Programas de calouros da Nacional revelaram grandes artistas
A fila do elevador do Edifício A Noite, que levava as pessoas até a Rádio Nacional, no 21º andar, impressionava. Num piscar de olhos, você cruza com Francisco Alves, o Rei da Voz; Ademilde Fonseca, a Rainha do Chorinho; ou Carmélia Alves, a nossa Rainha do Baião.

E, misturados às grandes estrelas, espremidos na ansiedade, estão eles: os calouros. Eram rostos anônimos vindos de vários cantos do país em busca do estrelato.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
Um desses calouros que saiu do anonimato foi Bob Nelson. Ele transformou a figura do cowboy estadunidense em um fenômeno brasileiro do rádio. A carreira do cantor ganhou força com sua versão acelerada de "Oh! Susanna", inspirada em um filme sobre a Guerra de Secessão nos EUA.
Com roupas de vaqueiro e muito carisma, Bob Nelson se tornou um dos personagens mais populares do rádio brasileiro.
Os programas de calouros da Nacional se popularizavam cada vez mais. "A Hora do Pato", apresentado por Heber de Bôscoli, Paulo Gracindo e Jorge Curi, e "Calouros em Desfile", com Ary Barroso e Tião Macalé no gongo, atraíam milhares de ouvintes.
E foi no programa de Ary Barroso que uma das maiores vozes da música brasileira se apresentou pela primeira vez no rádio: a grande Elza Soares.
A pesquisadora Lia Calabre, que tem diversos trabalhos sobre a Era de Ouro do rádio, explica as oportunidades que vinham com os programas de calouros.
"Ganhar um prêmio de um programa de calouros significava um prêmio em dinheiro, ali; uma possibilidade de ser chamada para cantar, por exemplo, no cassino da Urca; a possibilidade de integrar um grupo qualquer; a possibilidade de estar em outras emissoras e até mesmo a possibilidade de gravar".
Roberto Carlos
Outro programa que era um verdadeiro celeiro de astros atendia pelo nome de Papel Carbono, comandado pelo inesquecível Renato Murce.
O Papel Carbono era um programa focado em calouros com grande potencial, como comenta José Messias, antigo apresentador da Nacional. Entrar naquele auditório da Rádio Nacional era uma mistura de nervosismo e fascínio.
"Então a Rádio Nacional só trabalhava com as grandes estrelas? Não. Também ia procurar aqueles que não tinham oportunidade, que não tinham chance".
Uma canção não tão popular de um dos grandes astros da música brasileira narra as tentativas dele de cantar nos programas de calouros da Rádio Nacional, especialmente o Papel Carbono.
É a música "Minha Tia", de um astro de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, como explica o seu Djalma, que trabalhava na emissora.
"Olha, você quer ver uma coisa que tem na música, por exemplo, Roberto Carlos, a música que fala sobre o violão e aquele blusão de couro, ele andando aqui nos corredores. Aquilo era a verdade verdadeira, mesmo. Ele era persistente, ele estava constantemente aqui".
E foi assim, com os ouvidos ligados na Rádio Nacional que o Brasil ia descobrindo talentos que ficariam para sempre na história da música brasileira.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação e do documentário "Rádio Nacional, o Brasil em Sintonia", de Paulo Roscio. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.