Primeiros anos da Nacional de Brasília envolvem diplomacia e cultura
Antes da inauguração de Brasília, em abril de 1960, a cidade era um imenso canteiro de obras cortado pela poeira vermelha. E, desde essa época, a comunicação pelo rádio já criava raízes no Planalto Central.

No ano de 1957, na Cidade Livre, que se chamaria, no futuro, Núcleo Bandeirante, a proximidade dos operários com o rádio começava de um jeito muito funcional.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Nascia ali A Voz de Brasília, uma iniciativa pioneira idealizada pelo radialista Carlos Senna. Não se tratava de uma grande estação com potentes antenas, mas, sim, de um serviço local que funcionava por meio de alto-falantes espalhados pelas principais ruas da cidade. Quem conta é o filho do radialista, que também se chama Carlos Senna e que há mais de 40 anos trabalha na Rádio Nacional.
"Meus pais vieram para Brasília em 1957. Meu pai montou o primeiro meio de comunicação da nova cidade, que era um serviço de alto-falante, com cornetas espalhadas pelas três avenidas principais do Núcleo Bandeirante. E um estúdio de rádio muito bem montado, profissional, mesmo, que funcionava de 7h às 19h. E de noite funcionava só com música. Mas, na essência, o que ele mais fazia era anunciar vaga para os candangos nas diversas obras de construção de Brasília".
Um pioneiro da nova capital, o empresário Álvaro Calzá conta a importância da Voz de Brasília na integração de quem chegava para trabalhar na nova capital.
"O que eu gostava naquela época era um sistema de alto-falante que tocava música o dia inteiro e tinha anúncios. Precisa de secretária, precisa de doméstica, precisa de um motorista. Eram os nossos classificado na época. E quando cheguei aqui pela primeira vez, eu lembro que viemos para conhecer, e estava tocando no sistema de alto-falante uma música, o Nat King Cole, Fascination. Rapaz, foi um momento muito especial. Eu falei: um bom lugar para morar. E graças a Deus estou aqui até hoje".
O potencial de uma emissora de rádio sempre esteve no radar do presidente Juscelino Kubitschek. No Rio de Janeiro, ainda em 1957, o governo divulgava o plano de criar não uma filial da Rádio Nacional na futura capital, mas, sim, um novo marco de radiodifusão a partir do conceito da nova capital.
Para tirar o plano do papel, a Novacap, empresa que administrava a construção de Brasília, recebeu representantes da Nacional carioca para mostrar onde seria instalada a nova rádio: na Asa Sul, na altura da 507, em um galpão-auditório na Avenida W3.
O que pouca gente sabe é que, antes mesmo de tocar sua primeira vinheta oficial, a Rádio Nacional de Brasília já estava na ativa, operando nos bastidores da diplomacia.
JK tinha a estratégia de convidar autoridades internacionais para legitimar sua grande empreitada. Mas o plano só funcionaria se o mundo ficasse sabendo. O historiador do Arquivo Público do Distrito Federal, Elias Manoel da Silva, conta essa história.
"JK disse que houve uma inauguração extraoficial da Rádio Nacional, que é pouquíssimo comentada e nem na Rádio Nacional de Brasília eu vi esse comentário. Que a Rádio Nacional de Brasília teve - e olha como isso já marca a importância da rádio - uma inauguração extraoficial. Por quê? Porque na visita do presidente Alfredo Stroessner, do Paraguai, a Rádio Nacional de Brasília, antes da própria inauguração da Rádio Nacional, acompanhou as atividades do presidente por aqui. Então, um dos primeiros grandes motes que a Rádio Nacional faz para alardear a importância de Brasília é dar visibilidade a todas as importantes visitas de presidentes, ministros de culturas, jornalistas do mundo inteiro que vinham pra cá".
Primeiro espaço cultural da cidade
E, finalmente, em maio de 1958, a Rádio Nacional de Brasília é oficialmente inaugurada. Além de uma ferramenta de divulgação da construção da cidade, a emissora ganha um novo papel: o da cultura.
É que, diante da ausência de espaços culturais em uma capital que ainda nascia, o auditório da rádio virou o grande refúgio de festa e lazer para os operários, os eternos candangos. Grandes programas com plateia ao vivo, como o famoso Programa de César de Alencar ou o programa de calouros que nasceu na capital, arrastavam multidões.
"A gente chama aqui, carinhosamente, de Galpão da 507. E ali, desde o dia 31 de maio de 1958, começou a ocorrer atividades. Por quê? Porque Brasília não tinha casas de show, parques, era só canteiro de obra. Então, de certa forma, o Galpão da 507 da Rádio Nacional foi o ponto que aglutinava essas atividades culturais. Então falar da Rádio Nacional durante a construção é falar do point cultural, de novidade, de notícias".
Nos próximos episódios, a gente vai te contar um pouco mais sobre a programação da nova Rádio Nacional de Brasília nesses primeiros anos e de como ela foi se tornando a voz dos candangos na nova capital do país.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e do documentário Brasília nas Ondas do Rádio, de Eduardo Monteiro e Diógenes Dias. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.