De estúdios a ondas curtas: como Nacional virou líder nos anos 1940
Nos sete estúdios da PRE-8, recém-inaugurados, era possível conferir algumas das mais avançadas inovações.

O novo palco sinfônico tinha piso flutuante sobre molas especiais, que ajudava no isolamento de vibrações e melhorava a acústica. Enormes painéis de vidro importados da Tchecoslováquia foram instalados entre os estúdios e o auditório.
Movimentados a motor, os painéis modificavam o espaço de acordo com as necessidades dos programas. Era esse mecanismo que fazia o público ficar pertinho dos artistas no auditório.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
O auditório, no 21º andar, era o maior e mais equipado de todas as emissoras da época, com quase 500 lugares. As obras de adaptação e ampliação das dependências da Rádio Nacional começaram em 1941, após a encampação da emissora por Getúlio Vargas. Aliás, o presidente foi o homenageado na programação especial de inauguração dos novos espaços.
Coincidência ou não, era seu aniversário.
"Grande programa de inauguração dos novos estúdios da Rádio Nacional. Domingo, 19 de abril de 1942. Homenagem ao excelentíssimo senhor presidente Getúlio Vargas, das 10 às 23 horas."
O novo auditório ficou lotado durante todo o domingo, com todos os programas abertos ao público.
Linda Baptista e o grupo As Marias, formado nesse momento por Marília Baptista, Salomé Cotelli e Bidu Reis, estavam entre as atrações que inauguravam um novo tempo na Nacional.
A professora da Universidade Federal do Maranhão, Izâni Mustafá, explica que não houve contenção de recursos depois da encampação da emissora, o que explica o alto investimento na modernização.
"Na verdade, Vargas foi muito esperto, foi visionário. Vou manter o grupo que está lá, mas vou investir. Vou colocar novos equipamentos, um novo diretor vai cuidar da programação. Ela acaba sendo uma empresa mista, porque ela obtém recursos do governo federal e também se mantém como uma rádio pública. Mesmo que fosse estatal, mas ela também estava com esse cunho cultural, educativo. Ele faz um investimento enorme na rádio".
Uma das contratações da Nacional no período, o cantor e apresentador Paulo Tapajós, detalha como a Nacional fazia render os seus recursos.
"Depois que a rádio foi encampada, ela tinha por obrigação o dinheiro que sobrasse, vamos dizer assim, o lucro da rádio teria que ser devolvido ao governo, entregue ao governo. Mas entregar pra quê? A rádio investia. Aproveitava esse dinheiro, comprava transmissor, comprava a válvula, comprava o material técnico necessário, prestava conta, zero a zero. O que tinha foi isso, nós gastamos, ficou isso, não tem nada para te entregar. Então, bem, essa técnica também foi uma das coisas que ajudaram a Rádio Nacional a crescer da forma como ela cresceu".
Mas não era só nos estúdios e nas contratações que o tempo de bonança da Nacional se mostrava. Antes mesmo da inauguração dos novos estúdios, a mudança do transmissor do bairro de Campinho para a região de Parada de Lucas, também na zona norte da cidade do Rio, mas considerada mais adequada, possibilitou uma propagação do sinal muito mais eficiente.
Nacional entre as maiores do mundo
Foi também em 1942, no fim do ano, que a Nacional trocou o transmissor antigo por um RCA Victor de 50 kW, considerado o mais potente da época, e passou a transmitir nas chamadas ondas curtas, que possibilitaram que a emissora fosse sintonizada em todo o mundo.
Sob o comando de Gilberto de Andrade, a Nacional passa por uma verdadeira revolução nos primeiros anos da década de 1940. Quem conta é o pesquisador Luiz Carlos Saroldi.
"E a equipe funciona tão bem, ele estimula de tal maneira os funcionários a criarem, a fazer programas novos, que em dois anos apenas ele corrige todos os defeitos técnicos da Rádio Nacional, que tinha várias deficiências de antena, de transmissor e tal, e forma uma equipe de gente jovem, criativa, como Almirante, como José Mauro e tantos outros. Os anunciantes começam a entrar, o dinheiro entra e eles transformam aquilo em pouco tempo na emissora líder do Brasil, a mais respeitada da América Latina e, dentro de pouco tempo, a Rádio Nacional vai estar situada entre as cinco maiores do mundo".
Com as transformações estruturais, programas como o Rádio Teste vão viajar para longe, muito longe.
Créditos:
Este episódio usou áudios dos acervos da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e do acervo pessoal do pesquisador Pedro Vaz. A voz que lê o convite da inauguração do auditório foi feita por inteligência artificial. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.