"Nascida do pó": Nacional de Brasília fez ecoar a voz dos candangos
Ao longo deste especial sobre os 90 anos da Rádio Nacional, falamos sobre o desafio de construir a identidade de uma emissora. E quando se trata do desafio de criar a identidade de uma nova capital de um país?

A Nacional chegou ao Planalto Central antes da inauguração de Brasília. E, se tinha o objetivo de divulgar a construção da nova sede dos Três Poderes, a emissora rapidamente assumiu uma outra missão: fazer ecoar a voz dos candangos.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Aproximar famílias separadas pela migração, prestar serviços, atuar na cultura e levar entretenimento a uma cidade que ainda nascia em meio aos canteiros de obras. Carlos Senna, atual gestor da Rádio Nacional, fala da relação da emissora com os trabalhadores na nova capital.
"Veio a Rádio Nacional, inaugurada em 1958. Com qual objetivo? Substituir o papel da Rádio Nacional do Rio de Janeiro com transmissões em ondas curtas que poderiam ser sintonizadas no Brasil inteiro. Para quê? Ser um canal de comunicação entre as pessoas que estavam aqui, trabalhando na construção da cidade, com as suas famílias".
A Rádio Nacional de Brasília também orientava quem chegava à nova capital. Programas como Notícias de Brasília, Venha Conhecer Brasília e Você Pergunta e Nós Respondemos esclareciam dúvidas da população e mostravam ao restante do país que as obras avançavam, combatendo boatos de que Brasília havia parado.
Vicente Alencar, um dos radialistas pioneiros da cidade, se recorda do primeiro jornal que existiu na emissora e era apresentado por ele: o Brasília em Dia com o Mundo.
"A gente divulgada um dado sobre uma obra. 'Hoje foram lançadas as fundações do Palácio do Itamaraty'. Aí descrevia a obra. 'Hoje o presidente Juscelino esteve na barragem vendo a captação de água para Brasília. O presidente Juscelino vai amanhã ver o parque rodoviário'. Sempre, na hora certa, vinha um dado sobre a contagem regressiva. Ou seja: eu fazia história e não sabia".
Mas a Rádio Nacional também era lazer. Às 5h, o Dia Começa com Música, de Meira Filho, despertava os trabalhadores e transmitia os famosos "alôs". A Discoteca do Ouvinte, de Zair Cançado, atendia aos pedidos musicais, enquanto as Crônicas de Clemente Luz emocionavam quem parava para almoçar nos canteiros de obras.
O pesquisador do Arquivo Público do Distrito Federal, Elias Manoel da Silva, conta essa história.
"Conta-se que o pessoal de todos os campos, os canteiros de trabalho de Brasília paravam no almoço, o pessoal chegava a silenciar nos canteiros de obra, aumentava no radiozinho o sinal, porque eles queriam ouvir a crônica. O que era essa crônica? Era uma crônica preparada pelos jornalistas da Rádio Nacional onde ela expressava a saudade do candango da sua família, o orgulho do candango de construir Brasília. Você imagina, num canteiro de obras, chegando naquele caminhão no final de semana, o candango sobe em cima do caminhão e fala: 'querida Maria, tu que tá aí na terrinha, teu marido tá aqui, eu tô bem, querida'".
Identidade cultural candanga
O galpão da Rádio Nacional tornou-se o principal espaço cultural de Brasília. Recebia programas de auditório, concursos de calouros, espetáculos teatrais e apresentações musicais. No palco, peças teatrais marcavam a época, como Os Pioneiros, encenada em 1959, e a peça infantil Caçulinha do Brasil.
Depois disso, as caravanas da emissora passaram a levar artistas diretamente aos acampamentos, e os trabalhadores contavam com shows de Glória Maria, Fernando Lopes, Jesiel Mota e José Portilho.
A programação refletia a diversidade dos candangos. Ao lado dos sucessos do Rio de Janeiro, a emissora valorizava a música sertaneja de Goiás, Minas Gerais e de outras regiões de origem dos trabalhadores, criando uma identidade própria.
"Vê que a Rádio Nacional não se elitizou. Por quê? Porque nos campos ela tocava música sertaneja de Minas Gerais, música sertaneja dos goianos que estavam por aqui, e não só o samba e a bossa nova do Rio de Janeiro. Ela enriquece culturalmente a própria perspectiva da capital. Que não é apenas uma perspectiva de elitizar, trazer a cultura do Rio de Janeiro. Não, é trazer a cultura do sertanejo, que estava naquele tempo crescendo muito".
Aos poucos, no pó da nova capital, nascia um sentimento de pertencimento da população com a Rádio Nacional que ia além da programação da rádio, como explica Elias Manoel.
"A Rádio Nacional de Brasília nasce no pó, com as pessoas que trabalhavam no pó, que respiravam o pó e que falavam das pessoas que queriam se ligar com a sua família. A Rádio Nacional de Brasília está ligada à alma dos nossos queridos candangos que construíram Brasília pensando e intencionando, querendo construir um Brasil novo".
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e do podcast "Na Memória do Rádio", de Claudio Paixão. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.