais a gente se aprofundava, mais entendia que essa era uma jornada pelas raízes do Brasil e a sina da desigualdade.
Sumaia - O próximo capítulo ajuda a gente a entender a ditadura de uma forma diferente. A ler a história do país com uma lente grande angular. Olhando prum cenário maior. Mais antigo. Vamos mergulhar no Brasil da escravidão. [Vinheta dos créditos]
Eliane - Essa é a segunda temporada do podcast Perdas e Danos, uma produção original da Radioagência Nacional, veículo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Sumaia - Os episódios são liberados todas as quartas-feiras no site da Radioagência Nacional e no seu tocador de podcast de preferência. Ah, e em libras no YouTube.
Eliane -Então já salva nosso perfil e não esquece de usar a ferramenta de avaliação da plataforma se você gostou do que ouviu até aqui. Isso nos ajuda a chegar em mais gente.
Sumaia - Esse podcast é idealizado e narrado por Eliane Gonçalves e Sumaia Villela. A concepção de pauta dessa segunda temporada é minha. A Eliane desenhou a primeira temporada.
Eliane - A nossa dobradinha segue em todas as etapas do projeto: pesquisa histórica, produção, entrevistas, roteiro, montagem e pós-produção no geral.
Eliane -A edição e divulgação nas plataformas é da Beatriz Arcoverde.
Eliane - A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio foram feitas pelo Jailton Sodré, a partir das composições gentilmente cedidas pelo nosso colega, Nelson Lin. E a voz da vinheta do Perdas e Danos é da Marli Arboleia.
Eliane -Já a identidade visual e a arte são assinadas pela Caroline Ramos.
Eliane -[Placeholder para leitores] fazem as leituras dos materiais escritos e traduções do conteúdo estrangeiro deste episódio.
Eliane - A versão do episódio em Libras, divulgada no YouTube, é feita pela equipe da EBC.
Eliane - Usamos material histórico do acervo da EBC; do Arquivo Nacional; do Centro de Pesquisa Dodis, um instituto da Academia Suíça de Humanidades e Ciências Sociais, da IBFAN, Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar. Também usamos trechos dos filmes e de música de - tudo com fins jornalísticos.
Eliane -Agradecemos a Paulo Donizetti, Pollyane Marques, pela ajuda com contatos, informações e apoio em geral.
Eliane - E principalmente obrigada a você que nos ouviu até aqui. Se puder tirar um tempinho para contar o que achou do podcast, agradecemos muito.
Eliane - E agora temos um e-mail próprio! Por favor, deixe uma mensagem para perdasedanos@ebc.com.br. Também em ouvidoria@ebc.com.br ou no site ebc.com.br/ouvidoria. Também dá para fazer uma manifestação em Libras para o número (61) 99862-1971.
🎵 Vinheta de Encerramento 🎵
| Documentos, anexos, respostas e notas | |
| Apresentação, idealização, reportagem, roteiro, pesquisa histórica, produção, entrevistas, pós-produção e montagem | Eliane Gonçalves e Sumaia Villela |
| Edição e divulgação nas plataformas | Beatriz Arcoverde |
| Voz do título do podcast | Marli Arboléia |
| A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio | Jailton Sodré |
| Composições para identidade sonora foram cedidas pelo músico e colega do EBC | Nelson Lin |
| Arte | Caroline Ramos |
| Interpretação em Libras: | Equipe EBC |
| Leitura dos documentos e trechos de jornais | José Carlos, Luciano Barroso, Lucas Pordeus Leon e Beatriz Arcoverde |
| Pesquisa histórica: | Acervo da EBC; Arquivo Nacional; Rádio Jornal do Brasil; |
| Agradecimentos: | Paulo Donizetti, Pollyane Marques |
| Implementação na Web: | Beatriz Arcoverde e Lincoln Araújo |