Em Busca da Felicidade: a dramaturgia invade as ondas da Nacional
Segunda-feira, 10h30 da manhã. Na casa já silenciosa, depois do burburinho do café e da saída das crianças para o colégio, só se escuta o rádio ligado. O barulho do sino anuncia que a programação preferida está para começar.

"Senhoras e senhoritas, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro apresenta: Em Busca da Felicidade."
A radionovela Em Busca da Felicidade era transmitida três vezes por semana: às segundas, quartas e sextas. E foi um enorme sucesso de audiência na Nacional. Embora tenha sido considerada a primeira radionovela exibida no Brasil de grande repercussão, o rádio teatro já se fazia presente desde os primeiros anos da emissora. Nomes como Amaral Gurgel, Rodolfo Mayer, Ísis de Oliveira, Brandão Filho, Ismênia dos Santos, Floriano Faissal, entre vários outros, já davam voz a interpretações e esquetes dos programas.
Victor Costa era o diretor de rádio teatro da emissora. O 22º andar do edifício A Noite, sede da Rádio Nacional, era quase que integralmente ocupado pela equipe de rádio teatro, com os seus recursos de sonoplastia.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
O escritor, roteirista e diretor de teatro Mário Brasini, que também escreveu várias histórias para a nossa emissora, já falava:
"E falar da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, em que pese a importância do seu departamento artístico-musical, do seu departamento jornalístico, do seu departamento esportivo, que eram todos de primeira grandeza, ainda assim, a maior importância da Rádio Nacional era o seu rádio teatro."
"O rádio teatro da Rádio Nacional era o sonho, a ambição, a meta máxima de qualquer radialista naquele tempo, e inclusive de muitos atores de teatro. Então os atores sobreviviam a duras penas, ao passo que o rádio oferecia a eles um salário modesto, pequeno, mas seguro, garantido, pingando todo fim do mês, assegurando aí uma vida normal, regular, em que ele podia traçar uma economia."
A atriz Zezé Fonseca, uma das estrelas da Nacional, em conversa com Adolfo Cruz no programa Cinelândia Matinal, alguns anos mais tarde, relembra o sucesso de Em Busca da Felicidade.
"Adolfo: Vamos continuar conversando com Zezé Fonseca, perguntando agora o seguinte: como você relembra aquele sucesso espetacular do grande teatro da Nacional, Em Busca da Felicidade?
Zezé: Ah, com grande carinho, Adolfo. Você imagine que aquela novela foi, realmente, a que marcou o início do teatro de novelas na Rádio Nacional. E foi aquele sucesso espetacular, não é verdade? Não o meu, eu digo o sucesso.
Adolfo: Não, o seu sucesso! Aliás, o seu papel qual era naquela ocasião?
Zezé: Anita, a esposa. A esposa muito digna! (risos) Muito digna!
Adolfo: Dedicadíssima, né?
Zezé: Muito dedicada ao Alfredo. Que sofria com a Carlota. A Ísis de Oliveira era minha filha, era a Alice."
A pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Fundação Casa de Rui Barbosa, Lia Calabre, destaca como a Rádio Nacional profissionalizou as suas equipes de dramaturgia.
"O rádio teatro grava várias vezes ensaios e e transmissões para ouvir, fazer a crítica e aprimorar, o que faz do rádio teatro da Nacional um grande sucesso pela qualidade. Então, era um processo, na verdade, o exercício constante de qualificação e de aprimoramento daquilo que era transmitido."
É com essa filosofia que a Rádio Nacional vai produzir centenas de radionovelas a partir de 1941. Suspense, romance, intriga... Os ouvintes da Nacional ainda vão viver muitas emoções.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da EBC e da BBC Brasil. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.