De atores a efeitos: radionovelas eram feitas ao vivo na Nacional
Quem sabe faz ao vivo. O texto dramatizado, o sopro para fazer o fogo pegar...

"Ô, que diabo de fogo! Hoje esse danado não quer acender. Meu Deus! Por onde está esse danado do José que não traz mais lenha? Meu Deus, eu morro de tanto soprar. Também, a lenha está toda molhada".
A execução da trilha sonora. Para que uma radionovela como Lábios Selados, de Oduvaldo Vianna, pudesse chegar até o ouvinte da Rádio Nacional em 1952, tudo precisava estar afinado, porque não dava para voltar.
Como uma grande orquestra, tinha um lugar para cada instrumento. Neste caso, não só para os músicos, mas também para os radioatores, o contrarregra, o operador de áudio e até os apresentadores.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Vamos entrar mais uma vez no estúdio de radioteatro da Nacional, no Edifício A Noite, na Praça Mauá, centro do Rio de Janeiro. Nós já te contamos, nos episódios anteriores, que a estrutura ocupava quase um andar inteiro.
Uma réplica de uma casa de madeira com escada e vários cômodos, muitos pedestais de microfone, paredes com isolamento acústico.
Uma fotografia preservada em nosso acervo mostra a preparação dos atores antes de entrar ao vivo. Sentados lado a lado em um enorme banco de madeira, cada um deles tem uma cópia do roteiro na mão. Um ensaio rápido para que, em pouco tempo, aquelas vozes se transformassem em personagens e chegassem à casa dos ouvintes.
Em 1982, o radioator Floriano Faissal, um dos grandes nomes do nosso casting e ex-diretor do radioteatro da Nacional, lembra, em entrevista ao programa Globo Repórter, da TV Globo, como a dramaturgia ao vivo exigia jogo de cintura de todos os envolvidos.
"Eu me lembro de várias, até. Isso foi num programa do Sombra, que eu fazia um agente de polícia que devia matar um bandido. Na hora, o revólver falhava. Havia aquele tec-tec do revólver e não saiu o tiro. Então eu, pra consertar a cena, eu vou e digo, você pensa que escapou da morte porque o meu revólver está falhando, mas você não vai escapar da minha faca. E nessa hora, sai o tiro".
Laboratório de sucesso
Embora tudo fosse feito ao vivo, a Nacional gravava as produções em discos de acetato, com o objetivo, inclusive, de fazer um controle de qualidade. Quem conta é o pesquisador Roberto Salvador, autor do livro A Era do Radioteatro, em entrevista ao programa Jô Soares, da TV Globo.
"Terminado o programa, depois que acabava tudo, ia todo mundo pruma sala, colocava o disco e era assim: 'olha, você errou aqui, o áudio não botou o microfone nos metais, os metais não apareceram, o ator ficou assim, ficou assado'. Era, na verdade, um laboratório".
E essa qualidade era medida todos os dias pela audiência e pelo interesse dos anunciantes. Paulo Tapajós, ex-diretor artístico da Nacional, conta que foi essa cobiça do mercado que fez o radioteatro ocupar cada vez mais espaço na emissora.
"Começou a ser cobiçada pelos clientes, porque tinha uma boa audiência, então havia procura de clientes que queriam comprar a novela. Não pode, já está vendida. Então, vamos abrir outra, vamos botar outra novela no ar, porque tem um candidato para uma novela. Então, abrir outro espaço e assim por diante. Quer dizer, o interesse comercial em torno da compra de teatro seriado, de novela, foi o que fez a expansão dos horários de novela da Rádio Nacional".
A ponto de preocupar o setor musical, que passou a identificar um desequilíbrio na programação.
"Depois, com o crescimento das novelas, surgiu a necessidade de se dividir o tempo mais ou menos em partes iguais. Mas houve uma época em que a parte falada na Rádio Nacional era muito maior do a parte musical. Eu cheguei a fazer um levantamento estatístico disso, numa ocasião, para mostrar o risco que nós estávamos correndo. Na Rádio Nacional se fala o dia inteiro, não se ouve música, e com um elenco enorme que nós tínhamos. Isso foi considerado, foi examinado".
Mas, apesar da desproporção, as radionovelas, com todos os desafios e a criatividade envolvidos na sua produção ao vivo, vão continuar sendo uma das marcas da emissora por mais algumas décadas. Além dos personagens marcantes, os efeitos, como os utilizados na série de suspense O Sombra, vão exigir muita performance dos sonoplastas e compor a imaginação dos ouvintes.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e da TV Globo. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.