Repórter Esso revolucionou jornalismo, mas defendia interesses dos EUA
O ano era 1941. Enquanto a Segunda Guerra Mundial redesenhava as fronteiras da Europa, os Estados Unidos usavam seu poder para ter a América Latina sob sua vigilância. O estilo de vida americano passava a ser consumido no Brasil, trazendo da Coca-Cola ao personagem Zé Carioca.

Foi nesse cenário de transformações que, no dia 28 de agosto de 1941, estreou, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, um ícone da nossa comunicação: o Repórter Esso.
Financiado por uma petroleira norte-americana e supervisionado pela agência de notícias, também dos Estados Unidos, a UPA, o formato já fazia sucesso em outros países, como Argentina, Cuba e Venezuela.
▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.
No Brasil, várias emissoras passaram a transmiti-lo, mas foi na Rádio Nacional que ele revolucionou as bases do radiojornalismo.
"Governantes dos Estados Unidos, que foram os precursores da política da boa vizinhança, mas também a Grã-Bretanha e a França, que depois viriam a ser aliados na Segunda Guerra Mundial, estavam muito preocupados com a aproximação de Hitler do Brasil. E os Estados Unidos realizaram, então, uma série de iniciativas por aqui. Na parte econômica, a implantação da siderúrgica nacional. Na parte cultural, por exemplo, Walt Disney criou um personagem bem brasileiro, que foi Zé Carioca. E o Esso veio nessa esteira, para atrair a simpatia dos brasileiros, passando a fazer parte da rotina, com as quatro ou cinco edições diárias, dependendo da capital".
Esse é Luciano Klöckner, autor do livro O Repórter Esso: a síntese radiofônica mundial que fez história.
A consolidação definitiva do Repórter Esso se conecta com a trajetória de Heron Domingues. O jovem, que pretendia ser cantor de tango, descobriu sua vocação e conduziu o radiojornal de 1944 até 1962. Com tanto prestígio, ele chegou a divulgar um manual sobre a melhor forma de construir um noticiário na época.
"Às 8 horas da manhã, primeiro horário do Repórter Esso, esta saudação aos ouvintes deve ser feita com otimismo, voz clara e sem qualquer sinal de sono. Há necessidade de que nesse primeiro horário de nosso boletim, o ouvinte seja acordado pela voz alegre, firme e pontual do Repórter Esso. Com isso, o arrancaremos da letargia matinal, atirando-o na realidade da vida que deverá ser por ele enfrentada dentro de alguns minutos, depois do café".
Campanha do governo não foi noticiada
Essa credibilidade gerou episódios históricos. O país só teve certeza do suicídio do presidente Getúlio Vargas quando a notícia foi confirmada pelo Esso, que também leu sua histórica carta-testamento.
"Atenção, atenção, ouvintes! Além do bilhete deixado pelo presidente Vargas, há uma carta encontrada ao lado do seu corpo que diz: 'mais uma vez, as forças que os interesses contra o povo coordenaram novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, me insultam. Não me combatem, caluniam-me. Não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz".
A qualidade técnica do Repórter Esso era impecável. Mas esse controle dos Estados Unidos sobre o principal radiojornal do país tinha suas consequências.
O radiojornal, por exemplo, não podia divulgar a campanha "O Petróleo é Nosso", usada por Getúlio Vargas na década de 1950, porque, obviamente, a campanha era contra os interesses da petroleira Esso aqui no Brasil. Mas a ação nacionalista era informada diariamente em outro radiojornal, A Hora do Brasil. Esse, sim, totalmente gerido pelo governo brasileiro.
O professor e pesquisador Marcelo Abud fala sobre essa relação que os Estados Unidos tiveram sobre a audiência brasileira por meio do radiojornal.
"A gente pode pensar que era um programa de propaganda de guerra dos Estados Unidos. A ideia era valorizar o que estava sendo feito pelo ponto de vista deles. Isso tudo influencia a nossa cultura, nossa visão de mundo. A nossa, digo do país. A gente é colonizado culturalmente, hoje, pelos Estados Unidos. Lógico que muita gente vai ter a visão crítica disso, como a gente está fazendo aqui, mas o que vai ter de discurso enviesado e que as pessoas embarcam é muito grande, né?".
Esso na TV
O programa acabou também sendo um sucesso na televisão. Foi exibido na TV Tupi de 1952 até 1970. No rádio, sua última transmissão foi ao ar no dia 31 de dezembro de 1968, na locução emocionada de Roberto Figueiredo.
"1968. O Repórter Esso, um serviço público da Esso Brasileira de Petróleo, encerra aqui o seu período de apresentações através do rádio. Boa noite, ouvintes, e feliz ano novo, são os votos da Esso".
Como prova de sua relevância, o radiojornal batizou o Prêmio Esso de Jornalismo, que, por 60 anos, foi o mais importante reconhecimento da categoria no país, até ser extinto em 2016.
Créditos:
Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Mario Sartorello interpreta o texto do cartaz da RCA Victor. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães. A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.