Na frequência do riso: a sátira social no humor da Rádio Nacional
"Inaugura-se neste momento, em qualquer parte da Cidade Maravilhosa, o monumental Edifício Balança... Mas não cai!"
Foram 17 anos desatando riso pelas ondas do rádio. Um dos mais duradouros sucessos do humor radiofônico brasileiro, o Balança Mas Não Cai é considerado o precursor dos programas de humor como conhecemos hoje, com esquetes, quadros e vários personagens.
O "Primo Pobre", vivido por Brandão Filho, e o "Primo Rico", interpretado por Paulo Gracindo, causavam identificação imediata no público.
"Primo Pobre: Os meninos, coitadinhos, estão cada vez mais magros, Primo.
Primo Rico: Você sempre exagerado, hein, Primo? Ainda ontem eu passei por lá, no meu Cadillac — aliás, 52.
Primo Pobre: Já sei...
Primo Rico: E vi os seus oito meninos, e todos barrigudinhos. Barriga em menino é sinal de fartura!
Primo Pobre: Não, Primo, é que ontem cada um deles comeu um caroço de azeitona."
Mas antes do Balança, quem abriu a porteira da gargalhada na Rádio Nacional foi o PR-K30. Assinado por Lauro Borges e Castro Barbosa, o programa já tinha feito sucesso em outras emissoras até chegar à Nacional, em 1946.
O PR-K30 lotava o auditório, satirizando o próprio rádio, como se uma emissora pirata tivesse invadido a frequência da Nacional. Nada escapava da piada: artistas, apresentadores e até o sério e confiável Repórter Esso.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
A pesquisadora da Universidade Federal Fluminense e da Fundação Casa de Rui Barbosa, Lia Calabre, lembra que os humorísticos também tinham um tom de crítica social e política, mas com os contornos do Brasil da época.
"Quando a gente vai ouvir os programas e ler os textos — até porque os programas humorísticos também têm muito de improviso — entram nos diálogos várias questões contemporâneas, muitas vezes de crítica. Mas como ela está envolvida pelo humor, ela não é levada a sério."
Parcerias de sucesso
É o caso dos artistas Alvarenga e Ranchinho, que também vão embalar o riso no auditório da Nacional com paródias e sátiras que não poupavam nem o alto escalão. A dupla chegou a sofrer perseguição do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, órgão de censura do governo Vargas. Situação que teria sido interrompida após uma visita dos dois ao Palácio do Catete, onde a boa música caipira teria contagiado o presidente.
Uma outra dupla também inscreveu a sua marca na história do humor na Nacional e no rádio brasileiro: Jararaca e Ratinho. Eram uma atração de tanto sucesso que, na festa de inauguração das novas instalações da emissora, em 1942, os humoristas se apresentaram em dois horários diferentes.
Escola de humor
É difícil falar de humor na comunicação brasileira e não se lembrar da clássica atração Escolinha do Professor Raimundo, que não, não nasceu na Nacional. Mas, há quem diga que os seus primórdios estão aqui, no programa Piadas do Manduca, de Renato Murce, que também tinha o ambiente escolar como laboratório.
Aliás, as histórias do grande humorista Chico Anysio e da nossa emissora também se encontraram. Ele próprio conta um momento marcante da sua passagem pela Nacional com o personagem "Maestro Filó", em uma participação no nosso programa Nacional 80, apresentado por Hilton Abi-Rihan e Apolinho.
"Foi aqui na Rádio Nacional, no hall aqui embaixo. Quando eu fazia o Maestro Filó, da Lira de Xopotó, e uma senhora de talvez uns 80 anos naquela ocasião, que não saía de casa há 15, saiu para conhecer o Maestro Filó e trouxe de presente vinte mil réis. Me deu vinte mil réis de presente!"
Dois detetives atrapalhados, Tancredo e Trancado, compunham mais um humorístico da casa. A atração era assinada por Giuseppe Ghiaroni. Não foi à toa que o bordão usado pela dupla passou a ser ouvido nas ruas: "Aí tem jacutinga!"
Tancredo e Trancado só vão sair do ar quando uma temporada sem nenhuma graça é inaugurada no país, em 1964. Mas até lá, o riso corria solto e era garantido na programação da Nacional.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação e do Memorial da Democracia. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

