Conheça herois e vilões que fizeram história nas novelas da Nacional
Um fazendeiro rico, autoritário, cruel. Disposto a sacrificar o próprio neto e prejudicar a própria filha para manter as aparências da tradicional família brasileira.

Uma pobre empregada doméstica, corajosa, amorosa. Disposta a arriscar a própria vida para salvar um bebê e criá-lo com dedicação.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Personagens dignos de novela, não é?! E são mesmo!
"O Direito de Nascer era uma história de amor de Maria Helena e Alfredo Martins. Ela ficou grávida e ele mandou ela abortar. Dolores resgata a criança e foge. E assim a história continuava. Ela era Mamãe Dolores".
Essa é a nossa ouvinte Neuza Manhães Silveira, de Niterói, no Rio de Janeiro. Várias décadas depois, a memória da dona Neuza não falha ao lembrar dos principais personagens de O Direito de Nascer, como a heroína Mamãe Dolores, vivida pela radioatriz Yara Salles.
Don Rafael de Juncal, interpretado na primeira fase da radionovela por Saint Clair Lopes, também é inesquecível, mas... como vilão.
Os vilões e as heroínas das radionovelas da Nacional alimentavam discussões e despertavam paixões. O radioator Saint Clair Lopes conta como passou a ser hostilizado nas ruas do Rio de Janeiro por dar voz a Don Rafael Juncal.
"O D. Rafael de Juncal da novela do Direito de Nascer foi uma coisa terrível. Quase que apanhava na rua com o D. Rafael de Juncal, que era realmente uma figura exponencial da novela O Direito de Nascer".
Herói e vilão que não morriam
Corajoso, defensor dos mais fracos, comprometido com a justiça. Carregando o atributo no próprio título, Jerônimo, o Herói do Sertão é outro exemplo clássico de personagem adorado das radionovelas exibidas pela Nacional.
Mario Silva, que já foi nosso colega aqui na Nacional, tinha 12 anos quando começou a ouvir a radionovela, e lembra com detalhes das batalhas do herói.
"Era o meu herói dos anos 1950/60. O Jerônimo não matava ninguém. Ele atirava, trocava tiro, brigava, lutava, mas não matava ninguém. Ele também tinha um vilão preferido que também não morria, o Caveira. Isso eu gosto muito, porque o Caveira tem um timbre de voz característico. Assim ele falava: 'Chumbinho, apresente o seu relatório'. O Caveira tinha o Chumbinho como seu principal auxiliar na vida bandida que levava".
Enquanto Jerônimo derrotava Caveira e Chumbinho, a avó de outra grande colega nossa, Mara Régia, enfrentava uma batalha particular para garantir a escuta da sua radionovela preferida. Mara Régia conta:
"Éramos seis netos muito endiabrados. Para acalmar, ela tinha uma lata de biscoito Marilu, que era a sensação do pedaço. E aí, a estratégia de vó Maria para que ela pudesse ouvir em paz a novela que ela tanto amava era encher a nossa boca de biscoito [dá uma risada]. E aí entrava o Jerônimo, o Herói do Sertão, a música 'quem passar pelo sertão vai ouvir alguém falar no herói dessa canção que eu venho aqui cantar'".
Essa fórmula do bem contra o mal, explorada com primazia nas radionovelas da nossa emissora, é o que vai seguir movendo as produções para a TV até hoje.
Roteiros vanguardistas
A pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Fundação Casa de Rui Barbosa, Lia Calabre, lembra que a construção das heroínas e vilões das radionovelas também apontava para discussões de vanguarda.
"Sempre por contingências do destino, a mulher assume a indústria que era do pai, do marido. A mulher assume o trabalho... o que era improvável, né? Você vai inserindo algumas questões polêmicas do tempo, como filho fora do casamento. Era um escândalo".
O divórcio só seria instituído legalmente no Brasil em 1977, mas, 20 anos antes, a heroína da radionovela O Segredo de Pedras Negras, Beatriz, interpretada por Ismênia dos Santos, já tinha se "desquitado" do marido e, numa reviravolta dramática, decidido que o melhor era ir para bem longe.
"Eu vou embora. Vou embora amanhã mesmo, para onde não possam me encontrar. Hei de sumir na distância e no tempo, sozinha. Não... sozinha, não. Porque você estará comigo, meu filho".
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e de um trecho da novela Vale Tudo, da TV Globo. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.