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Brasília (DF), 03/07/2026 - 90 anos em 90 histórias. Arte/Agência Brasil
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Série

A massa radiofônica e a magia dos programas de auditório

Nossa viagem pela história da Rádio Nacional começa hoje com uma pergunta que atravessa romances e novelas desde as cantigas de amor e de amigo da Idade Média. É possível apaixonar-se sem jamais ver ou tocar o alvo do desejo?

A resposta vem em ondas, como o mar. Ondas que, no caso, vinham e vêm pelo ar. Antes da TV, o rádio criou uma mitologia movida à voz e só. Um Olimpo sem imagens, mas nem por isso menos poderoso, como conta um dos pioneiros da Nacional, Paulo Tapajós.

"O rádio era a arte cega. Você não via o artista, não tinha ideia de como ele era fisionomicamente. O Paulo Roberto tem até um foxtrot feito em parceria com o Custódio Mesquita, chamado O Cantor do Rádio, em que ele começa dizendo o seguinte: 'eu sou o cantor do rádio, o cantor que nunca viste e que não verás jamais'. Quer dizer, havia esse conceito antgamente. O cantor do rádio era uma figura que o povo imaginava, mas não sabia nunca como ele era. Não havia auditórios, não havia nada disso."

No Brasil dos anos 30, fotos eram raras, mesmo nas revistas ilustradas de maior tiragem, como O Cruzeiro, Carioca ou Careta. A possibilidade de o público "ver para crer", como São Tomé, impulsionou a criação de programas de auditório. Combinando música ao vivo, gincanas com prêmios de anunciantes e quadros de humor, essas atrações se tornaram, com o tempo, o carro-chefe da programação radiofônica

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.  

Na Nacional, o pioneiro foi um coringa: Almirante, "a mais alta patente do rádio", como dizia o bordão que acompanhava o nome artístico de Henrique Foréis Domingues. Ele resume a história no depoimento a Giuseppe Ghiaroni, da Rádio MEC.

"Eu então lancei o primeiro programa de teste, que foi a Caixa de Perguntas. Aquele título, praticamente, não era meu. Um produtor aqui de uma empresa resolveu fazer um programa que estava fazendo muito sucesso nos Estados Unidos. Mas eu não quis fazer aquele programa com aquele mesmo processo que era feito nos Estados Unidos. E então, o que é que eu fiz? Eu modifiquei o programa. Eu mantive aquele título, que era Caixa de Perguntas, mas eu comecei a contar, fazer testes completamente diferentes."

Almirante, em pouco tempo, integraria uma frota de desbravadores do formato. Radamés Gnattali chegou a encenar em seu programa o Teatro Imaginário, uma espécie de ópera radiofônica com todos os sons que evocassem a atmosfera do Theatro Municipal, a mais prestigiada casa de espetáculos da capital do país à época.

Renato Murce, com Papel Carbono, e Ary Barroso, com Calouros em Desfile, revelavam talentos musicais. Manoel Barcelos, de enorme tino comercial e diretor da emissora, lançava estrelas.

"Amigos, esse programa não é meu e sim de todas as donas de casa que usam, preferem e gostam do óleo e do composto Iaiá. E por falar em Iaiá e nos quindins que ela tem, a nossa Iaiá baianinha, pimenta-de-cheiro... ela que aí vem! Aí vem Marlene de Iaiá!"

As tardes de sábado no segundo semestre de 1945 passaram ao comando de César de Alencar, que tinha Emilinha Borba como cantora exclusiva do programa e um estilo peculiar de interação com o público.

"Alô, alô, alô! Vamos a mais um radioteste da semana com um prêmio no valor de 200 cruzeiros, gentileza de Alpargatas Roda."

Os prêmios para quem acertava as respostas ilustram bem o poderio econômico da Rádio Nacional. Num país que vivia os primeiros tempos do salário mínimo, 100 cruzeiros garantiam as compras do mês para um solteiro; 200 sustentavam a cesta básica de uma família. Mil cruzeiros, então, compravam um rádio ou uma camisa social de alto padrão, do tipo que combinava com eventos de gala, como a festa pelos 10 anos do Programa César de Alencar, que reuniu nada menos que 20 mil pessoas no Maracanãzinho.

Uma espécie de apoteose, episódio síntese da Era de Ouro do rádio, sobre a qual nós vamos continuar te contando nos próximos episódios.

 

 

Créditos:

Este episódio contou com áudios dos acervos da Empresa Brasil de Comunicação e do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães.  A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

 

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