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Brasília (DF), 03/07/2026 - 90 anos em 90 histórias. Arte/Agência Brasil
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Série

Ditadura expandiu Nacional pro mundo para usar emissora na Guerra Fria

No mês de março de 1974, a Rádio Nacional de Brasília deixou de ser apenas a emissora da capital federal para assumir uma missão muito ousada: fazer o Brasil ser ouvido em quase todo o planeta.

Na década de 1940, a emissora já usava as ondas curtas para atravessar fronteiras e falar diretamente com ouvintes em outros continentes. Mas, na década de 1970, esse projeto entrou em outro patamar geopolítico.

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.  

Foi nesse cenário que nasceu um dos maiores projetos de radiodifusão da história brasileira: o Sistema Nacional de Radiodifusão em Alta Potência (Sirap).

O coração desse projeto ficava no Parque do Rodeador, em Brazlândia, no Distrito Federal. Ali foram instalados transmissores de até 250 quilowatts em ondas curtas e 300 quilowatts em ondas médias.

Um investimento sem precedentes para uma emissora brasileira, como conta Octavio Pieranti, conselheiro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e pesquisador do tema.

"A gente está falando da maior emissora de rádio da história do Brasil. Uma emissora que tinha pretensão de cobrir o mundo inteiro, algo que o Brasil nunca tinha feito em nenhum momento da sua história e nunca voltaria a fazer com essa dimensão. A gente está falando de uma emissora que, em ondas curtas, deveria ter nove transmissores comprados a um custo... Na verdade, somando o custo desses nove transmissores, mais dois de ondas médias, mais um de FM, a gente está falando em algo que, em valores corrigidos, dão R$ 500 milhões. Ou seja, meio bilhão de reais numa infraestrutura de transmissão montada pela ditadura militar brasileira, pelo governo federal da época, como a maior emissora da história do país, em termos de cobertura, em termos de alcance ou mesmo em termos de custo".

A construção foi feita por uma empresa suíça que venceu a licitação. Ivo Villela, antigo técnico de manutenção da rádio, estava presente durante a montagem dos novos transmissores.

"Na realidade, quem estava montando eram suíços, mas a gente ficava de plantão para aprender o sistema, que era um sistema que nós não conhecíamos, não tínhamos experiência total. Aí todos ficavam de prontidão para aprender com os suíços para quando ele fosse embora, nós ficássemos responsáveis pela manutenção do equipamento".

Programação em seis idiomas

A partir de 11 de março de 1974, o sinal da Nacional começou a viajar muito além das fronteiras do país.

Todos os dias, durante seis horas, a programação era transmitida para a Europa em seis idiomas: português, espanhol, inglês, francês, italiano e alemão.

Os mapas de cobertura impressionavam. A estação de Brasília alcançava praticamente toda a América do Sul, o norte da África, grande parte da Europa, o Oriente Médio e até o leste dos Estados Unidos e do Canadá.

Notícias, música brasileira, programas de variedades, futebol e informações sobre o país passaram a integrar uma programação pensada também para o público internacional.

Disputa ideológica

Era época de Guerra Fria no mundo. E, como a ditadura civil-militar brasileira tinha um lado nesse período, montou uma estratégia para usar as ondas curtas da Rádio Nacional na guerra da informação.

"Naquele momento histórico, o Brasil vivia uma ditadura militar - e uma ditadura militar inserida numa lógica de Guerra Fria. Além disso, uma ditadura militar que se esforçava por construir projetos que depois viriam a ser conhecidos como megalômanos. Então a gente tem, por exemplo, a Transamazônica, a Ponte Rio-Niterói. E um desses muito pouco conhecidos é o Sistema de Radiodifusão de Alta Potência, ou Sirap, na sigla. Além disso, o Brasil, no contexto da Guerra Fria, se colocava ao lado das potências de países capitalistas, de uma forma geral. E, naquela época, uma arena de disputa da Guerra Fria era justamente o rádio em ondas curtas. Então o Brasil, a partir daquele momento, se preocupava, também, em ocupar esse espaço e fazer disputa cultural com outros países, com países socialistas". 

Porém, de tão grandioso, o projeto enfrentaria dificuldades financeiras nos anos seguintes.

Outros parques transmissores deveriam ser criados em Mamanguape, na Paraíba; e em Boa Vista, Roraima, para ampliar ainda mais esse alcance. Mas esses dois parques sequer foram instalados.

Com os escândalos da ditadura civil-militar, o milagre econômico foi acabando, e os militares optaram por focar as antenas e a potência da Rádio Nacional para outro lugar: a região Amazônica. Tereza Cruvinel, ex-presidenta da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), relembra essa passagem.

"Fracassou um projeto da ditadura que era criar uma grande rede internacional de rádio. Eles iam criar dois outros parques de transmissão: um no Nordeste outro no Norte. Era um projeto ambicioso. E quando acabou o governo Médici e veio o governo Geisel, o milagre econômico tinha acabado, então não havia mais dinheiro para fazer aquilo tão grande. Falaram 'não, vamos fazer uma coisa mais modesta, vamos cuidar da Amazônia, em vez de estar querendo fazer transmissão para o mundo inteiro'". 

A história da criação de uma Rádio Nacional voltada especialmente para a Amazônia a gente te conta nos próximos capítulos deste especial.

 

Créditos:

Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães.  A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

 

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