Crianças Sabidas traz arte, educação e jovens lideranças da Amazônia
No último episódio da temporada Trilhinhas Amazônicas, o podcast Crianças Sabidas mostra ações de conservação da floresta feita por artistas, educadoras e jovens lideranças. 

Para conscientizar sobre o problema do aquecimento global, o escritor e poeta indígena Thiago Hakiy, do povo Mawé, escreve histórias baseadas na própria realidade.
"Na escola eu sempre encontrei livros que não tinham nada a ver com a minha realidade. Falavam sobre tubarão, e eu nunca vi tubarão nem em televisão, que não tinha. De frutas era maçã, era morango, era pera, que eu nunca tinha comido sequer. Então, eu me sentia um perdido na literatura que nos enviavam para as escolas quando era pequeno. Então, quando eu escrevo hoje, eu escrevo pensando nos meninos e nas meninas, nos curumins e nas cunhatãs, nascidos iguais a mim, nascido no meio da floresta, que andam de canoa. Eu escrevo com elementos locais, para que o aluno possa se sentir naquela canoa que está na história, o leitor possa se sentir comendo aquele tambaqui com farinha que nós comemos aqui. E não um atum que nunca viram, mas que está no livro lá".
Indígena do povo Munduruku, Marciele Albuquerque é a cunhã-poranga do Boi Caprichoso do Festival de Parintins. Para ela, a arte é um caminho para se chegar na luta política.
"A arte, ela desperta o senso político. Quando você está na arte, você começa a questionar. Através do questionamento, você começa a buscar respostas, começa a querer lutar por algo, por um lado. Foi assim que despertou o meu. Ninguém chegou, sendo a política tradicional, direta. Então, através da arte, consegui ter esse senso bem crítico que a gente consegue ver, vamos lutar coletivamente, qual é o nosso lado? Então, a arte, ela tem essa força de unir e lutar coletivamente, de uma forma mais leve, e até furar bolhas".
Na área de educação, a professora Maria do Carmo Barcellos, conhecida como Maria dos Índios, trabalha com a formação dos professores indígenas, aproveitando o grande conhecimento que eles têm sobre a floresta, no município de Cacoal.
"Nesse material, nas escolas, a gente aborda as mudanças climáticas, tem uma pegada intercultural, partindo do conhecimento tradicional pro conhecimento científico, né. Então, a gente começa a falar dessa história das mudanças climáticas buscando os sinais da natureza. Por exemplo, quando as cigarras estão cantando muito, a chuva vem, não é? Quando o sapinho não sei o que, coaxa muito, vem a chuva, ou vai chegar a seca. E a partir daí a gente começa a buscar o entendimento, especialmente que os mais velhos têm, né. No material tem uma coisa muito de trabalho interativo, de atividades que as crianças têm que buscar a resposta".
Prima em segundo grau de Chico Mendes, a jovem Raiara Barros chama sua geração para lutar pela Amazônia.
"Realmente o futuro, né, da Amazônia está nas nossas mãos. É uma tarefa nossa, a gente correr atrás de alguma forma de adiar, né, o fim do mundo. Eu me inseri, né, tipo, nesse local onde eu estou, porque eu sabia que um dia quem estaria no lugar do meu pai seria eu, seriam meus irmãos, seria os jovens, né. E eu acho que nós somos, sim, responsáveis. Juntar tantos outros jovens que tem por aí. Eu sempre digo que não é só a juventude de reserva, né, que tem que estar nesse local de luta, né, e tudo mais. Acho que a juventude também da cidade tem que estar, porque não afeta só a gente que está aqui dentro, afeta a todos. Então seria muito fundamental, né? Todas as pessoas participarem, porque daqui a um tempo, se a gente continuar da forma que está, aí não tem futuro para ninguém".
A série já mostrou a Amazônia e falou sobre a reunião que vai acontecer em novembro em Belém, a COP30, onde vão ser discutidas as ações para que a crise climática não fique pior do que já está. No segundo episódio, conhecemos as histórias incríveis escondidas na floresta e como os cientistas estão monitorando a situação dos bichos e do ar na Amazônia.
VINHETA CRIANÇAS SABIDAS🎶
SUBVINHETA: Trilhinhas Amazônicas🎶
SOBE SOM🎶
SUBVINHETA: Episódio 2 – Episódio 3 – Arte, educação e os líderes do futuro
SOBE SOM🎶
AKEMI: Oi pessoal, este é o último episódio do Trilhinhas Amazônicas. Eu sou Akemi Nitahara, jornalista da Empresa Brasil de Comunicação.
CAETANO: Eu sou Caetano Farias, o explicador. Nesta série, já aprendemos sobre a Amazônia e a reunião que vai acontecer em novembro em Belém, a COP30, onde vão ser discutidas as ações para que a crise climática não fique pior do que já está.
MADU: Eu sou Maria Eduarda Arcoverde, a perguntadeira. No segundo episódio, conhecemos as histórias incríveis escondidas na floresta, como os cientistas estão monitorando a situação dos bichos e do ar na Amazônia e projetos de desenvolvimento sustentável no turismo e na bioeconomia.
AKEMI: Hoje, vamos saber como arte, educação e a juventude estão ajudando na conservação da floresta e na conscientização sobre o problema do aquecimento global. Começando pela arte das palavras, com o escritor e poeta indígena Thiago Hakiy, do povo Mawé.
CAETANO: Ele diz que começou a escrever para contar sua própria realidade para as crianças da floresta.
TIAGO: Na escola eu sempre encontrei livros que não tinham nada a ver com a minha realidade. Falavam sobre tubarão, e eu nunca vi tubarão nem em televisão, que não tinha. De frutas era maçã, era morango, era pera, que eu nunca tinha comido sequer. Então, eu me sentia um perdido na literatura que nos enviavam para as escolas quando era pequeno. Então, quando eu escrevo hoje, eu escrevo pensando nos meninos e nas meninas, nos curumins e nas cunhatãs, nascidos iguais a mim, nascido no meio da floresta, que andam de canoa. Eu escrevo com elementos locais, para que o aluno possa se sentir naquela canoa que está na história, o leitor possa se sentir comendo aquele tambaqui com farinha que nós comemos aqui. E não um atum que nunca viram, mas que está no livro lá.
CAETANO: Tiago tem 17 obras publicadas, além de participação em diversas coletâneas.
MADU: E como esses livros podem fazer as pessoas entenderem a importância dos povos indígenas e da preservação da floresta?
AKEMI: São histórias de quem conhece muito melhor o ambiente, né, Madu. Assim, a gente conhece as histórias de quem vive na floresta, contadas por eles mesmo.
CAETANO: Nada sobre nós sem nós!
TIAGO: Quando a gente começa a ter uma voz mais ativa, nós não podemos mais ficar silenciados. É necessário sim dizer algo, expressar nossas dores, porque o mundo não pode olhar só para a Amazônia e imaginar uma floresta e esquecer o povo que vive nela. Que o ser humano, que são as culturas indígenas que, ao longo de séculos e séculos, cuidaram de uma forma harmônica, convivendo com toda essa biodiversidade amazônica, sem destruí-la.
MADU: Já quero ler um livro do Tiago! O que mais temos de arte na Amazônia?
🎶 SOBE SOM MÚSICA BOI CAPRICHOSO🎶
AKEMI: Uma das manifestações culturais mais conhecidas da região é o Boi Bumbá de Parintins.
🎶EFEITO SONORO EXPLICAÇÃO🎶
CAETANO: Parintins é uma cidade no estado do Amazonas, quase divisa com o Pará. Todo mês de junho, o Bumbódromo recebe o desfile dos bois Caprichoso e Garantido, num duelo do azul e do vermelho, que dura três noites. O espetáculo se destaca pelas cores, luzes, vestimentas, adereços, danças e músicas.
MADU: Ah, eu já vi na televisão, é muito bonito mesmo. Mas o que essa festa tem a ver com o meio ambiente? Não é uma disputa entre dois bois, tipo um desfile de escola de samba no carnaval?
AKEMI: A arte é muito mais do que diversão, Madu. Vamos ouvir a Marciele Albuquerque, indígena do povo Munduruku e cunhã-poranga do Boi Caprichoso, o boi negro que carrega a cor azul.
🎶EFEITO SONORO🎶
CAETANO: A cunhã-poranga é a “moça bonita, guerreira e guardiã, que expressa a força através da beleza”. É uma das personagens obrigatórias na disputa no Bumbódromo. Ela é avaliada pelos jurados em critérios como beleza, simpatia, roupas e movimentos. Mas a Marciele é muito mais do que isso!
MARCIELE: A arte, ela desperta o senso político. Quando você está na arte, você começa a questionar. Através do questionamento, você começa a buscar respostas, começa a querer lutar por algo, por um lado. Foi assim que despertou o meu. Ninguém chegou, sendo a política tradicional, direta. Então, através da arte, consegui ter esse senso bem crítico que a gente consegue ver, vamos lutar coletivamente, qual é o nosso lado? Então, a arte, ela tem essa força de unir e lutar coletivamente, de uma forma mais leve, e até furar bolhas.
AKEMI: A Marciele é formada em administração e ativista contra as mudanças climáticas e a fome. Já participou de eventos como a Semana do Clima da ONU em Nova York e da Conferência da Juventude pelo Clima, promovida pela FAO, em Roma. Quando se trata da defesa da floresta e de buscar soluções para a crise climática, ela garante que até a rivalidade entre os dois bois é superada.
MARCIELE: Sem dúvida, os dois bois vêm abrangendo temas, né, que a gente vem sofrendo com uma crise climática mesmo, trazendo figuras importantes para que possam ter mais força na sua voz. Os dois bois estão muito em contexto do que está acontecendo, então isso é muito importante, eles estarem dentro da arena, mas fora também ter o posicionamento, ter o esclarecimento das causas. A gente tem esse apego à abordagem da Amazônia, da preservação dos povos tradicionais, então eles têm que estar inseridos no festival. Então, acho que a mensagem é essa, abrir espaço pra pessoas, que nós falamos, nunca mais falar de nós sem nós.
CAETANO: Não falei que era “nada sobre nós sem nós”?
AKEMI: Exatamente, Caetano!
MADU: E na educação? O que o Rafael preparou pra gente?
RAFAEL: Hoje, traremos exemplos de iniciativas na área de educação que buscam conscientizar, em primeiro lugar, os povos da floresta. Mas também quem vive nas áreas urbanas da região amazônica. Vamos começar pelos ribeirinhos, ou beradeiros, que são afetados diretamente pelas cheias e secas dos rios, a cada dia mais intensas.
AKEMI: Quem vai explicar o projeto é a Alberta Pacheco, coordenadora do Núcleo de Inovação e Educação para o Desenvolvimento Sustentável, da Fundação Amazônia Sustentável. O projeto que ela fala é na comunidade do Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, no município de Iranduba, no Amazonas.
ALBERTA : Dentro dos nossos projetos complementares, a gente tem um projeto que trabalha a educomunicação, que é o Repórter da Floresta, a gente tem um projeto que é o Incenturita, que trabalha a leitura e a escrita, a gente tem práticas agroecológicas, que a gente trabalha a questão de produção de hortaliças, criação de aves. E tudo isso que a gente trabalha com os alunos no contraturno é levado para o complemento da merenda escolar.
CAETANO: Os estudantes participam dos projetos no contraturno das aulas. A conservação da floresta é um dos pilares das atividades. E a Amazônia é uma grande sala de aula, onde se desenvolve a equidade, a justiça, o respeito, a ética e a liberdade das pessoas que vivem na floresta.
MADU: E os povos indígenas? Como eles entram nisso tudo?
AKEMI: Bem lembrado, Madu. Vamos sair da escola no igarapé de Tumbira para uma escola indígena em Rondônia, no município de Cacoal. Lá, a professora Maria do Carmo Barcellos, conhecida como Maria dos Índios, trabalha com a formação dos professores indígenas, aproveitando o grande conhecimento que eles têm sobre a floresta.
MARIA: Nesse material, nas escolas, a gente aborda as mudanças climáticas, tem uma pegada intercultural, partindo do conhecimento tradicional pro conhecimento científico, né. Então, a gente começa a falar dessa história das mudanças climáticas buscando os sinais da natureza. Por exemplo, quando as cigarras estão cantando muito, a chuva vem, não é? Quando o sapinho não sei o que, coaxa muito, vem a chuva, ou vai chegar a seca. E a partir daí a gente começa a buscar o entendimento, especialmente que os mais velhos têm, né. No material tem uma coisa muito de trabalho interativo, de atividades que as crianças têm que buscar a resposta.
CAETANO: Assim, as crianças vão aprendendo com os mais velhos os sinais que a natureza dá sobre a crise climática.
MADU: Muito legal mesmo! Esses livros são em português ou nas línguas dos povos?
MARIA : Então a gente produziu livros, um para cada povo, porque cada povo tem uma história. A gente não produziu esses materiais na língua, porque as línguas ali naquela região, nenhuma delas está sistematizada. Então o português, na verdade, é a língua que eles têm usado.
CAETANO: Aprender português também é importante, para os indígenas entenderem melhor os seus direitos e lutarem por eles.
AKEMI: Com certeza, Caetano! A linguista Altaci Kokama...
ALTACI: Guardiã da Amazônia.
AKEMI: É, ela se identifica como guardiã da floresta.
MADU: Que lindo!
AKEMI: Então, a Altaci trabalhou muito tempo ensinando português para os parentes indígenas. E agora ela atua na Força Tarefa Global para uma Década de Ação pelas Línguas Indígenas, da Unesco. Um dos trabalhos atuais é ajudar no levantamento dessas línguas, para que não se percam nos próximos anos.
CAETANO: O Brasil tem pelo menos 274 línguas indígenas, faladas por 305 etnias, segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2010. Mas a contagem varia e existem muitas formas que não estão nesses registros oficiais.
ALTACI: Porque eles dividem entre língua e dialeto, né? E essas classificações não contam com as línguas indígenas assobiadas, as línguas indígenas de sinais, as línguas assopradas, né, nem as línguas que estão sendo acordadas hoje, né? As línguas em retomada, o Nordeste todo está em retomada de línguas. Não conta nenhum dado desses. E, nesse sentido, que o próprio movimento da Década das Línguas Indígenas, os próprios indígenas, na realidade, estão fazendo esse levantamento das línguas indígenas que tem no Brasil.
MADU: Línguas que estão sendo acordadas... cada coisa mais linda que a Altaci fala.
AKEMI: Lindas demais, Madu. Ela explica que cada língua guarda vários de saberes diferentes, que são importantes para toda a humanidade.
ALTACI: Tudo que existe na Amazônia tem um significado para os povos indígenas. Tem uma história, tem uma narrativa de origem e tudo mais. Essa planta, tem uma raiz que retira o mercúrio da água, é uma história da árvore protetora, na língua indígena. Se não fosse pesquisado a fundo, seria só uma árvore protetora. Quando o pesquisador viu a história, foi fazer o teste no laboratório e realmente comprovou que a raiz dessa árvore, que fica à margem do Solimões, retira o mercúrio da água. Então, um saber guardado dentro do povo está contribuindo para deixar o rio limpo.
CAETANO: Altaci faz um apelo a todo o mundo: salvar as línguas indígenas é salvar o planeta!
ALTACI: Campanhas que nós chamamos de reflorestar mentes. As alternativas que o mundo tem hoje para voltar a ser um planeta sustentável e que possa dar uma condição de vida melhor para a população. Precisa haver também uma campanha para divulgação da importância das línguas indígenas para salvar o planeta, né, para frear o aquecimento global. Tem as línguas indígenas de todos os biomas. Então, se houver financiamento para o fortalecimento dessas línguas, com certeza isso vai salvar todos os biomas do Brasil e, com isso, contribuir para salvar o planeta.
MADU: Reflorestar mentes!! AMEI! E os jovens? Já estão com as mentes reflorestadas?
AKEMI: Muitos da Amazônia estão sim! Eles já sabem que não se trata mais de “deixar um mundo melhor para os nossos filhos”. O futuro catastrófico que os ambientalistas dos anos 80 e 90 alertaram, já chegou.
KARINA: Eu acho que nós, jovens, a gente agora pensa sobre isso nesse contexto de urgência. Mas também num contexto de que a gente não fala só para as próximas gerações, né. Eu acho que no passado se falava muito do tipo, o que a gente vai fazer para as próximas gerações? E agora a gente fala também dos impactos que a gente sente na nossa geração. Que a gente também trabalha pra que as soluções sejam criadas agora, pra que a gente, ainda, né, nessa jornada de vida, tenha os resultados e viva também isso, né? Então, o que a gente também pode reduzir, o que que a gente também pode mudar, não só para as próximas gerações, mas para a gente que ainda vai estar nessa geração, né.
CAETANO: Essa é a Karina Penha, de 28 anos, moradora de São José de Ribamar, na parte amazônica do Maranhão. Ela é bióloga e uma das idealizadoras do movimento Amazônia de Pé, criado em 2022.
KARINA: Hoje nós temos uma coalizão de 350 organizações que são parceiras diretas e que constroem, né, o movimento da Amazônia de Pé junto com a gente. Como também a gente tem os ativistas, que são pessoas que acessam os nossos dados, que contribuem diretamente com a Amazônia de Pé, que se cadastraram no nosso site. Porque uma das ferramentas centrais que a gente tem para essa mobilização nacional é a criação de um projeto de lei de iniciativa popular pela proteção da Amazônia. Então, essa é uma inovação que a gente traz também, né, que é construir mobilização através de uma ferramenta política, que é o projeto de lei de iniciativa popular, que para a gente alcançar esse projeto, para que ele chegue no Congresso, a gente precisa mobilizar a assinatura física de um milhão e meio de pessoas.
MADU: Já quero assinar também! Pela Amazônia de pé!
AKEMI: Ih, Madu. Valeu pela empolgação... mas pra assinar esse tipo de coisa precisa ter título de eleitor. Lembra que a gente falou na série sobre eleições que precisa ter 16 anos para ser eleitor ou eleitora no Brasil?
MADU: Ai, é mesmo... ainda faltam sete anos pra mim...
CAETANO: Mas nós, crianças, podemos ajudar divulgando o site e pedindo pros adultos assinarem. Você encontra todas as informações no endereço amazoniadepe.org.br.
AKEMI: Muito bem, Caetano. Vamos agora conhecer a Raiara Barros.
RAIARA: Meu pai é o Raimundão, né, ele é primo legítimo de Chico Mendes e automaticamente a gente é inserido, né, nesse local de luta socioambiental. Então, desde criança, eu já via meu pai, né, participando das atividades, né, e tudo mais, construindo junto com os companheiros. E daí quando eu comecei a entender mesmo sobre o movimento que ele fazia parte, eu comecei a participar também, comecei a ter interesse e saber que um dia quem estaria no lugar deles seria um dos filhos.
AKEMI: A Raiara é filha de Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, primo do seringueiro e ambientalista histórico Chico Mendes. Aos 20 anos, ela comanda a Associação de Produtores e Produtoras Agroextrativistas do Seringal Floresta e Adjacências, na comunidade Rio Branco, município de Xapuri, no Acre.
🎶EFEITO SONORO🎶
CAETANO: O seringueiro, sindicalista e ativista político Chico Mendes foi assassinado em 1988, aos 44 anos, justamente pela defesa que fazia da floresta e contra o desmatamento. Ele também lutava por melhores condições de trabalho. Raiara nasceu quase 20 anos após a morte do primo em segundo grau e tem na luta de Chico Mendes sua grande inspiração de vida.
RAIARA: Realmente o futuro, né, da Amazônia está nas nossas mãos. É uma tarefa nossa, a gente correr atrás de alguma forma de adiar, né, o fim do mundo. Eu me inseri, né, tipo, nesse local onde eu estou, porque eu sabia que um dia quem estaria no lugar do meu pai seria eu, seriam meus irmãos, seria os jovens, né. E eu acho que nós somos, sim, responsáveis. Juntar tantos outros jovens que tem por aí. Eu sempre digo que não é só a juventude de reserva, né, que tem que estar nesse local de luta, né, e tudo mais. Acho que a juventude também da cidade tem que estar, porque não afeta só a gente que está aqui dentro, afeta a todos. Então seria muito fundamental, né? Todas as pessoas participarem, porque daqui a um tempo, se a gente continuar da forma que está, aí não tem futuro para ninguém.
MADU: Essa luta tem mais de 40 anos! Como a gente faz pra mais pessoas entenderem a importância da Amazônia?
AKEMI: É difícil mesmo, Madu. Mas tem muita gente boa trabalhando pra isso. Olha o que a Lídia Guajajara tem feito.
LÍDIA: Teve muito essa necessidade da gente falar, né, os povos indígenas falarem da gente, porque a gente sempre via as pessoas contando, né, a nossa história de forma errada, de forma equivocada. Então, até a minha ida para as redes sociais, por exemplo, foi essa questão de necessidade também, então, de pessoas ali pautando a questão, né, levando conhecimento. A gente está reeducando a sociedade através da presença indígena nas redes sociais, até em palestras as pessoas chamam a gente pra, né, pautar a questão indígena. E a minha vinda, inclusive, para o serviço público foi até consequência desse meu trabalho, né, questão da pauta da juventude, veio também de movimentos jovens.
CAETANO: A Lídia Guajajara tem 27 anos e é do Território Indígena Araribóia, no município de Imperatriz, no sul do Maranhão. Atualmente, ela mora aqui em Brasília e trabalha no Ministério dos Povos Indígenas. Também integra o coletivo de comunicação Mídia Índia e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, a Anmiga.
AKEMI: A Lídia também fala sobre REFLORESTAR MENTES.
LÍDIA: Eu acredito que é possível a gente mudar, né. A gente usa muito uma frase das mulheres indígenas, que é reflorestar mentes das pessoas. Não basta só reflorestar o meio ambiente, as florestas, a gente agora está numa missão de reflorestar a mente das pessoas, né. Todo esse movimento, eu acredito que vai dar sim um resultado muito positivo. As pessoas também precisam se achegar mais aos indígenas, se aproximar mais desse conhecimento, porque é um conhecimento ancestral que faz muita diferença. Mas que o nosso meio ambiente traga essa reflexão pras pessoas, que ainda é possível fazer essa mudança.
MADU E CAETANO: Nós somos a última geração que pode salvar a Amazônia!
KARINA: A gente está vivendo o território da Amazônia muito próximo de um ponto de não retorno, né? Se a gente continua fazendo da mesma forma ou se a gente continua fazendo o uso da terra como ele é feito agora, nesse mesmo formato nesse nível de destruição, de devastação, a gente pode muito facilmente chegar ao nível de não retorno em que a gente consiga, enfim, né, ter a Amazônia sem função de floresta.
PASSAGEM
RAIARA: Eu acho que lutar pela Amazônia é lutar pela vida. Nunca se vive sem uma água, não se vive sem um ar puro, né, para a gente respirar. Então, lutar pela Amazônia é lutar pela vida. Muito queria, né, que esses jovens se achegassem com a gente e visse o encanto que é a gente preservar, né, as nossas florestas, de viver dela, que dá muito para viver dela.
🎶PASSAGEM🎶
LÍDIA: A gente acredita que nós somos a geração que pode decidir, mas também que pode, né, fazer muita diferença. Então, se a gente não se mover agora, é impossível que outras pessoas se conscientizem. Muita gente não leva a sério o que está acontecendo, né, não só com a Amazônia, mas com outros biomas, que é muito importante a gente levar em consideração os biomas. Tem biomas que estão queimando e que muita gente não sabe, porque acha que a Amazônia é mais importante. Então, todos os biomas importam.
CAETANO: A COP 30 será em Belém, no Pará, em novembro. Os alertas para a necessidade de cuidados extras com a Amazônia estão sendo dados há bastante tempo.
MADU: Como diz o pensador e escritor indígena Ailton Krenak, ideias para adiar o fim do mundo existem. Mas falta a decisão colocar as coisas em prática.
🎶SOBE SOM🎶
CRÉDITOS
CAETANO: Este foi o último episódio do podcast Trilhinhas Amazônicas, uma parceria da Radioagência Nacional com a Agência Brasil. São dois serviços públicos de mídia da EBC, a Empresa Brasil de Comunicação. Eu sou Caetano Farias, o explicador.
MADU: Eu sou a Maria Eduarda Arcoverde, a perguntadeira. A Akemi Nitahara fez o roteiro baseado na reportagem de Rafael Cardoso.
CAETANO: A apresentação e montagem também são de Akemi Nitahara.
AKEMI: A edição e coordenação de processos são de Beatriz Arcoverde, que também faz a implementação web junto com Lincoln Araújo.
Caio Freire Cardoso Oliveira grava o título dos nossos episódios.
Trabalhos técnicos de Jaime Batista e Tony Godoy.
A arte é de Caroline Ramos.
Interpretação em Libras da equipe de tradução da EBC.
As músicas tema originais do Crianças Sabidas e do Trilhas Amazônicas são de Ricardo Vilas. Também usamos a música Japurá River, de Uakti e Philip Glass; e Málúù Dúdú – Boi Preto, toada do Boi Bumbá Caprichoso, de Adriano Aguiar, Tomaz Miranda e Gean Souza
MADU: Vamos ficando por aqui!
SOBE SOM 🎶
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Apresentação, reportagem, roteiro e montagem |
Akemi Nitahara |
| Edição e coordenação de processos | Beatriz Arcoverde |
| Voz do título do episódio | Caio Freire Cardoso Oliveira |
| Crianças | Maria Eduarda Arcoverde e Caetano Farias |
| Arte | Caroline Ramos |
| Interpretação em Libras: | Equipe EBC |
| Música tema original |
Ricardo Vilas |
| Composições do banco de trilhas da EBC | Newton Cardoso |
| Implementação na web:: | Beatriz Arcoverde e Lincoln Araújo |