A fábrica de sons e efeitos que movia os bastidores da Rádio Nacional
"Carlos estaciona em uma rua tranquila. Caminha ansioso até um edifício. Após subir um lance de escadas, abre a porta do escritório de Alice e a encontra trabalhando em sua mesa."
Uma bandeja com pedras simulava com alguma facilidade passos na rua; uma chapa metálica, um trovão. A porta de madeira era essencial para fazer o som de abrir, fechar ou da visita inesperada.
Os efeitos, essenciais nas radionovelas e outras produções da Rádio Nacional, eram todos feitos de forma artesanal. Todos os apetrechos e uma estrutura que parecia uma pequena casa, com cômodos e utensílios, ocupavam quase um andar inteiro da Nacional.
Foi Edmundo Vale, contra-regra da Nacional, que descobriu, por exemplo, que sacudir uma caixa de fósforos junto ao microfone garantia o efeito de uma máquina de costura.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
A linguagem do rádio estabelecida pela Nacional evoluiu cada vez mais. Jingles e trilhas eram produzidos com facilidade e, com a popularização das radionovelas, as tramas começaram a ganhar canções-tema. É o caso de Fracasso, interpretada por Francisco Alves, que se tornou um grande sucesso como o tema da novela de mesmo nome lançada em 1946. O compositor era Mário Lago, uma das estrelas da Nacional. Ele mesmo conta essa história em uma entrevista para a TV Cultura.
"Escrevendo novela, dirigindo novela... Aí já pouco tempo sobrava para a música. Mas antes, eu fiz uma música que encaixei até numa novela, que foi gravada pelo Francisco Alves, o estranho nome de Fracasso e que, modéstia à parte, foi um grande êxito."
O professor e compositor Henrique Cazes relata a efervescência musical da Nacional neste período, com as orquestras dando suporte ao vivo para todas as produções.
"Eram muitas orquestras, diferentes orquestras. Tinha a orquestra do Radamés, faziam programas como Um Milhão de Melodias, a Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali e tal. Tinha orquestra de tango, do Eduardo Patané. Outras orquestras tinham outros tipos de programas também, quer dizer, muita orquestra. E cada orquestra daquela, aqueles arranjos muitas vezes eram tocados uma vez ou duas. Então todo dia chegava um monte de arranjo, foram chegando outros arranjadores; era uma rádio que tinha uma equipe de copistas que ia crescendo."
O trabalho era tão intenso que a Nacional precisou aumentar — e muito — a sua equipe de copistas. Como ainda estava muito longe de existir o que mais tarde se chamaria xerox (as fotocópias), eram esses profissionais os responsáveis por copiar as partituras que seriam usadas pelos músicos da Nacional.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação, da TV Brasil e da TV Cultura. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

