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Brasília (DF), 03/07/2026 - 90 anos em 90 histórias. Arte/Agência Brasil
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Série

Ondas curtas: como funciona a tecnologia que levou Nacional à Amazônia

Parece mágica. Um aparelho simples. Uma antena. E uma voz viajando milhares de quilômetros. As ondas curtas possuem uma característica extraordinária. Elas “saltam” na ionosfera e conseguem percorrer enormes distâncias.

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.  

Mas o que é a ionosfera? A explicação parece coisa de ficção científica. A transmissão sai de uma antena instalada em Brasília, sobe até camadas da atmosfera e retorna à Terra a milhares de quilômetros de distância. É como se o céu ajudasse a carregar a mensagem. Pra gente entender melhor, vamos ouvir a explicação de Ronaldo Siqueira Barbosa, professor de Engenharia Eletrônica.

"Ela tem um meio de propagação que é a ionosfera terrestre. Então ela consegue atingir distâncias entre 2 mil quilômetros a 4 mil, chega até 8 mil quilômetros, dependendo do ponto alto que ela atinge a nossa ionosfera. A altura mais ou menos de 400 quilômetros até 700 quilômetros de atmosfera, nós temos de reflexão, em que você tem um meio de propagação em que a onda vai a grandes distâncias na terra. Então eu posso fazer uma transmissão de Brasília para o Canadá, para a Europa e, muitas vezes, fazer até uma segunda volta pela ionosfera e chegar à própria Brasília. Vou chegar por trás do Brasil e fazer uma transmissão cobrindo uma distância enorme como essa".

É por isso que uma transmissão feita em Brasília podia ser ouvida no Acre, no Amazonas, no Pará. E até em outros lugares ao redor do mundo.

Em 1984, durante a travessia do Atlântico Sul em um barco a remo, o navegador Amir Klink encontrou a Rádio Nacional da Amazônia no pequeno rádio que levava a bordo. A experiência foi registrada no livro Cem Dias entre o Céu e o Mar.

“Em 5 de setembro, o mar continuava forte, mas inofensivo. Captei, durante um dos intervalos de trabalho, uma nova estação no meu radinho, a Rádio Nacional da Amazônia - exatamente no Dia da Amazônia. Foi uma sorte. Fiz uma pausa para me aliar às comemorações e, atento, fiquei ouvindo um programa dirigido aos trabalhadores dessa continental região, em especial aos garimpeiros de Serra Pelada. Estava em plena selva amazônica, vivendo os problemas de suas gigantescas e áridas cidades”.

Na imensidão do oceano, quando havia apenas água até onde a vista alcançava, foi uma emissora brasileira em ondas curtas que rompeu o silêncio. Naquele instante, a rádio atravessou não apenas a Amazônia, mas o oceano.

Agora, voltando para a Amazônia. Em uma época sem internet. Sem celular. As ondas curtas eram a tecnologia que conectava o interior do Brasil. Mas ouvir a Rádio Nacional da Amazônia nem sempre era tão simples.

Para muitos ouvintes, encontrar aquela frequência fazia parte da experiência. Ouvir a Nacional era quase um ritual. Regular o dial. Procurar o sinal, vencer os ruídos. E finalmente encontrar aquela voz familiar. Como conta o ouvinte Weslei Dias.

"Minha mãe tinha um papagaio. E esse bendito papagaio era solto, andava pra todo lugar. Ele andou sobre o rádio e, na hora em que a mãe foi tocar, com medo dele derrubar o rádio, no impulso dele voar, ele derrubou o rádio. Abriu-se o rádio. E cidade era a cada três meses. E aí, como fazer pra ouvir? Meu pai tentou, não conseguiu. A minha mãe ficou pegando aquele fio que soltou e raspando ele pelo rádio ligado, olha a maluquice dela, até que fez um barulho e ela falou 'opa, é por aqui'. Aí ela achou onde era e pingava vela, porque era o que dava pra colar. Aí o meu pai, porque a vela soltava muito rápido, ele conseguiu cera de abelha, aí ele apertou o fiozinho lá no lugar e colou com cera de mel de abelha. E o rádio ficou meio que aberto, com o tijolo do lado, e funcionou".

Hobby: colecionar cartões QSL

E nosso ouvinte Weslei Dias não estava sozinho. Em diferentes partes do mundo, milhares de apaixonados pelas ondas curtas transformaram a escuta em uma verdadeira missão. Eles passavam horas percorrendo o dial em busca de sinais distantes. Quando conseguiam sintonizar a Rádio Nacional da Amazônia, enviavam um relatório detalhando o dia, o horário, a frequência e a qualidade da recepção.

Em resposta, recebiam um cartão de confirmação, conhecido internacionalmente como QSL. Muito mais do que uma lembrança, ele era a prova de que aquela voz, transmitida de Brasília, havia vencido milhares de quilômetros para chegar ao outro lado do mundo.

Até hoje, a emissora continua recebendo pedidos de confirmação de escuta vindos da Europa, da Ásia, das Américas, da África. O engenheiro do parque de ondas curtas da Rádio Nacional, Adriano Goetz, explica esse fenômeno.

"Imagine você, na década de 1940, 1950, onde a maioria dos países com melhores condições tinha uma rádio internacional transmitindo em vários idiomas. Como saber se ela estava pegando, se ela estava sendo ouvida, se ela estava tendo aceitação pelos ouvintes? A forma que se criou foi o cartão QSL. É um cartão de confirmação de recepção, e também é utilizado por radioamadores para confirmar contato entre duas estações. A pessoa solicita o cartão, a outra estação envia o cartão confirmando a recepção do sinal. Algumas pessoas passaram, na década de 1950, a colecionar esses cartões. Esse hobby de colecionar cartões de QSL se estende até hoje. Por que isso prova? Isso prova que a pessoa, quanto mais cartões que a série tiver e de emissoras difíceis de ser sintonizadas, distantes do outro lado do mundo, quanto maior a coleção, mais habilidoso é o radioamador ou o radioescuta ou o entusiasta".

Hoje, a tecnologia mudou. Os chiados deram lugar ao streaming. O radinho de pilha divide espaço com celulares e aplicativos. Mas as ondas curtas trazem um legado que nenhuma inovação conseguiu substituir. Elas provam que a comunicação não depende apenas da tecnologia, mas da capacidade de chegar a quem mais precisa.

 

Créditos:

Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). A leitura do depoimento de Amir Klink foi feita por Edgard Matsuki. Roteiro e produção de Taiana Borges. Apresentação de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães.  A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

 

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