De Sílvio Santos à ALN: como nasceu e funcionou a Nacional de SP
"Dia primeiro de maio, Rádio Nacional de São Paulo".

A gravação do anúncio é de Hebe Camargo. A ideia, de Victor Costa. Mais uma vez, era ele por trás de uma iniciativa pioneira. Pela primeira vez, uma rádio brasileira adotava uma vinheta cantada, recurso que depois seria copiado por inúmeras emissoras.
"Paulista de longe ou de perto, notícia sensacional. No dia primeiro de maio, rádio nacional de São Paulo".
A novidade, no entanto, não foi ouvida pelos ouvintes da Nacional do Rio. 15 anos de uma vivência intensa no Edifício A Noite garantiram a Victor Costa a experiência necessária para fazer um voo solo.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Nós já te apresentamos a esse grande estrategista da Rádio Nacional no episódio 13 deste radiodocumentário. Alçado a diretor-geral da emissora no segundo governo Vargas, Victor Costa se despede da PRE-8 depois do suicídio do presidente, em 1954.
Mas, antes da despedida, e em paralelo ao trabalho na emissora, ele já traçava outros caminhos. Em 1º de maio de 1952, com uma concessão dada de presente por Vargas, ele inaugura a Rádio Nacional de São Paulo.
A partir daí, nessa ponte radiofônica vai passar muita gente. Embora não houvesse nenhuma parceria formal, a emissora paulista vai se espelhar no padrão da Nacional. Artistas, radioatores e músicos levavam na bagagem os êxitos da matriz do Rio.
Nomes como César de Alencar, Paulo Gracindo, Floriano Faissal, Emilinha Borba, Marlene e vários outros tiveram participações na nova emissora, sob o comando das Organizações Victor Costa, sem, no entanto, se desligarem da matriz.
Sílvio Santos
É na Nacional de São Paulo que um dos maiores comunicadores do país, Silvio Santos, vai firmar sua carreira, começando no programa de auditório de Manoel de Nóbrega.
Também bebendo da fonte das caravanas da Nacional Rio, Silvio Santos cresce em popularidade com um show itinerante. A Caravana do Peru que Fala durava cerca de duas horas, com apresentações de humor, artistas, sorteio de brindes, jogos e gincanas com o público.
"Olha a hora, olha a hora, o peru vai cantar agora": qualquer semelhança não é mera coincidência. Está aí a semente de um dos programas mais conhecidos da TV brasileira nas tardes de domingo.
A promissora Organizações Victor Costa, que cresceu a ponto de contar com quatro emissoras de rádio e três de TV, vão sofrer um baque em 1959, com a morte de seu fundador. Em 1965, a Rádio Nacional e os outros veículos da empresa são comprados por Roberto Marinho.
A emissora líder de audiência em São Paulo só vai mudar de nome para Rádio Globo no final dos anos 1970, por ordem do Ministério das Comunicações, que detinha o controle da marca "Nacional".
Antes disso, no entanto, a emissora fundada por Victor Costa vai ser palco de um episódio emblemático da resistência contra a ditadura militar.
Resistência à ditadura
15 de agosto de 1969, 8h30. O parque de antenas da Rádio Nacional, em Diadema, na Grande São Paulo, é ocupado pela Ação Libertadora Nacional, a ALN.
Os guerrilheiros desligam a transmissão do estúdio. Durante cerca de 30 minutos, os ouvintes acompanham repetidamente o manifesto de Carlos Marighella, intitulado "Ao Povo Brasileiro". O momento foi recriado no clipe da música "Mil Faces de um Homem Leal", do grupo Racionais MC's.
No texto, a organização revolucionária anunciava as prioridades do grupo.
"Derrubar a ditadura militar. Anular todos os seus atos desde 1964. Formar um governo revolucionário do povo. Expulsar do país os norte-americanos. Expropriar firmas, bens e propriedades deles e de quem com eles colaboram. Expropriar os latifundiários. Acabar com o latifúndio. Acabar com a censura. Instituir a liberdade de imprensa, de crítica e de organização".
E esta não foi a primeira nem a única vez que os caminhos da resistência armada à ditadura e da Rádio Nacional vão se cruzar. A gente continua te contando essas histórias mais adiante.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), do SBT, da música "Mil Faces de um Homem Leal", dos Racionais MC's, e do material sonoro que acompanha o livro Rádio Libertadora: A Palavra de Carlos Marighella. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.