O fenômeno dos fã-clubes e o mar de correspondências da Rádio Nacional
As noites de sábado no Rio de Janeiro não eram mais as mesmas desde que a Rádio Nacional começou a apresentar o programa Noite de Estrelas, sob o comando de Paulo Gracindo. Ali, no auditório do Edifício A Noite, era possível ficar pertinho do artista preferido e não só ouvir pelo rádio, mas ver de muito perto, abraçar, conhecer os detalhes da vida pessoal e, literalmente, fazer parte da programação.

Foi nesse período que uma moda surgida nos Estados Unidos chegou ao Brasil. Quem contou essa história aqui na Nacional, em um programa de comemoração pelos 80 anos da nossa emissora, foi o Ciro Galo, presidente de um dos fã-clubes mais antigos e longevos do Brasil: o da cantora Marlene.
"O fã-clube da Marlene nasceu em 1953. A Marlene era a rainha do rádio desde 49. A popularidade dela aumentou muito com esse título obtido. Então, era uma moda, nos Estados Unidos, moda de fã-clube, entendeu? Houve o primeiro fã-clube [no Brasil], que foi o Sinatra-Farney, que era o fã-clube de Frank Sinatra e de Dick Farney. Depois surgiram outros fã-clubes, da Emilinha, da Marlene, da Dalva de Oliveira, da Ângela Maria, do Francisco Carlos, do Cauby Peixoto. Então, foi realmente um fenômeno de comunicação de massa isso que aconteceu nos anos 50 e início dos anos 60."
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Se tinha da Marlene, também tinha que ter da Emilinha, fã-clube que se orgulha de ser o primeiro, como fala Mário Marinho, presidente da agremiação.
"Da mesma forma, as pessoas se aglomeravam na porta do auditório da rádio pra ver a Emilinha e os outros grandes artistas. Então, dali começou a concentração, isso lá em 47. Iam pra lá não exatamente pra subir pra ver o o programa, mas pra esperar a Emilinha descer ou chegar para o programa. Então, em 52 é que foi oficialmente feito o primeiro fã-clube do Brasil, que foi o fã-clube Emilinha Borba."
A disputa entre os fãs fervorosos inclui, até hoje, qual fã-clube foi o pioneiro. Mas é melhor a gente nem entrar nesse mérito. O fato é que a rivalidade, que escalou a partir da participação das cantoras nos programas da Nacional e nos concursos para Rainha do Rádio (criados ainda nos anos 1930 pela Associação Brasileira de Rádio), foi muito bem aproveitada pelas artistas e pela própria emissora. A Nacional viu na disputa uma grande oportunidade de audiência com a mobilização intensa dos fã-clubes.
Agora imagine essa cena: uma grande mesa retangular de madeira. Sentados em volta, seis funcionários da Rádio Nacional em trajes formais, como era costume na época. Em cima da mesa e no chão da sala, em sacos de juta — os mesmos usados até hoje para transportar grãos — cartas, muitas cartas. Os remetentes de todas as partes do Brasil e também do mundo. A cena, exatamente como nós descrevemos, foi eternizada em uma fotografia de 1956 preservada no nosso acervo.
Não é exagero dizer que as correspondências chegavam na ordem dos milhares por dia, endereçadas aos comunicadores da rádio, aos artistas, aos programas que incentivavam a participação em mais uma fórmula inovadora que você deve ter visto sendo copiada tempos depois na TV.
"Sim, amigo ouvinte, A Felicidade Bate à sua Porta, um programa que tem como animadores Yara Sales e Heber de Bôscoli."
"Yara estará aqui no auditório com as brincadeiras, os prêmios e os sorteios, enquanto o Heber estará na rua, preparado para visitar o bairro que for sorteado, levando o carro de reportagens da Rádio Nacional com artistas e muitos cruzeiros para a moradora da rua e do número que sortearmos também aqui no auditório. Basta ter em sua casa o sabão Cristal."
Algumas décadas mais tarde, a intimidade da Nacional com o público permanecia. Cirilo Reis, estrela da nossa emissora a partir dos anos 1980, apresentava o MusiShow, um programa de variedades e músicas que se dedicava, inclusive, a fazer uma espécie de correio sentimental entre os ouvintes. A atração recebia muitas correspondências. E algumas dessas cartas ficaram na memória.
"Uma menina dizendo que o MusiShow mudou a vida dela, que ela era uma pessoa que era humilhada pela família, que ela era mãe solteira, e lá no interior, na fazenda. E nessa carta, ela contando a história dela, ela falou: 'hoje em dia eu sou uma mulher feliz, eu tenho meu marido', não sei o que lá, 'tudo que eu conheci através do MusiShow'. Eu tenho essa carta, eu guardei essa carta."
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.