Nacional quase teve rede de TV pelo país, mas projeto não vingou
As conversas no final do expediente, nos bares ao redor da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, passaram a ter um tema recorrente na segunda metade dos anos 1950. No centro da especulação dos funcionários da Rádio Nacional estava o mais recente e moderno veículo de comunicação: a TV.

A essa altura, a capital da República já tinha visto nascer duas emissoras. E algumas perguntas do casting da Nacional ainda não tinham resposta: os patrocinadores continuariam a investir tanto no rádio e, especialmente, na nossa emissora? E o sucesso das radionovelas continuaria?
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Ainda demoraria alguns anos para que o espaço ocupado pelas produções do Departamento de Dramaturgia fosse reduzido significativamente. A inquietação dos funcionários se misturava com uma grande expectativa: um canal de TV próprio.
Em 1956, no aniversário da emissora, uma publicação comemorativa alimentava a esperança. O livro Rádio Nacional: 20 Anos de Liderança a Serviço do Brasil terminava com um artigo do então diretor-geral, Moacyr Arêas.
"O presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, em memorável despacho de 18 de julho de 1956, acertou definitivamente os rumos da Nacional-TV. Muito cedo, nos próximos meses, os receptores da capital da República e adjacências estarão assinalando a existência do Canal 4, onde se estampará a imagem da nossa TV".
Mas algo não saiu como esperado.
"Reconheço que surgiu um poder mais importante do que o rádio, que é a televisão, mas lamento muito que a Rádio Nacional não tenha usado este degrau lógico da técnica eletrônica, que é a televisão, para se agrupar também neste novo veículo de propagação de ideias, de talento principalmente, de comunicação com as massas, que é a televisão".
Este é Paulo Tapajós, então diretor artístico da Rádio Nacional, em depoimento concedido ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 1967, quando ainda era funcionário da nossa emissora.
A expertise, a criatividade e o pioneirismo da Nacional foram muito bem aproveitados pelas novas emissoras. Mas por que o tal Canal 4, que seria a TV Nacional, não foi para a frente? Paulo Tapajós tem algumas explicações.
"Eu acho que a descontinuidade administrativa, a falta de um programa de trabalho único e que naturalmente haveria de ser seguido pelas administrações que viriam, é um dos fatores que influem nesta queda da Rádio Nacional. E em que pese o meu querido Victor Costa, o seu entusiasmo pela casa e o que ele realizou realmente lá dentro, na ocasião em que ele era diretor-geral da Rádio Nacional, foi um dos elementos que não sentiam interesse pela televisão naquela época. Não ocorreria hoje, mas naquela época ele achava que era muito cedo para se cuidar disso".
Mas uma mesma situação comporta muitas versões, não necessariamente conflitantes. Uma delas vem de Mário Lago. No livro autoral Bagaço de Beira-Estrada, ele cita um forte lobby contrário de Assis Chateaubriand, que, a essa altura, já era dono de um conglomerado midiático. O empresário e o presidente Juscelino teriam se sentado lado a lado durante uma viagem, tempo suficiente para que Chateaubriand demovesse o presidente da ideia, sob ameaça de um canhão midiático contra o governo.
O fato é que a Nacional não aproveitou o promissor advento da TV. A criação da TV Nacional de Brasília, em 1960, não veio acompanhada de um canal que poderia ser acessado em todo o país, ficando restrito somente à nova capital federal, sem sequer ter uma programação própria nos primeiros anos. Essa escolha, associada aos rumos políticos do país, vai, aos poucos, reduzindo a liderança, o lucro com a publicidade e a pujança da sua programação.
Mas, ainda nesta década, os ouvintes vão ser presenteados com radionovelas de sucesso. Até porque ter um televisor ainda era um privilégio de poucos, e o rádio continuava ocupando um lugar central nas casas das famílias.
As novelas na TV
É a própria Janete Clair que, ainda nos anos 1960, vai estrear como novelista de TV. Em 1964, começa a ser exibida na TV Tupi a novela O Acusador, uma adaptação de Inocente Pecadora, radionovela que ela escreveu para a Nacional.
Junto com Janete Clair, estrelas do nosso radioteatro vão começar a ser reconhecidas também pela imagem, o que inaugura um outro tipo de relação com o público, como lembra o ator, escritor e radialista Mário Lago.
"O Nélio Pinheiro trabalhou conosco, aquela voz linda. 'Gente, mas o Nélio Pinheiro deve ser alto'. Nada, era aquele batoquinho que a gente conhecia. Porque era ilusão. O rádio e permite o sonho. A televisão é fascista. O rádio você sonha, você ouve um passo em cascalho: é passo em jardim. E é o seu jardim. Não é precisamente o da sua casa. Mas é o jardim que você imagina, que você gostaria de ter na sua casa. Essa é vantagem do rádio".
Em 1964, o golpe civil-militar vai interromper a trajetória de Mário Lago na Nacional. Os golpistas o demitem, junto com outros 66 colegas, e afastam outros tantos. Dois anos depois, ele é contratado efetivamente pela Rede Globo, que até hoje detém a concessão do Canal 4, aquele mesmo que inicialmente havia sido prometido pelo governo Juscelino à Nacional.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e da Pró-TV Museu da Televisão Brasileira. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.
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*Notícia atualizada às 11h do dia 10 agosto para inclusão de informação sobre a TV Nacional de Brasília