Nacional teve 1ª equipe voltada exclusivamente para radiojornalismo
O jornalismo feito no rádio é conhecido pelo imediatismo. Na Rádio Nacional, a partir da década de 1940, os brasileiros paravam o que estavam fazendo e grudavam seus ouvidos no radinho quando ouviam essa vinheta:

"Amigos ouvintes, aqui fala o Repórter Esso, testemunha ocular da história".
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Era época de guerra no mundo. Época em que o Brasil escolheu um lado na disputa. E época de uma das maiores tragédias da nossa história: a bomba atômica dos Estados Unidos sobre o Japão.
"Atenção, atenção, ouvintes do Repórter Esso, assunto urgentíssimo. Aviões japoneses atacaram de surpresa, esta madrugada, a base naval norte-americana de Pearl Harbor".
"Atenção, atenção ouvintes do Repórter Esso, o governo brasileiro acaba de declarar guerra às nações do Eixo. E atenção, atenção, aviões atômicos lançaram nova e poderosa arma sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Os efeitos da bomba atômica fizeram com que Hiroshima fosse varrida do mapa.
O principal radiojornal do país noticiava desde palestras contra o "fantasma" do comunismo:
"O capitão Francisco Bento de Oliveira e Silva desafiou, hoje, os comunistas do país para um debate em praça pública do Rio ou qualquer outra capital brasileira. O debate versaria sobre o que é o comunismo".
A aprovação de aumento da remuneração dos militares:
"Foi apresentado um substitutivo à Comissão de Finanças da Cãmara dos Deputados sobre o aumento de vencimentos dos militares. O dito substitutivo concede salário-família e auxílio de aluguel de casa aos militares, bem como declara que a diária, quando concedida, nunca será inferior a 50 cruzeiros".
Até, é claro, assuntos do cotidiano da população:
"As informações sobre o temporal que está desabando em grande parte no interior de Minas são as mais desoladoras possíveis. Da cidade de Mateus Leme se informa que caiu uma tromba d'água, derrubando casas, pontes, árvores e outras benfeitorias. Ficando a mesma totalmente inudndada. Pelo menos 3 pessoas morreram naquela cidade".
Primeira redação de radiojornalismo do país
O Repórter Esso ajudou a transformar o radiojornalismo brasileiro. Tanto que, em 1948, o locutor Heron Domingues sugeriu à direção da Rádio Nacional a criação de uma equipe dedicada exclusivamente à produção de notícias para o rádio. Nascia ali a "Seção de Jornais Falados e Reportagens da PRE-8", considerada a primeira redação brasileira voltada exclusivamente para o jornalismo no rádio.
Essa trajetória culminou, em meados da década de 1950, na criação da Rede Nacional de Notícias, um serviço de transmissão em ondas curtas composto por 17 boletins produzidos diariamente pela Nacional e distribuídos para centenas de emissoras e serviços de alto-falantes em 14 estados brasileiros.
O jornalista João Batista de Abreu fala sobre uma das principais características que marcou a relação do público com o radiojornalismo da época:
"Eu acho que a ideia de credibilidade talvez seja a coisa mais importante. Até hoje, a gente tem a expressão 'deu no rádio'. Se deu no rádio, é porque é verdade. Isso é marcante em todas as emissoras, mas basicamente por conta do Repórter Esso".
Mas é importante lembrar que, apesar da credibilidade do Repórter Esso, a prioridade do programa era com o seu patrocinador, a petroleira Exxon. Isso culminou na completa censura sobre uma das criações mais importantes da história da indústria brasileira: a Petrobras.
"O repórter Esso foi absolutamente omisso na campanha do Petróleo Nosso. Nunca divulgou uma notícia sobre o projeto de criação da Petrobras. Isso, na realidade, é manipulação vergonhosa da notícia para atender aos interesses dos patrocinadores".
Mas a Rádio Nacional também fazia seu próprio radiojornalismo. E um dos momentos marcantes de sua história foi quando a emissora deu espaço para críticas ao golpe civil-militar de 1964. Isso ocorreu antes da demissão em massa de dezenas de empregados da emissora.
O deputado federal por São Paulo, Rubens Paiva, que ficou imortalizado no filme brasileiro vencedor do Oscar, "Ainda Estou Aqui", usou os microfones da emissora para denunciar a deposição ilegal do presidente da República, João Goulart.
"Me dirijo especialmente a todos os trabalhadores, a todos os estudantes e a todo o povo de São Paulo tão infelicitado por este governo fascista e golpista que, neste momento, vem traindo seu mandato e se pondo ao lado das forças da reação. Desejo conclamar todos os trabalhadores de São Paulo para que todos, em greve geral, deem a sua solidariedade integral à legalidade que ora representa o presidente João Goulart".
Entre radionovelas, programas de auditório, muita música e futebol, a Rádio Nacional também criava um público cativo em se manter informado por meio do seu radiojornalismo.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Mario Sartorello interpreta o texto do cartaz da RCA Victor. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.