Nacional divulgou diversidade cultural brasileira, mas com hierarquia
Nas décadas de 1940 e 1950, o Brasil sintonizava uma grande voz. A Rádio Nacional era o palco principal para os artistas brasileiros, um verdadeiro farol da nossa identidade cultural.

Até mesmo quem alcançou o topo máximo da nossa música reconhece esse impacto. O próprio Rei, Roberto Carlos, deixou registrado o quanto a Nacional foi fundamental como esse grande palco de consagração.
"Tudo que acontecia de importante no mundo artístico no Brasil, com certeza, estava na rádio Nacional. Era, sem dúvida alguma, o grande palco, o palco mais importante dos artistas mais importantes daquela época".
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Mas, antes de ser o palco para o Rei Roberto, a Rádio Nacional foi uma das grandes propulsoras do samba no Brasil. O ritmo dos morros cariocas ganhava as antenas e os lares de norte a sul.
E, ao mesmo tempo em que se ouvia fortemente o samba feito no Rio de Janeiro, a emissora também tentava ouvir o restante do país. Programas como Curiosidades Musicais traziam para os ouvintes canções de fora do eixo Rio-São Paulo.
Tudo isso formava uma grande colcha de retalhos musical. Mas essa unificação cultural tinha um preço: muitas vezes, o padrão da emissora forçava a anulação dos sotaques de outros lugares do país, como conta o pesquisador Luiz Antônio Simas.
"Isso era uma questão que fazia parte da construção do pensamento social brasileiro, em que você estabelecia basicamente que você tinha um padrão nacional e, ao mesmo tempo, nós éramos... é a famosa teoria da colcha de retalhos. Nós éramos formados por vários retalhos que, uma vez costurados, formavam uma colcha".
Um exemplo claro dessa dinâmica estava em Luiz Gonzaga. O Rei do Baião, grande artista e presença assídua na Rádio Nacional, evocava com maestria o som popular do Nordeste na emissora. No entanto, a referência ao Nordeste era tratada de forma generalizada, vista apenas como algo "regional".
Ao mesmo tempo, o samba, por ser feito no Rio de Janeiro, então capital federal, era transmitido pela emissora não como regional, mas como o legítimo gênero "nacional".
"E essa oposição entre o regional, o folclórico e o que seria teoricamente nacional era falado. Porque você vai ver, você pode fazer uma pesquisa em uma porção de programa, que você vai ver uma coisa muito curiosa. Você apresentava o Luiz Gonzaga e dizia: trazendo a música do Nordeste. Você não tem o samba sendo apresentado como trazendo a música do Rio de Janeiro. Mas o samba como a grande música popular do Brasil".
Entre a riqueza e as contradições, a Rádio Nacional espelhava o próprio Brasil. Era o rádio, com toda a sua potência e seus contrastes, inserido de vez na cultura e no coração da nossa sociedade.
Créditos:
Este episódio contou com áudios dos acervos da Empresa Brasil de Comunicação e do documentário Rádio Nacional, de Paulo Roscio. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.